“Raça e gênero não devem mais ser tratados como temas acessórios da política externa brasileira”

13/05/26
Por Kátia Mello [email protected]
Em discurso denso realizado neste 13 de maio no Instituto Rio Branco, assessora internacional de Geledés sustenta que a exclusão da população negra dos espaços de decisão compromete a capacidade do Brasil como país

Na abertura do seminário “Raça e Gênero no Centro das Relações Internacionais do Brasil”, realizado nesta quarta-feira, 13 de maio, no Instituto Rio Branco, Carolina Almeida, assessora internacional do Geledés – Instituto da Mulher Negra, fez uma das intervenções mais densas politicamente já realizadas dentro de um espaço oficial da diplomacia brasileira. Representando a filósofa e fundadora de Geledés, Sueli Carneiro, Almeida retirou raça e gênero do lugar historicamente secundário ocupado nas relações internacionais para situá-los nas disputas por poder, financiamento, desenvolvimento e governança global.

Mais do que reivindicar diversidade institucional ou ampliação de representatividade na arena diplomática, sua fala questionou a própria lógica de funcionamento da ordem internacional contemporânea. Ao longo de seu discurso, Almeida sustentou que raça e gênero não podem mais ser tratados como temas paralelos da política externa porque ajudam a revelar como o sistema internacional distribui legitimidade, recursos, proteção política e capacidade de influência entre países e populações. “Raça e gênero não devem mais ser tratados como temas acessórios, setoriais ou complementares da política externa brasileira”, sublinhou. “Eles devem ser tratados como categorias estruturantes”, disse ela. 

A escolha de Almeida pela expressão “categorias estruturantes” é essencial para se compreender o alcance político de sua formulação. Ela não se refere apenas à necessidade de ampliar a presença negra no Itamaraty ou incorporar pautas sociais à diplomacia brasileira. Sua análise opera em uma camada mais profunda: a de que as relações internacionais foram historicamente organizadas por hierarquias raciais, coloniais e patriarcais que continuam moldando os fluxos globais de riqueza, desenvolvimento, reconhecimento político e produção de estabilidade. Fluxos que precisam urgentemente de revisão. 

Nesse sentido, raça e gênero, em sua explanação, deixam de aparecer como marcadores identitários periféricos e passam a funcionar como instrumentos analíticos capazes de explicar o funcionamento concreto do sistema internacional contemporâneo. “Eles devem ser tratados como categorias estruturantes, para que assim se possa compreender, disputar e transformar a forma como o poder se organiza no sistema internacional; como o desenvolvimento é financiado; como a democracia é protegida — ou fragilizada; como a cooperação internacional define suas prioridades; e como determinados grupos seguem sendo incluídos apenas de forma marginal nos processos de tomada de decisão”, afirma ela. 

Sua fala sugere ainda que não é possível entender financiamento internacional, cooperação multilateral, democracia ou desenvolvimento sem observar como estruturas raciais e de gênero organizam a distribuição desigual de poder entre Norte e Sul Global, entre elites e populações historicamente marginalizadas. Pontos, inclusive, que vêm sendo colocados por Geledés nos diversos fóruns internacionais que promove.

Ao formular essa crítica dentro do Instituto Rio Branco — espaço historicamente associado à formação secular da elite diplomática brasileira — Almeida também confronta uma tradição consolidada da política externa nacional: a ideia de neutralidade técnica e universalismo da diplomacia brasileira. Seu discurso desmonta a noção de que as relações internacionais operam em um terreno abstrato, dissociado das estruturas históricas de exploração racial e colonial. “Pensar em raça e gênero no centro das relações internacionais do Brasil não é deslocar o debate diplomático para uma agenda identitária”, afirmou. “É reconhecer que se tratam de duas lentes de análise indispensáveis.”

Ao utilizar a expressão “lentes de análise indispensáveis”, Almeida propõe uma inversão epistemológica importante: raça e gênero deixam de ser temas específicos de determinados grupos sociais e passam a ser categorias capazes de interpretar a própria constituição da ordem internacional. 

Em tempos de guerras internacionais, Almeida expõe uma contradição central do sistema internacional contemporâneo: a capacidade de mobilização rápida de recursos para proteção militar, estabilidade financeira e segurança geopolítica convive com a alegada impossibilidade de financiar agendas redistributivas e reparatórias. Sugere, assim, que a precarização histórica das agendas antirracistas não decorre de uma ausência material de recursos, mas de decisões políticas sobre quais vidas, territórios e interesses devem ser priorizados. “A escassez frequentemente relegada às agendas sociais e antirracistas, portanto, não é natural, ela é resultado de escolhas políticas conscientes.”

A crítica dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre financiamento climático, dívida histórica, cooperação internacional e desigualdade global.  “Raça e gênero intencionalmente não podem mais permanecer restritos ao campo dos direitos humanos”, afirmou. “Essas categorias atravessam disputas centrais da política externa contemporânea — financiamento para o desenvolvimento, clima, infraestrutura, comércio, democracia e governança global.”

