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Mãe-solo, Inaihe se torna empreendedora na pandemia

Cabelereira abre clínica de estética e já emprega cinco mulheres negras

Em fevereiro de 2021, em plena pandemia, Inaihe Nainhana Aparecida Vieira Izaias, de 23 anos, abriu sua clínica de estética e gerou emprego para cinco mulheres negras na região de Cidade Tiradentes, extremo leste da cidade de São Paulo. 

“Alcançar esse sonho não foi fácil”, diz. De início, a jovem trabalhou de segunda a segunda, com carga de 16h por dia para pagar as prestações do espaço e sustentar seus dois filhos, Bryan Davi, de cinco anos, e Ryan Lucca, de dois. 

Já em abril deste ano, Inaihe conseguiu expandir a equipe do Estúdio Inaihe Nainhana e contratou cabeleireira, manicure, design de cílios e nutricionista. No processo seletivo, ela priorizou mulheres negras e sem experiência para que tivessem a oportunidade de se desenvolver profissionalmente. 

“A gente não cresce sozinha e tem que pensar no coletivo. Eu viso mais ter um local completo do que ter dinheiro. Para mim, ter uma equipe formada por várias meninas com um histórico parecido com o meu é mais importante do que lucrar com elas”, diz. 

No futuro, Inaihe pretende abrir filiais do salão para que seu nome seja conhecido na área. Como mulher negra, jovem, mãe-solo e candomblecista, a cabelereira enfrentou diversos desafios para chegar até aqui.  

O trabalho comunitário na Cidade Tiradentes 

Filha de pedreiro e comerciante, Inaihe valoriza o trabalho desde pequena. Seu avô, Deusdedeth Galvão, foi fundador do Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Príncipe Negro e com ele aprendeu a importância da solidariedade. 

Ao lado da família, ela colabora com almoços solidários e entrega doações para pessoas em situação de vulnerabilidade em sua região. Com a chegada da pandemia não foi diferente: com recursos próprios, a escola de samba distribuiu 200 cestas básicas na Cidade Tiradentes. 

Além de ter uma carreira como empreendedora, atualmente ela também atua como coreógrafa da Comissão de Frente da Príncipe Negro. 

Em setembro, a escola sofreu um assalto e os ladrões deixaram apenas quatro instrumentos no barracão. “A gente acha que foi por maldade mesmo, porque roubaram até os fios de energia. Tivemos que parar com todos os projetos, até as aulas de karatê para crianças do bairro”, diz desapontada. Por ora, a equipe da escola não poderá promover eventos solidários e nem ensaios para o carnaval do ano que vem. 

A espiritualidade 

Inaihe cresceu frequentando cultos da umbanda e aos 16 se tornou candomblecista. Para sua iniciação, raspou o cabelo e teve que ficar afastada da escola durante três meses por causa da intolerância religiosa dos colegas. 

“Hoje eu não vivo sem a minha religião, mas antes passei por muito preconceito. Eu costumo falar que todas as coisas que conquistei vieram da ajuda espiritual e por acreditar muito que tudo iria melhorar na minha vida”, conta. 

Foi durante esse período que começou a se interessar pelo mundo da estética. Em 2016, fez um curso de cabeleireira através de uma iniciativa promovida pelo babalorixá Jair Tí Odé, mais conhecido como Pai Jair, uma relevante liderança negra de Cidade Tiradentes. 

“Eu ganhava R$ 10 por maquiagem e cabelo que fazia nas vizinhas. Ali, decidi que queria estudar algo relacionado à beleza”. Por conta desta paixão, a irmã a incentivou a entrar para a universidade e ela, então, começou a cursar Estética Cosmética Avançada pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). 

No entanto, já na primeira semana de aulas na universidade, Inaihe descobriu que estava grávida do primeiro filho. Até a conclusão do curso, teve que enfrentar diversos problemas de saúde, além de enjoos intensos. 

Para sustentar o filho, procurou diversas alternativas: vendeu bebidas no samba, revendeu roupas e chegou até a trabalhar nas eleições. 

