sexta-feira, janeiro 27, 2023

Educação para o diverso – Muniz Sodré

A diversidade que emerge na globalização contemporânea traz elementos novos para o pensamento. O espírito conservador pode não pensar desta maneira, por considerar que, na medida em que desaparece do horizonte social a ideologia da emancipação e em que o futuro perde o seu contorno utópico, o passado entraria em cena a serviço de uma diversidade cultural de coloração étnica, introduzida pelo discurso multiculturalista. Para o senso comum de língua inglesa, o diverso é apenas “ethnic”.

Foto: Margarida Neide/Ag. A Tarde

Isso é, na verdade, uma simplificação de fundo iluminista. O diverso não emerge historicamente sob o beneplácito paternalista do multiculturalismo, e sim em virtude da movimentação de grupos sociais que trafegam política e educacionalmente no espaço dos direitos civis e humanos. Um exemplo disso é o A Cor da Cultura, o projeto educativo que, desde 2004, tem produzido materiais didáticos de qualidade com vistas à valorização da cultura afro-brasileira. Voltado para a formação de educadores, A Cor da Cultura é composto de 94 programas de TV, 5 cadernos pedagógicos, um jogo educativo, um cd musical, um mini-glossário Memória das Palavras e 3 mapas: da África, da Diáspora Africana e dos Valores Civilizatórios Afrobrasileiros, além de um site onde qualquer um pode ter acesso ao material www.acordacultura.org.br.

Sob as aparências carcomidas da política tradicional, existe uma dinâmica social em busca de formas novas de expressão, em que avulta no primeiro plano o jogo existencial da diversidade. O que isso traz de novo para o pensamento e para a educação? Para começar, o interesse de agir a partir da dimensão espacial, que tem a ver com a aproximação dos seres e com o sentir. A diversidade humana é algo a ser mais sentido do que entendido.

Os homens, seres singulares, coexistem espacialmente em sua diversidade. Cada uma dessas singularidades corresponde, às vezes, à dinâmica histórica de um Outro, um coletivo diverso. Na prática, aquilo que nós experimentamos de uma cultura, principalmente da nossa, é a diversidade de seus repertórios, onde se mostram hábitos, enunciados e simbolizações. Apesar das transformações na organização do mundo e nas formas de poder, as populações sul-americanas mantêm a especificidade de suas formas de simbolizar e representar o real, levantando questões importantes para a coexistência das diferenças humanas.

O olhar hegemônico do clássico “narrador de histórias únicas” é confrontado o tempo inteiro com a pluralidade de formas pelas quais as culturas dos grupos e sociedades encontram sua expressão. Uma iniciativa que vise, por exemplo, a ampliar o conhecimento e a compreensão da história da população negra brasileira e da África tem efeitos de contra-hegemonia cultural e educacional.

Pôr compreensão ao lado do conhecimento é fazer do sentimento a lupa assestada sobre a diversidade: para além do mero registro intelectual das diferenças. Educar também pela dimensão do sensível é produzir a consciência que leva à aceitação e à aproximação com o Outro.  Como bem assinala o romancista Caio Fernando Abreu “é fácil não dizer; difícil e não sentir”.

A educação para a diversidade implica, na verdade, tornar-se “plural” em si mesmo, ao modo sugestivo de Fernando Pessoa: “Sejamos plurais como o universo!”.

 

 

 

Fonte: A cor da Cultura

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