A reformulação conceitual produzida por sua fala é profunda. Justiça racial deixa de ser compreendida apenas como política de combate à discriminação ou proteção contra violência e passa a envolver disputa sobre acesso a financiamento, infraestrutura, circulação de riqueza e definição das prioridades internacionais. “Passou da hora de se compreender que justiça racial não se esgota na proteção contra a violência”, declarou. “Ela exige disputar as estruturas que organizam acesso a recurso, ao poder e ao desenvolvimento.”

É nesse contexto que Almeida introduz a centralidade política das mulheres negras, como base piramidal dos princípios fundadores de Geledés. Sua análise aponta que a exclusão histórica da população afrodescendente dos espaços de decisão não constitui apenas um problema de representatividade, mas um limite estrutural à própria capacidade democrática e desenvolvimentista do Estado brasileiro. Ao utilizar o conceito de emancipação, ela amplia novamente o debate para além da inclusão simbólica. O que sua fala reivindica é que haja uma redistribuição efetiva de poder político, econômico e institucional. “As mulheres negras precisam deixar de ser pensadas a partir de uma mentalidade da ausência e precisam passar a ser situadas adequadamente nos espaços aos quais legitimamente também pertencem, que é onde se definem prioridades nacionais e internacionais, financiamento e futuro.”

O simbolismo da realização do seminário em 13 de maio — data marcada pelos 138 anos da abolição formal da escravidão no Brasil — atravessou toda a construção de seu discurso. Almeida rejeitou a ideia da abolição como marco acabado de liberdade e apresentou o pós-abolição como processo histórico ainda inconcluso. “Em Geledés, aprendemos há muito tempo que o desafio político mais profundo talvez não esteja exatamente no 13 de maio, mas no 14 de maio: o dia seguinte”, afirmou, resgatando o pensamento de Sueli Carneiro. 

Ao mobilizar a imagem do “14 de maio”, Almeida transfere o foco da assinatura formal da Lei Áurea para as permanências estruturais produzidas pela ausência de integração econômica, política e institucional da população negra após o fim da escravidão. “O dia da promessa não cumprida de emancipação política, de desenvolvimento econômico que nunca chegou efetivamente e da inclusão social que segue estruturalmente interditada à população afrodescendente no Brasil.”

Ao encerrar sua fala, a assessora internacional de Geledés transforma justiça racial em questão estratégica de Estado, como, inclusive, uma condição para se ampliar a democracia, a legitimidade política e capacidade da nação em formular seu próprio futuro. “Um país que mantém a maior parte de sua população aparte das arenas de decisão acaba limitando a si próprio”, concluiu ela bravamente. 

Seminário Sobre Raça e Gênero nas Relações Internacionais do Brasil

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Leia a fala de Carolina Almeida na íntegra

“Raça e Gênero no Centro das Relações Internacionais do Brasil”

Carolina Almeida, assessora internacional de Geledés – Instituto da Mulher Negra

Gostaria de iniciar cumprimentando a Excelentíssima Embaixadora e Diretora do Instituto Rio Branco, Sra. Mitzi Gurgel, e também o excelentíssimo sr. Thiago Santana, representante do Ministério da Igualdade Racial, cuja presença muito nos honra. 

Estou aqui representando a diretora da equipe internacional e uma das fundadoras de Geledés, Sueli Carneiro. 

Este seminário resulta de um processo de incidência internacional construído por Geledés, a partir de nossa atuação em diferentes espaços multilaterais, onde se tornou cada vez mais evidente a importância de fortalecer perspectivas antirracistas e antissexistas na formação e na prática diplomática. 

A partir dessa experiência, construiu-se, desde o ano passado, um diálogo com o Itamaraty, que demonstrou abertura e disposição para aprofundar essa reflexão, constituindo esse passo institucional relevante e oportuno que hoje testemunhamos aqui.

É oportuno pontuar também que a realização deste seminário, hoje, no dia 13 de maio também carrega significado histórico e político valiosos. 

Hoje completam-se 138 anos da abolição formal da escravidão no Brasil. Mas, em Geledés, aprendemos há muito tempo que o desafio político mais profundo talvez não esteja exatamente no 13 de maio, mas no 14 de maio: o dia seguinte. 

O dia da promessa não cumprida de emancipação política, de desenvolvimento econômico que nunca chegou efetivamente e da inclusão social que segue estruturalmente interditada à população afrodescendente no Brasil.

Assim como parte expressiva dos diplomatas do Itamaraty, eu também sou graduada em Relações Internacionais pela UnB, e desde cedo na minha formação fui apresentada a uma disciplina majoritariamente orientada por referenciais eurocêntricos; e o eurocentrismo, pela natureza da sua dinâmica própria, uma dinâmica acrítica que favorece a detenção de privilégios e a predominância nos espaços de poder por parte de um pequeno grupo, tem como estratégia tratar raça e gênero como temas periféricos, incapazes de alterar as estruturas centrais de poder e decisão.

