Geledés leva à ONU debate sobre combate ao racismo religioso, inteligência artificial e justiça climática

13/07/26
Por Kátia Mello [email protected]
No Briefing Inter-religioso Kofi Annan 2026, Thaynah Gutierrez defendeu que as comunidades tradicionais de matriz africana sejam reconhecidas como parceiras estratégicas da Agenda 2030

A reta final da implementação da Agenda 2030 tem levado as Nações Unidas a buscar novas formas de acelerar o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) diante de um cenário impactado pela crise climática, pelas transformações tecnológicas e pelo aprofundamento das desigualdades. Nesse contexto, o Briefing Inter-religioso Kofi Annan 2026 – “Adaptar-se, Adotar e Ajustar-se às Mudanças: O Papel dos Atores Religiosos na Promoção de Caminhos Éticos, Inclusivos e Inovadores para a Agenda 2030”, realizado em Nova York, nesta terça-feira,7, como parte da programação do Fórum Político de Alto Nível sobre Desenvolvimento Sustentável (HLPF), reuniu representantes de diferentes tradições religiosas, organismos internacionais e organizações da sociedade civil para discutir como as comunidades de fé podem contribuir para respostas éticas, inclusivas e inovadoras aos desafios globais. 

Thaynah Gutierrez, assessora de Clima e Racismo Ambiental de Geledés – Instituto da Mulher Negra, e yawô do Ilê Axé Omó Nanã, terreiro localizado na periferia da zona leste de São Paulo, iniciou sua intervenção apresentando estas duas dimensões que orientaram sua fala. “Sou uma jovem mulher negra e filha do Candomblé, uma religião afro-brasileira. Passei pelos processos iniciáticos da minha tradição e hoje ocupo uma posição que me permite falar em seu nome.” Em seguida, interrelacionou essas duas experiências ao afirmar que são inseparáveis nas discussões sobre justiça climática, racismo ambiental e desenvolvimento sustentável. Neste aspecto, ela levou ao debate uma perspectiva ainda pouco presente nos espaços multilaterais: a das comunidades tradicionais de terreiro como produtoras de conhecimento e soluções para o desenvolvimento sustentável.

Ao responder como as comunidades religiosas têm se adaptado às mudanças provocadas pelas crises ambiental e urbana, Gutierrez trouxe uma experiência desenvolvida por sua comunidade: o Projeto Cabaça, criado pela sua Iyalorixá, Adriana de Nanã, em parceria com outros cinco terreiros. A iniciativa, que reúne agricultoras urbanas com décadas de experiência no cuidado da terra e jovens do candomblé, tem o intuito de desenvolver ações de agroecologia e reflorestamento na periferia paulistana. Durante cinco anos, o projeto ocupou um terreno pertencente ao Instituto das Cidades da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Campus Zona Leste, onde foram produzidos alimentos sem agrotóxicos, formação ambiental, resultando em fortalecimento do “bem-viver” das comunidades periféricas. O espaço, porém, foi destruído para dar lugar a novos empreendimentos.

De acordo com Gutierrez, foi quando a adaptação deixou de ser um conceito para se tornar uma prática cotidiana. Em vez de aguardar uma solução do poder público, o grupo transferiu suas atividades para áreas situadas sob linhas de transmissão de energia elétrica, espaços normalmente considerados improdutivos nas cidades, denominados “zonas de linhão”. “Não esperamos que o Estado nos oferecesse outro terreno. Fizemos uma leitura do território — literalmente e politicamente — e transformamos espaços abandonados em áreas novamente produtivas”, afirmou. Para ela, essa experiência sintetiza uma visão de adaptação construída a partir dos terreiros: “Não se trata de ajustar-se às instituições, mas de reconstruir a relação entre comunidade e território, qualquer que seja esse território”. Sua fala evidencia a realidade de inúmeras comunidades tradicionais pressionadas pela expansão urbana e especulação imobiliária no país, para as quais adaptar-se deixou de ser uma etapa de projetos e passou a constituir uma condição permanente.

Outro momento que vale destacar sobre a participação da assessora de Geledés no fórum ocorreu durante o debate sobre inteligência artificial. Enquanto grande parte das intervenções abordava aspectos gerais sobre governança tecnológica, Gutierrez apontou os riscos de os sistemas de inteligência artificial reproduzirem e ampliarem o racismo religioso historicamente dirigido às religiões afro-brasileiras. Ela lembrou que essas tradições vêm sendo retratadas há décadas pela mídia e pela cultura popular como superstição, “magia negra” ou ainda ameaça, advertindo que algoritmos treinados com bases de dados marcadas por esses estereótipos deverão perpetuar o preconceito em maior escala.

“A inteligência artificial não criou esse problema, mas pode industrializá-lo”, afirmou ela. “Se os sistemas forem treinados a partir dos mesmos arquivos enviesados e narrativas de ataque que moldaram a opinião pública durante décadas, eles irão reproduzir essa desinformação com muito mais rapidez e com uma aparência de neutralidade.” Para enfrentar esse desafio, Gutierrez defendeu que as comunidades religiosas deixem de ser apenas objeto das tecnologias e passem a formatar narrativas. “Precisamos produzir, registrar e controlar nossos próprios conteúdos digitais”, disse, acrescentando que também é necessário exigir transparência nos mecanismos de moderação automatizada, que frequentemente classificam imagens e símbolos das religiões afro-brasileiras como conteúdos inadequados. “O parâmetro ético precisa ser muito claro: a tecnologia deve contribuir para que conhecimentos ancestrais historicamente invisibilizados alcancem os arquivos oficiais e os espaços de formulação de políticas públicas, e não se transformem em mais um mecanismo de apagamento.”

A intervenção também levou ao debate a reivindicação de ser criado um canal formal de participação para lideranças religiosas afro-diaspóricas nos processos multilaterais da ONU. Gutierrez observou que, diferentemente de outras tradições religiosas e dos povos indígenas, as religiões afro-brasileiras não dispõem de uma representação internacional reconhecida e acabam sendo incluídas genericamente em categorias como “religiões indígenas e tradicionais”. “As comunidades tradicionais de terreiros representam milhões de pessoas, protegem fragmentos de florestas urbanas essenciais para o equilíbrio climático das cidades e preservam sistemas de conhecimento ecológico que antecedem a maior parte dos modelos modernos de conservação ambiental. Mesmo assim, seguimos aparecendo, quando muito, como um subtítulo dentro do relatório de outra pessoa.” 

Neste contexto, sua recomendação foi a de que a ONU crie mecanismos permanentes de participação para essas comunidades, reconhecendo sua contribuição para a preservação da biodiversidade, o manejo de sementes, a proteção de fragmentos florestais urbanos e a produção de conhecimentos ecológicos acumulados ao longo de gerações. “Não estamos pedindo para ser incorporados a estruturas já existentes. Estamos pedindo que essas estruturas sejam suficientemente transformadas para acolher um espaço que sempre nos pertenceu.”

Ao encerrar sua participação, Thaynah Gutierrez agradeceu o convite do Conselho Consultivo Multirreligioso da Força-Tarefa Interagências das Nações Unidas sobre Religião e Desenvolvimento Sustentável (MFAC-IATF) e manifestou o interesse do Geledés em aprofundar a cooperação com o organismo. Lembrou que a instituição já atua em diferentes mecanismos das Nações Unidas, especialmente no Conselho de Direitos Humanos, e afirmou que possui um amplo acervo de dados, documentação e conhecimentos produzidos pelas religiões da diáspora africana que pode contribuir para os debates internacionais.

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