terça-feira, setembro 21, 2021
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Mano Brown, políticos e ativistas usam web para pedir liberdade a manifestante preso por incêndio à estátua de Borba Gato

O rapper Mano Brown, o deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP), a deputada estadual Isa Penna (Psol-SP) e outras personalidades estão se mobilizando nas redes sociais para pedir a liberdade do motoboy Paulo Roberto da Silva Lima, o Paulo Galo, de 32 anos.

Paulo Galo é o ativista preso há mais de 10 dias por ter incendiado a estátua de Borba Gato, na Zona Sul de São Paulo.

O ataque ocorreu no dia 24, quando manifestantes queimaram pneus em volta do monumento ao bandeirante paulista. A ação tinha o objetivo de levar ao debate a existência da estátua, segundo os ativistas. De acordo com alguns historiadores, ela homenageia uma caçador de escravos. O ato foi filmado.

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Paulo Galo foi indiciado pelo incêndio na estátua do Borba Gato em 24 de julho. (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Posando com cartazes e faixas com a hashtag #liberdadeparagalo, artistas, políticos e pessoas ligadas a movimentos sociais nas periferias e coletivos negros estão postando suas fotos no Instagram e no Twitter contra a prisão de Paulo Galo.

“Já são seis dias de uma prisão arbitrária, ilegal e autoritária. São seis dias sem sua esposa e sua filha de três anos. Uma prisão pra tentar calar a luta. Não passarão! Seguiremos firmes até a liberdade do Galo!”, escreveu o músico e compositor Mano Brown.

“Mesmo com liminar do STJ desde ontem, prisão preventiva para o @galodelutaoficial é decretada e ele não sairá mais até segunda ordem!”, escreveu a deputada Isa Penna.

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A deputada estadual Isa Penna (PSOL-SP) também manifestou sua indignação com a prisão de Paulo Galo (Foto: Reprodução/Instagram)

3 prisões preventivas

Nesta sexta-feira (6), a Justiça decretou as prisões preventivas de Galo e dois outros ativistas por suspeita de terem ateado fogo na estátua de Borba Gato: o torcedor corintiano Danilo Silva de Oliveira, o Biu, de 36 anos e o motorista Thiago Vieira Zem, de 35.

Biu e Thiago estavam em liberdade. Até a última atualização desta reportagem, não havia a confirmação se os dois haviam sido presos.

Galo já estava detido, cumpria prisão temporária desde 28 de julho. O prazo dela terminaria nesta sexta. Além disso, na quinta-feira (5), o Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília, havia revogado a temporária dele a pedido da defesa, mas a Justiça de primeira instância não emitiu o alvará de soltura.

Em vez disso, a Justiça concordou com os pedidos da Polícia Civil e do Ministério Público (MP) para que fosse decretada as prisões preventivas de Galo, Biu e Thiago. A diferença entre a temporária e a preventiva é que a primeira tem um prazo definido, e a segunda é por tempo indeterminado. A Promotoria, no entanto, ainda não denunciou o trio.

O entregador confessou o ato, mas os outros dois investigados, não. Mesmo assim, a investigação indiciou os três pelos crimes de incêndio, dano, associação criminosa e adulteração de veículo.

Paulo estava detido na carceragem do 2º Distrito Policial (DP), no Bom Retiro, Centro da capital. Na sexta, ele foi levado ao 11º DP, em Santo Amaro, na Zona Sul, onde o caso é investigado. Depois seguiria para um Centro de Detenção Provisória (CDP).

Borba Gato

Bandeirantes como Borba Gato desbravaram territórios no interior do país e capturaram e escravizaram indígenas e negros. Segundo historiadores, muitos mataram índios em confrontos que acabaram por dizimar etnias. Também estupraram e traficaram mulheres indígenas.

“Para aqueles que dizem que a gente precisa ir por meios democráticos, o objetivo do ato foi abrir o debate. Agora, as pessoas decidem se elas querem uma estátua de 13 metros de altura de um genocida e abusador de mulheres”, chegou a escrever Paulo numa rede social, antes da prisão.

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Incêndio atingiu a estátua de Borba Gato, na zona sul de São Paulo, na tarde deste sábado, 24 de julho de 2021 (Foto: GABRIEL SCHLICKMANN/ISHOOT/ESTADÃO CONTEÚDO)

A defesa do suspeito considera que a prisão foi política, “fundada da criminalização de movimentos sociais”. Seus advogados recorreram ao STJ depois que o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) negou, no domingo (1º), o pedido de liberdade para Paulo. A decretação da prisão temporária havia sido feita pela Justiça de primeira instância.

