Em sua estreia no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, a Mocidade Unida da Mooca desfila nesta sexta-feira (13) prestando uma homenagem ao Geledés, um expoente do movimento negro brasileiro. Fundado em 1988, ele se tornou um dos mais importantes centros de referência para a população negra e periférica. Liderado por Sueli Carneiro, sua figura máxima, o grupo tem um longo histórico na tentativa de sensibilizar governos e a sociedade civil para o fim do racismo e do sexismo.
O enredo, Gèlèdés – Agbara Obìnrin, que foi desenvolvido pela enredista niteroiense Thayssa Menezes, também dialoga com a cultura do povo Iorubá e lembra outros movimentos de luta liderados por mulheres, como a Irmandade da Boa Morte e o Movimento das Marisqueiras de Sergipe. A ideia é unir ancestralidade e luta.
“É uma responsabilidade muito grande. Ao lado do Renan Ribeiro (carnavalesco da MUM), que é um grande aliado dessas pautas, queremos que nada esteja fora do lugar. Temos o cuidado para que nossa mensagem fosse transmitida”, conta em entrevista a Marie Claire. “Agbara Obìnrin é essa força que cria e nos move. É ela que movimenta nossas lutas por justiça social da África até o Brasil. Hoje, isso reverbera em instituições como o Geledés, um espelhamento do nosso poder”, completa.
Além da exaltação da luta das mulheres negras, a Mocidade Unida da Mooca, também pretende pedir um basta – o aumento de casos de feminicídio no país (42 por dia em 2025), é um dos motivos para a escolha do tema. Menezes explica que esse grito ganha força através das “mães ancestrais” da tradição Iorubá:
“As Iyabás são temidas justamente por sua força, vista até mesmo como destrutiva. São figuras que podem ser vistas com medo. Nós estamos passando por todo tipo de violência possível e não há nada que uma mulher tema mais que um homem. Tê-las no enredo é dizer: ‘homens, parem de nos matar, porque temos quem nos guarda e cuida de nós”.
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‘Alegria enorme’
A homenagem para o Geledés foi escolhida por sua importância para as mulheres negras no Brasil. Muito além de um centro de pesquisa, o instituto, na visão do enredo, promove uma renovação da força das iyabás. Por isso, elas fizeram parte do processo criativo da agremiação.
“Elas estiveram nos ensaios técnicos, nas atividades da escola e no nosso barracão. Houve momentos de troca, que são muito importantes, com Sueli Carneiro e as diretoras do projeto, para alinhar aquilo que faltava. Fomos lapidando esse diamante para que todas se sintam representadas. Nos dá uma alegria enorme ver o produto final”.
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No samba-enredo, um verso tem chamado a atenção: “casa grande vai tremer”. O trecho reforça o poder transformador de mulheres negras que lutam contra o patriarcado e o racismo. “Queremos chacoalhar esse pensamento colonial, disputar o passado, ressignificando aquilo que nos é imposto desde a infância, e projetar um futuro às mulheres”, afirma a enredista.
A pesquisadora conta que a ideia não é apenas falar de momentos dolorosos e violentos da existência negra, mas também de suas vitórias. No horizonte está um ideal de futuro. “É um ato de resistência para reconstruir a sociedade por um viés mais equânime, feminino, negro e diverso. Nossa mensagem no enredo é essa: nunca mais um país, uma sociedade e uma política sem nós”.
