Com a aproximação do prazo final da Agenda 2030 e o início das negociações sobre a arquitetura internacional que sucederá os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), cresce também a disputa pelos temas que orientarão a próxima agenda global. Nesse contexto, representantes da sociedade civil, das Nações Unidas e do movimento negro defenderam que a justiça racial deixe de ser tratada como uma questão transversal e passe a constituir um eixo estruturante das políticas internacionais de desenvolvimento sustentável. Essa foi a principal mensagem do evento paralelo “Dos Dados Desagregados à Responsabilização pela Justiça Racial: Construindo uma Plataforma Racializada de Ação para os ODS e a Agenda Pós-2030”, realizado em 8 de julho, durante o Fórum Político de Alto Nível sobre Desenvolvimento Sustentável (HLPF) 2026, em Nova York.
Promovido pelo Stakeholder Group dos Afrodescendentes (PAD SG), o encontro reuniu Letícia Leobet, copresidente do grupo e coordenadora adjunta da área internacional do Geledés-Instituto da Mulher Negra; Daniel Eshetie, da Divisão de Estatística do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (UN DESA-SD); Lamar Bailey, coordenadora da UN Anti-Racism Coalition (UNARC) e copresidente do Stakeholder Group de Afrodescendentes; e Lia Manso, consultora de incidência política da Criola. A mediação ficou por conta de Renata Juliotti, secretária executiva do Stakeholder Group de Afrodescendentes da ONU e assessora de Desenvolvimento Sustentável de Geledés.
Ao abrir o debate, Juliotti ressaltou que o encontro se trata de uma continuidade das discussões iniciadas no Fórum Regional sobre Desenvolvimento Sustentável da América Latina e do Caribe, realizado em abril, em Santiago, dialogando diretamente com a revisão dos ODS 6, 7, 9, 11 e 17, que neste ano foram revisados. Destacou ainda que a pergunta central do encontro era “como os dados desagregados podem deixar de ser apenas um instrumento de visibilidade e se tornar uma ferramenta efetiva de responsabilização pela justiça racial, orientando políticas públicas, financiamento, participação social e a governança do desenvolvimento sustentável?”
Já na abertura de sua fala, Letícia Leobet estabeleceu o tom político que permearia todo o encontro, ao sublinhar que debater dados desagregados significa discutir poder, reconhecimento e capacidade dos Estados de enfrentar as desigualdades estruturais. “Quando falamos de dados, estamos falando daquilo que os Estados escolhem enxergar”, afirmou. Em sua avaliação, a ausência de recortes raciais faz com que o racismo seja absorvido por categorias genéricas, como pobreza ou vulnerabilidade, deixando de ser tratado como uma estrutura que organiza as desigualdades. “Quando a raça não é nomeada, ela deixa de orientar indicadores, orçamentos e políticas públicas. E, quando não orienta políticas públicas, não existe responsabilização”, advertiu.
Ao relacionar esse diagnóstico à reta final da Agenda 2030, Leobet argumentou que a principal disputa internacional já não se restringe ao cumprimento das metas atuais, mas à definição dos parâmetros da Agenda pós-2030. Segundo ela, fóruns como o HLPF assumem importância estratégica porque funcionam como espaços onde novas narrativas são testadas e alianças políticas começam a ser construídas. Em um contexto marcado pelo Pacto para o Futuro, pelo Pacto Global Digital e pela Declaração sobre as Futuras Gerações, a dirigente questionou qual será o lugar da justiça racial na próxima arquitetura do desenvolvimento sustentável. O risco, disse, não é apenas o desaparecimento explícito da pauta racial, mas sua diluição em expressões genéricas incapazes de produzir indicadores, financiamento ou mecanismos de prestação de contas.
Como resposta, a copresidente do Stakeholder Group dos Afrodescendentes defendeu a construção de uma plataforma internacional que coloque a justiça racial e a justiça reparatória no centro da agenda de desenvolvimento. Segundo ela, os dados desagregados somente produzirão mudanças concretas quando forem incorporados às Revisões Nacionais Voluntárias (VNRs), aos mecanismos de cooperação internacional e aos processos de definição de prioridades e financiamento.
Para ela, o fato de ter havido reconhecimento público, em 2025, do Stakeholder Group de Afrodescendentes como parte integrante oficial da arquitetura participativa da ONU, representando um marco histórico, “Estar na sala não significa, automaticamente, estar sentado à mesa das decisões. Existe uma distância entre presença e poder. Existe uma distância entre ser mencionado e ser reconhecido como sujeito político. Existe uma distância entre aparecer nos dados e participar da definição do que deve ser medido. É justamente nessa distância que começa o nosso trabalho”. Nesse contexto, Leobet apontou o ODS 18, adotado voluntariamente pelo Brasil para promover a igualdade étnico-racial, como uma experiência capaz de influenciar a construção da próxima agenda global. “Não haverá futuro sustentável sem o enfrentamento do racismo”, concluiu.