Pouco antes da pandemia, Inaihe teve a ideia de abrir uma loja de roupas religiosas. Ela desenvolveu a marca de vestuário Axo Inaihe Ateliê que logo chamou atenção. Pelos designs e o bom custo benefício, a jovem foi selecionada para um curso de empreendedorismo no Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial). 

“Para entrar na religião precisa ter roupa, louça e tudo isso é muito caro. Uma roupa de luxo custa em média R$1.000,00 e eu estava vendendo pela metade do preço. O meu intuito era fazer com que as pessoas que precisassem entrar para a religião tivessem condições de adquirir o que precisavam”, relata. 

No momento em que estava no curso, ela engravidou pela segunda vez e não pôde dar continuidade às aulas presenciais. O ex-marido passou a frequentar o Senac em seu lugar para que ela tivesse acesso aos conteúdos e aprendesse as noções de preço e custo. 

Com o nascimento do segundo filho, passou pelo risco de morte: Inaihe teve uma infecção generalizada que quase a levou a óbito. “Sentia muitas dores e com isso teve uma hora que eu não consegui mais andar. Na sala de parto, tive uma hemorragia e coágulos. Eu pensava que não iria mais viver”, conta emocionada. 

Com dores intensas, procurou ajuda no Hospital da Cidade Tiradentes. Os médicos solicitaram uma internação urgente, mas Inaihe recusou o tratamento. “Eu tinha pra mim que se ficasse, não iria voltar. Eu assinei o Termo de Responsabilidade e voltei pra casa. Fui buscar ajuda na religião e foi isso que me ergueu”. A grave infecção de urina fez com que o seu rim quase parasse de funcionar. Ela chorava e sangrava todos os dias. 

Como método de tratamento alternativo, tomou diversos chás, se apegou a sua fé e em dois meses conseguiu se recuperar. “Por causa disso, coloquei na minha cabeça que a vida é muito incerta, então preciso fazer o que quero hoje. É preciso correr atrás para conseguir os meus sonhos”, reflete. 

A realização de um sonho 

Em março de 2020, Inaihe se separou, mas por questões financeiras, teve que conviver com o ex-marido durante seis meses no mesmo espaço. 

O sustento da família vinha apenas do Auxílio Emergencial e das coreografias que fazia para a Escola de Samba de seu avô. Todo o dinheiro que conseguia era destinado para pagar as contas e necessidades básicas dos filhos. 

Com a queda gradual dos repasses de verba, Inaihe se viu desamparada. “Os meus filhos estavam usando fralda e tomando mamadeira. O auxílio ia acabar e a gente ia fazer o quê?”, questionou. 

Foi na pandemia que surgiu a primeira oportunidade de emprego fixo. No entanto, logo ela descobriu que era um ambiente de trabalho que não respeitava seus direitos trabalhistas. 

De início, a jovem assinou um contrato no qual receberia R$ 1.000,00 para trabalhar das 10h às 18h. A contratante aumentou seu salário em R$ 200,00, mas fez com que ela trabalhasse das 6h até às 20h. Ou seja, 14 horas por dia. 

“Eu tinha apenas uma hora para amamentar meu filho e voltar para o trabalho. Emagreci tanto que as próprias clientes notaram que eu estava anêmica, fraca e com os olhos fundos”, lembra. 

Sensibilizada com a situação, a mãe a incentivou a criar sua primeira sala de estética. 

Atualmente, dona do seu próprio negócio e com equipe completa, ela reflete sobre tudo que enfrentou ao longo da vida para chegar ao cargo de liderança e diz que quer inspirar outras jovens que passaram pelos mesmos percalços. 

“Quando me tornei mãe, minha vida mudou totalmente. Quero ser reconhecida por ser mãe, negra, afro- religiosa e mostrar a outras meninas que elas também são capazes de realizar seus sonhos. As barreiras podem ser grandes, mas temos que nos unir para alcançar as nossas metas. Sonhem alto!”, conclui. 

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