No pedido de habeas corpus enviado ao Superior Tribunal de Justiça, os advogados destacam que o ativista não possui antecedentes criminais, não praticou ações violentas e colaborou com as investigações.

O que os citados dizem

O advogado de defesa de Paulo e Danilo, André Lozano, afirmou que ele e seus sócios estão “estudando qual a melhor opção” e que tomarão providências após a Justiça decretar as prisões preventivas de seus clientes.

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Incêndio atingiu a estátua de Borba Gato, na zona sul de São Paulo, na tarde deste sábado, 24 de julho de 2021. Nas redes sociais, o ataque foi relacionado ao papel do bandeirante Borba Gato na caça e escravidão de índios e negros. A SPTrans informa que 15 linhas de ônibus que passam pela Avenida Adolfo Pinheiro com a Rua Bela Vista, na Praça Augusto Tortorelo de Araújo, estão sendo desviadas desde às 13h50 deste sábado em razão de interferência na via. (Foto: GABRIEL SCHLICKMANN/ISHOOT/ESTADÃO CONTEÚDO)

Galo foi preso quando se apresentou espontaneamente à polícia para falar da sua participação no incêndio à estátua. Danilo também foi à delegacia, mas negou que tivesse ateado fogo no monumento e foi liberado. Admitiu, porém, ter ajudado a descarregar os pneus que foram queimados depois em volta da estátua.

Além de Paulo e Danilo, a polícia indiciou o motorista Thiago pelo ataque ao monumento de Borba Gato. Ele chegou a ficar preso, mas foi solto no mesmo dia por decisão da Justiça.

Procurada pelo G1, a advogada Carla Knoth Rôla Teixeira, que defende Thiago, não havia se pronunciado até a última atualização desta reportagem.

A companheira de Paulo, a costureira Géssica de Paula Silva Barbosa, de 29 anos, também chegou a ser presa quando foi à delegacia com o entregador. A Justiça a soltou dias depois após pedido da defesa. A mulher alegou que não participou do ato porque estava em casa cuidando da filha de 3 anos. Por esse motivo, a polícia não a indiciou pelos crimes.

Incêndio

A estrutura da estátua de Borba Gato foi atingida pelas chamas, mas não ficou comprometida, segundo análise preliminar da Defesa Civil. Bombeiros apagaram o fogo. Ninguém ficou ferido.

Ao analisar as imagens, a investigação conseguiu identificar a placa do caminhão usado para levar os pneus. O veículo tinha a placa adulterada. Em 25 de julho, os policiais localizaram o motorista do caminhão, Thiago. Ele também foi preso e solto provisoriamente no mesmo dia.

Em depoimento à polícia ele afirmou que é dono do veículo e que cobrou R$ 500 de frete para transportar mais de 200 pneus até o local em frente à estátua, mas que não sabia o que aconteceria.

Repercussão

No dia 26 de julho, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), lamentou o episódio e disse que um empresário se propôs a doar o valor necessário para restaurar a estátua.

Em 30 de julho, a vereadora de São Paulo Luana Alves (PSOL) propôs a substituição da estátua do bandeirante Borba Gato por uma de Tereza de Benguela, líder quilombola do século 18.

No dia 31 de julho, um grupo de lideranças conservadoras do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) fez a limpeza simbólica do monumento do Borba Gato.

A Guarda Civil Metropolitana (GCM) informou que irá aumentar o número de rondas pela Praça Augusto Tortorelo de Araújo, onde fica a estátua de Borba Gato.

Outros protestos

Esta não foi a primeira vez em que a estátua na Zona Sul de São Paulo foi alvo de protestos. Em 2020, crânios foram colocados ao lado de monumentos de bandeirantes para ressignificar a história de São Paulo.

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A estátua do Borba Gato, em Santo Amaro, Zona Sul de São Paulo, amanhece vandalizada coberta de tinta colorida (Foto: Luiz Claudio Barbosa/Estadão Conteúdo)

Alguns projetos de lei pedem a proibição ou a retirada de monumentos que homenageiam figuras como a de Borba Gato.

As propostas têm como objetivo principal estabelecer uma política pública de combate ao racismo por meio do reconhecimento do papel que figuras históricas tiveram na prática escravagista.

Há discussões na Câmara dos Vereadores da capital, na Assembleia Legislativa do estado e na Câmara dos Deputados, mas em nenhuma dessas casas legislativas os projetos foram votados ainda.

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