domingo, setembro 19, 2021
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“Ela negou minha cidadania”

Em 2012, tentei receber dinheiro em um banco de Salvador. O dinheiro foi enviado por um colega dos EUA. A gerente se recusou a me deixar receber o dinheiro e pediu identificação. Dei a ela meu passaporte dos EUA e, mesmo assim, lhe disse minha nacionalidade. Ela negou minha cidadania, insistindo que eu era angolana e disse que eu não poderia receber o dinheiro que estava sendo enviado de Angola.

Em 2005, no Banco do Brasil em Salvador, eu já estava tão acostumada com o segurança bloqueando meu acesso para entrar no banco que pensei que era uma prática comum, até que li o livro de Keisha-Khan Perry, onde ela abre a obra com uma alegação de racismo arquivada devido a uma situação semelhante que experimentou quando foi a um banco em Salvador.

Já em 2018, eu estava no mercado Bom Preço, loja que frequentei no bairro do Rio Vermelho em Salvador, Bahia. Uma caixa exigiu que eu mostrasse identificação. Nunca tive problemas para comprar mantimentos e não carregava meu passaporte regularmente, pois tentava carregar apenas o essencial, como dinheiro para o ônibus, meu cartão de crédito e meu celular. Falei com o gerente, mas ele se recusou a me deixar finalizar a compra. Expliquei a ele que nunca carreguei documentos importantes por motivos de segurança. Ele insistiu que eu deveria sempre levar meu passaporte. Em geral, frequento bairros de vários níveis sociais, portanto, não tenho o hábito de carregar meu passaporte. Eles se recusaram a me deixar comprar comida e quando eu disse ao gerente que ele estava sendo racista porque eu sou uma mulher negra, ele disse que eu era racista. O racismo vem de muitas formas e, embora Salvador seja 80% composta por pessoas negras, alguns negros são levados a concordar com práticas racistas. No entanto, aqueles que estão no poder e tomam as decisões econômicas e políticas contra a negritude tendem a ser brancos.

A campanha “13 de Maio: Comemorar o quê?” é uma iniciativa de colaboração entre US Network for Democracy in Brazil, Geledés Instituto da Mulher Negra e Afro-Brazilian Alliance (ABA) e tem como objetivo reafirmar a data da abolição da escravatura no Brasil como Dia Nacional de Luta contra o Racismo, como demarcado pelo movimento negro, já que a Lei Áurea não garantiu o pleno acesso aos direitos e à igualdade para a população negra – a qual vem enfrentando profundas desigualdades desde então.

Gladys Mitchell-Walthour é PhD em Ciências Políticas pela Universidade de Chicago e professora e Professora Associada de Políticas Públicas e Economia Política no Departamento de Estudos da Diáspora Africana e Africana na Universidade de Wisconsin-Milwaukee. Suas áreas de pesquisa são comportamento político afro-brasileiro, identidade racial negra, discriminação, ação afirmativa e Bolsa Família.
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