Oscar 2015: a festa do homem branco

Num ano em que a cerimônia tenta recuperar relevância, a não indica mulheres ou negros para melhores do ano e esnoba longa sobre Martin Luther King

por Clarice Cardoso Do Carta Capital

Não há nenhum acordo ou lei internacional que dite que premiações como o Oscar tenham de prezar por princípios de igualdade de gênero ou raça em suas avaliações. Seria, contudo, uma atitude louvável de uma instituição tão simbólica em Hollywood, dada a força inegável com que influi sobre a cultura mundial, inundando nossas salas de cinema e nossas conversas, restringindo nossas opções e marcando de forma tão definidora nossas representações de mundo.

Em 2015, contudo, a cerimônia da Academia de Hollywood, que tenta tão desesperadamente recuperar relevância (e audiência), voltará a ser uma grande festa do homem branco. Basta ver a lista de candidatos que, na opinião dos votantes, estão entre o que de mais valioso o cinema norte-americano produziu no ano passado. Todos os indicados nas categorias de melhor diretor, ator e ator coadjuvante são homens brancos. Não há nenhuma roteirista mulher em nenhuma das listas. Entre as indicadas para atriz e atriz coadjuvante, nenhuma é negra. Nas categorias técnicas, é visível a predominância de nomes masculinos entre os indicados.

Que a lista não insinue, jamais, que não há candidatos de igual talento e capacidade, sejam mulheres ou negros, entre as equipes dos milhares de filmes feitos todos os anos. Até outro dia, Gillian Flynn era aclamada por sua adaptação do roteiro de Garota Exemplar. Agora, perdeu espaço para seus pares do sexo oposto.

Entre os oito filmes competindo pelo título de melhor do ano, sete são dirigidos por homens brancos, menos um: Selma, de Ava DuVernay. Que é uma mulher negra e não figura na lista de concorrentes ao prêmio de diretor. Note-se que, no domingo 11, ela havia sido celebrada como a primeira afro-americana indicada na categoria no Globo de Ouro. Poderia passar como mais uma das incongruências do prêmio, mas é algo em que é difícil crer.

Em 2014, curiosamente, a situação parecia mais promissora. A começar pela lista de melhor ator, que trazia o ator negro Chiwetel Ejiofor, e Matthew McConaughey, que venceu por interpretar um homossexual portador do vírus HIV. Entre os atores coadjuvantes, estava Barkhad Abdi, ator negro e somaliano. A vencedora como melhor atriz coadjuvante foi a estreante Lupita Nyong’o, por 12 Anos de Escravidão, que levou o prêmio de melhor filme.

Em um ano, uma crônica da escravidão recebeu três estatuetas. No seguinte, a história da campanha de Martin Luther King pelo direito ao voto igualitário em 1965, aclamada pela crítica e tida como aposta certa, é esnobada. Se a indicação deste Selma, o longa de Ava DuVernay, a melhor filme do ano é indicativo de que há na produção qualidades o suficiente para justificar sua presença na premiação, ela mal está lá. A ausência, por outro lado, dá indícios de que talvez não seja essa a história que a Academia quer celebrar.

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