A mudança de paradigma veio na minha trajetória acadêmica quando tive contato com o departamento de estudos latino americanos, departamento multidisciplinar da UnB, onde pesquisei movimentos migratórios na América Latina. Primeiro no mestrado, depois no doutorado, quando tive a oportunidade de trabalhar diretamente com pessoas imigrantes e refugiadas racializadas da América Latina. 

Com essa experiência tornou-se patente como a matriz clássica das relações internacionais opera por meio da universalização contraditória de experiências e interesses específicos, silenciando brutalmente as narrativas que não sejam as consideradas hegemônicas. 

E com isso, foi impossível ignorar que estamos inseridos em um sistema que naturalizou a coexistência políticas públicas de caráter humanitário com práticas históricas de racismo e sexismo institucional. Um sistema perverso que reconhece direitos enquanto mantém barreiras estruturais; que acolhe formalmente, mas produz exclusão material.

Esse é um ponto central para nós hoje: um sistema construído sobre contradições tão profundas jamais será capaz de superar as desigualdades que limitam nossa capacidade coletiva de prosperar como sociedade.

E assim, reitero, raça e gênero não devem mais ser tratados como temas acessórios, setoriais ou complementares da política externa brasileira. Não devem ser atendidos pela diplomacia.

Eles devem ser tratados como categorias estruturantes, para que assim se possa compreender, disputar e transformar a forma como o poder se organiza no sistema internacional; como o desenvolvimento é financiado; como a democracia é protegida — ou fragilizada; como a cooperação internacional define suas prioridades; e como determinados grupos seguem sendo incluídos apenas de forma marginal nos processos de tomada de decisão.

Porque, afinal de contas, a política internacional nunca foi neutra. Ela se expressa nas relações históricas de poder, hierarquias entre Estados, assimetrias entre Norte e Sul Global e revela desigualdades internas que se projetam para o plano externo.

Neste sentido, pensar em raça e gênero no centro das relações internacionais do Brasil não é deslocar o debate diplomático para uma agenda identitária. É reconhecer que se tratam de duas lentes de análise indispensáveis, já que a própria arquitetura internacional foi constituída a partir da escravidão, do colonialismo, da exploração econômica, da divisão internacional racializada do trabalho e da exclusão sistemática de mulheres, especialmente mulheres negras, dos espaços onde se definem recursos, prioridades e futuros possíveis. 

Reconhecer isso é admitir que essas desigualdades não são marginais ao sistema internacional, pelo contrário, elas ajudam a organizá-lo para privilegiar uns e excluir outros.

E isso produz efeitos muito concretos. O sistema internacional revela suas prioridades pela forma como distribui recursos, urgência e capacidade política.

 Há disponibilidade financeira e coordenação internacional para guerra, securitização e proteção de interesses estratégicos, mas não há a mesma disposição quando o debate envolve reparação histórica, igualdade racial e de gênero ou desenvolvimento inclusivo. A escassez frequentemente relegada às agendas sociais e antirracistas, portanto, não é natural, ela é resultado de escolhas políticas consciente.

É justamente por isso que raça e gênero intencionalmente não podem mais permanecer restritos ao campo dos direitos humanos. Essas categorias atravessam disputas centrais da política externa contemporânea, (financiamento para o desenvolvimento, clima, infraestrutura, comércio, democracia e governança global) e por isso, também organizam a circulação de recursos, a definição das prioridades internacionais e os limites concretos da prosperidade coletiva.

E, por isso, passou da hora de se compreender que justiça racial não se esgota na proteção contra a violência.

 Ela exige disputar as estruturas que organizam acesso a recurso, ao poder e ao desenvolvimento.

 E isso implica romper com a lógica da precariedade, uma lógica que naturaliza inclusão sem redistribuição, reconhecimento sem transformação e sobrevivência sem prosperidade. 

Se queremos incluir efetivamente raça e gênero, o princípio norteador deve ser a emancipação da população afrodescendente, especialmente das mulheres negras, que devem deixar de ser pensados a partir de uma mentalidade da ausência e precisam passar a ser situados adequadamente nos espaços aos quais legitimamente também pertencem, que é onde se definem prioridades nacionais e internacionais, financiamento e futuro.

Talvez seja justamente esse o significado político mais profundo de ressignificar este 13 de maio. 

Não como marco suficiente de liberdade, mas como ponto de partida de uma tarefa histórica ainda inconclusa, que é integrar plenamente e definitivamente a população afrodescendente ao projeto de desenvolvimento nacional. Pois um país que mantém a maior parte de sua população aparte das arenas de decisão acaba limitando a si próprio. 

Incorporar raça e gênero de forma estruturante à política internacional brasileira além de uma demanda por justiça e reparação, significa ampliar a capacidade do Estado brasileiro de produzir desenvolvimento, legitimidade democrática e inserção internacional de forma mais consistente, estável e sustentável.

Bom seminário a todas. Muito obrigada!

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