A dimensão política apresentada por Leobet encontrou respaldo técnico na exposição de Daniel Eshetie, da Divisão de Estatísticas das Nações Unidas, responsável por detalhar o funcionamento do sistema global de monitoramento dos ODS. Para ele, a Agenda 2030 só se tornou operacional porque foi acompanhada da criação de um conjunto de indicadores internacionais capazes de medir seu progresso. “Se não medirmos os avanços, jamais saberemos se estamos progredindo”, afirmou. Daniel explicou que a partir dessa inquietação surgiu o Grupo Interagências e de Especialistas sobre os Indicadores dos ODS (IAEG-SDGs), que atualiza continuamente as metodologias e hoje coordena um conjunto de 274 indicadores globais, produzidos pelos países, harmonizados por agências especializadas e submetidos a rigorosos processos de validação antes de integrarem o Relatório Global dos ODS apresentado anualmente no HLPF.
Ao abordar a produção dos dados, Eshetie chamou atenção para uma relevante fragilidade do sistema internacional: a ausência de informações sistemáticas sobre raça. “Nossa base global praticamente não dispõe desse tipo de informação. E isso não acontece porque a ONU tenha decidido não incluí-la. A razão é simples: esses dados ainda não são produzidos ou reportados de maneira sistemática pelos países”, explicou. Como contraponto, assim como Leobet, destacou a criação do ODS 18 pelo Brasil como uma inovação capaz de ampliar o debate sobre a incorporação da dimensão racial à agenda global. O especialista ressaltou também que ampliar a disponibilidade de dados desagregados depende de investimentos em capacidade técnica, infraestrutura estatística e financiamento. Ao apresentar o Guia da ONU sobre Desagregação de Dados, publicado em 2020, lembrou que a Agenda 2030 se sustenta em uma importante promessa. “Toda a Agenda 2030 está baseada no compromisso de não deixar ninguém para trás. A desagregação de dados é um instrumento essencial para cumpri-lo”, afirmou.
Se Eshetie demonstrou as limitações e as potencialidades da arquitetura estatística internacional, Lamar Bailey, coordenadora da UN Anti-Racism Coalition (UNARC) e copresidente do stakeholder group, focou sua fala na dimensão política da produção dos dados. Em sua avaliação, estatísticas somente fazem sentido quando transformadas em instrumentos de justiça racial. “Os dados desagregados são uma ferramenta. São um instrumento de transformação. São um meio para alcançar um objetivo. E esse objetivo, para nós, é a justiça racial”, disse ela. Bailey argumentou que a principal questão não é apenas produzir informações, mas garantir transparência sobre quem coleta, interpreta e controla esses dados, sobretudo em áreas impactadas pela violência policial. “Não é possível enfrentar aquilo que não se mede. Mas também sabemos que as estruturas atuais de produção de dados ainda ocultam profundas desigualdades”, observou.
Ao relacionar os 25 anos da Declaração e Plano de Ação de Durban à construção de uma possível agenda pós-2030, Bailey defendeu que a justiça racial atravesse todos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, e não apenas iniciativas específicas como o ODS 18. Para ela, os sistemas de monitoramento precisam avaliar não apenas resultados sociais, mas também as estruturas que reproduzem o racismo, incluindo legislação antirracista, políticas reparatórias, financiamento e mecanismos institucionais de combate à discriminação. “Não basta medir resultados. Também precisamos medir as instituições, as políticas adotadas, os recursos destinados e os mecanismos criados para enfrentar o racismo”, concluiu.
A perspectiva da sociedade civil foi aprofundada por Lia Manso, consultora de incidência política da ONG Criola, que defendeu o reconhecimento das mulheres negras como protagonistas da construção das políticas públicas e da agenda internacional de desenvolvimento. Ao apresentar a trajetória da organização, fundada em 1992, destacou que mobilização, produção de conhecimento e incidência política são dimensões inseparáveis da luta por justiça racial. “As mulheres afrodescendentes não são apenas beneficiárias de políticas públicas. São as produtoras de soluções”, afirmou. Ao mencionar iniciativas como a Marcha Zumbi dos Palmares, a Marcha das Mulheres Negras e a criação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, ela lembrou que “conhecimento produzido pela sociedade civil pode se transformar em política pública”.
Ao projetar esse acúmulo para a agenda pós-2030, Lia defendeu a criação de uma “plataforma racializada de ação”, sustentada na corresponsabilidade entre sociedade civil, governos e organismos internacionais. Como prioridade para a Cúpula dos ODS de 2027, ela propôs que todos os países assumam o compromisso de produzir e utilizar dados desagregados sobre populações afrodescendentes em áreas como saúde, educação, orçamento, meio ambiente, sistema de justiça e participação política. “Os dados, por si sós, não transformam a realidade. Mas, sem eles, não há como responsabilizar instituições públicas”, afirmou. Para a representante de Criola, esses dados constituem “a ponte entre visibilidade e responsabilização” e representam o fundamento de uma justiça reparatória capaz de transformar instituições marcadas pelo racismo estrutural. “O futuro que desejamos precisa ser antirracista, interseccional, reparatório e construído com as mulheres afrodescendentes no centro das decisões”, concluiu.
As intervenções do encontro paralelo à HLPF convergiram para o entendimento de que a agenda pós-2030 representa uma oportunidade importante para ser superada uma das principais limitações dos ODS, incorporando a justiça racial como um elemento estruturante da governança global. Para além de ampliar a produção de estatísticas, os painelistas defenderam que os dados desagregados passem a orientar prioridades políticas, financiamento, mecanismos de prestação de contas e participação efetiva das populações afrodescendentes nas decisões internacionais e nacionais sobre desenvolvimento sustentável.