Nesta quarta-feira (29), Geledés – Instituto da Mulher Negra realizou o painel “Cuidar como Prática Política – Quem cuida de quem cuida?”, que discutiu o cuidado dentro do âmbito das lutas sociais e das políticas públicas. O evento contou ainda com o anúncio de uma campanha sobre o tema, que será liderada pela área de Formação, Cuidado e Emancipação da organização.
“A proposta desse diálogo é uma convocatória para pensarmos estratégias coletivas capazes de promover mudanças significativas nas relações de gênero e raça e na elaboração de políticas públicas efetivas para a construção de novas práticas sociais, capazes de reconhecer os direitos humanos, econômicos, políticos, sociais e ambientais das mulheres”, pontuou Nilza Iraci, coordenadora de Formação, Cuidado e Emancipação, durante a abertura do encontro.
Em seguida, a socióloga Fernanda Chagas enumerou algumas das ações que essa área de tem desenvolvido. “‘Enquanto viver, luto!’ é um projeto que pensa a luta por justiça e o combate à violência, mas também o fomento ao cuidado e ao autocuidado”, exemplificou.
Com mediação de Nilza Iraci, o diálogo teve participação de Ana El Kadri, codiretora executiva do Mapa do Acolhimento; Selma Farias, assistente social; Maria José Menezes, ativista do Movimento Negro e do Movimento de Mulheres Negras; e Adriana Ligiéro, gerente de projetos da Secretaria Nacional de Cuidados e Família.

Política Nacional de Cuidados
No início da conversa, Adriana Ligiéro discorreu sobre a Política Nacional de Cuidados, decretada em dezembro de 2024 pelo governo federal. O conjunto de diretrizes se destina a garantir o direito ao cuidado por meio da promoção da corresponsabilização social entre homens e mulheres.
As ações previstas estão em fase de implementação, conforme definições do Plano Nacional de Cuidados, sancionado em julho de 2025. A servidora pública destacou alguns dos princípios do plano, como o antirracismo, anticapacitismo, anti-idadismo e implementação intersetorial e interfederativa, abrangendo estados e municípios.
Diante de provocações do público presente, acerca de mulheres que exercem o trabalho do cuidado não remunerado, Adriana afirmou que está sendo estudada a possibilidade de criação de uma ‘carteira de cuidado’. A iniciativa teria o objetivo de reconhecer essa atuação e permitir o acesso a serviços específicos, além do pagamento de uma bolsa para as trabalhadoras.
“Esse trabalho invisível de cuidados – de cuidar da casa, da roupa, da comida, das crianças – é o que sustenta os demais trabalhos, o funcionamento da sociedade e da economia. Então, que a gente possa ter esse reconhecimento e, eventualmente, uma remuneração também”, afirmou.
Desafios de implementação
A assistente social Selma Farias, por sua vez, destacou os desafios de atuar diretamente com populações vulnerabilizadas. Em sua fala, sublinhou o sucateamento de serviços públicos nas periferias, que são a porta de entrada para o acesso ao cuidado, como o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), creches e Unidades Básicas de Saúde (UBSs).
Demonstrou ainda preocupação com a implementação do plano. “São mudanças de estrutura, mudanças históricas. Inclusive nas estruturas familiares. É importante pensarmos de que forma vamos fazer essa provocação, porque precisamos mudar essa estrutura que já vem há anos no Brasil”, disse.
Ana El Kadri, codiretora executiva do Mapa do Acolhimento, também ressaltou os desafios para a efetivação, destacando que a sociedade civil deve estar a par desse processo. Comentou ainda sobre a conexão entre a política de cuidado e o enfrentamento à violência de gênero.
“Sem uma política de cuidado a erradição da violência contra as mulheres nunca vai acontecer. A maior parte de quem está nesse enfrentamento são as mulheres”, pontuou, chamando a atenção para a necessidade de se olhar para as profissionais que trabalham diretamente com as vítimas dessa violência.
Em sua fala, Maria José Menezes, ativista do movimento de mulheres negras, abordou a questão racial dentro da discussão, pontuando que ser branco no Brasil é um fator de proteção, ao passo que pessoas negras e periféricas carregam em si marcas do trabalho, agravadas pela falta de acesso à serviços de cuidado.
“Uma política pública de cuidado precisa ser tangível e chegar na ponta, nas periferias e nos quilombos”, disse, ressaltando a necessidade de cobrar políticas públicas efetivas e com recorte racial.
Faces do trabalho de cuidado
O diálogo contou ainda com a participação do público. A psicóloga Cátia Cipriano, por exemplo, comentou sobre a importância de profissionais e lideranças, que trabalham com o amparo à outras pessoas, também serem cuidadas. “Nessa trajetória, percebi o quanto é difícil para as mulheres negras se permitirem serem cuidadas”, relatou.
Já a psicóloga Luiza Xavier, integrante do Instituto Procomum, enfatizou à valorização do trabalho de cuidado comunitário como possível estratégia para aplicação do plano. Citou como exemplos as associações de bairro, cozinhas e bibliotecas comunitárias. “São as práticas e soluções que as pessoas praticam em seus territórios. Já temos diversas tecnologias que garantem a nossa vida, ainda que não com toda dignidade que sabemos que deveria existir”.
No final do encontro, a coordenadora Nilza Iraci anunciou a criação da “Cuidar como Prática Política – Quem cuida de quem cuida?”, que pretende acompanhar de perto essa discussão e a implementação do plano do governo federal. Uma das ações previstas é a produção de um guia com orientações relacionadas a políticas de cuidado já existentes e as formas de acessá-las.
Fotos: Isabela Gaidis e Tatiana Pereira