Existe algo simbolicamente poderoso no fato de a primeira grande conferência internacional dedicada ao abandono dos combustíveis fósseis ter acontecido em Santa Marta, território da Colômbia profundamente atravessado pela lógica extrativista. Um porto de carvão discutindo o fim da era fóssil. Um país do Sul Global tentando empurrar a diplomacia climática para além da gestão controlada do desastre. Talvez, a força política da conferência tenha surgido justamente dessa contradição.
Porque, no fundo, a I Conferência Transição Longe dos Combustíveis Fósseis não foi apenas sobre energia. Foi sobre o esgotamento de um modelo de mundo.
Durante décadas, as negociações climáticas internacionais tentaram produzir consensos abstratos sobre emissões, enquanto evitavam mencionar o centro do problema: petróleo, carvão e gás.
A obsessão diplomática pela neutralidade técnica transformou a crise climática em uma espécie de engenharia de carbono, limpa, gerenciável e distante da vida concreta.
Santa Marta rompeu parcialmente esse pacto de silêncio ao colocar os combustíveis fósseis no centro da conversa, não apenas como fonte energética, mas como estrutura política, econômica e colonial.
E, talvez, tenha sido exatamente isso o que tornou a conferência diferente e mais empolgante. Principalmente, porque a sociedade civil estava no centro das discussões e das construções de soluções e futuro.
Não porque dali saíram soluções definitivas. E realmente não saíram. Os próprios documentos finais reconhecem que a conferência não produziu acordos vinculantes, mas um espaço político de construção de caminhos e pressão internacional.
Mas existe algo importante quando o debate climático deixa de ser monopolizado por negociadores e passa a ser atravessado por movimentos sociais, organizações afrodescendentes, povos indígenas, mulheres, juventudes e territórios historicamente transformados em zonas de sacrifício.
Santa Marta parecia menos interessada em administrar o inevitável e mais empenhada em perguntar quem continua sendo autorizado a imaginar o futuro.
Existe uma dimensão racial profundamente escondida na crise climática. E não apenas porque populações negras e indígenas são desproporcionalmente afetadas pelos impactos ambientais. Mas porque o próprio modelo fóssil foi construído por meio da racialização dos territórios, da exploração colonial e da produção sistemática de desigualdades globais.
Por isso foi tão significativo que, pela primeira vez, organizações afrodescendentes tenham sido reconhecidas formalmente dentro desse processo internacional. Não é um detalhe protocolar, mas centralidade na agenda que deveria acontecer em todos os espaços internacionais, sem que os movimentos precisassem pedir.
Movimentos afrodescendentes não entram nesse debate apenas para “incluir diversidade” em mesas climáticas. Eles deslocam o eixo da conversa, expõem que não existe transição justa possível se a economia verde continuar reproduzindo mineração predatória, concentração de riqueza e expulsão de comunidades racializadas em nome da sustentabilidade. A promessa de energia limpa pode facilmente se transformar em uma nova etapa do velho extrativismo colonial, agora pintado de verde.
Talvez, uma das coisas mais interessantes da conferência tenha sido justamente a recusa de separar o clima de democracia.
Em vários momentos apareceu a ideia de que o abandono dos combustíveis fósseis exige outra forma de governança internacional, menos capturada por interesses corporativos e menos dependente das travas diplomáticas tradicionais. A ministra do meio ambiente da Colômbia, Irene Vélez chegou a afirmou que Santa Marta representava “uma transformação da democracia global” e a possibilidade de finalmente falar sobre os “tabus” que, durante anos, ficaram interditados nas negociações climáticas.
E, talvez, o maior tabu seja reconhecer que o colapso climático não ameaça todo mundo da mesma forma. Enquanto parte do mundo debate inovação verde e mercados de carbono, existem mulheres negras garantindo água em territórios abandonados pelo Estado, comunidades indígenas defendendo suas terras contra mineração “sustentável”, populações periféricas vivendo entre enchentes, calor extremo e ausência de infraestrutura básica. A crise climática não chega como abstração científica para quem já vive permanentemente exposto à violência social e ambiental.
Por isso, gênero e raça não aparecem como temas paralelos dentro da justiça climática. Eles são o centro da disputa. Quando documentos produzidos pela sociedade civil em Santa Marta falam em transições “não racistas” e “sensíveis a gênero”, não estão defendendo diversidade corporativa aplicada ao clima. Estão denunciando que o sistema energético global sempre operou produzindo exclusão racial, concentração econômica e exploração dos corpos considerados descartáveis.
No fundo, a pergunta colocada em Santa Marta era simples e brutal:
É possível abandonar os combustíveis fósseis sem abandonar também a lógica de morte que sustentou o mundo até aqui?
Ainda não existe resposta pronta. Mas, talvez, a potência política da conferência tenha surgido exatamente da tentativa — ainda incompleta, contraditória e frágil — de construir um espaço onde essa pergunta pudesse finalmente ser feita em voz alta.
Mariana Belmont é jornalista, nascida em Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo), trabalha com articulação e comunicação para políticas públicas. Atuou em cargos no governo sobre questões ambientais e de habitação na Prefeitura da cidade de São Paulo. Trabalhou como coordenadora de comunicação e articulação do Mosaico Bocaina de Áreas Protegidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Foi Superintendente de Programas e Diretora de Clima e Cidade no Instituto de Referência Negra Peregum. Foi colunista do UOL e agora escreve mensalmente para a Gênero e Número. Também é ativista, parte de movimentos ambientalistas e periféricos. Recentemente foi editora convidada da Revista “Diálogos Socioambientais: Racismo Ambiental” da Universidade Federal do ABCD. É organizadora do livro “Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023). Atualmente é Assessora sobre Clima e Racismo Ambiental de Geledés – Instituto da Mulher Negra.