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Respeito é bom e nossa liberdade agradece!

Anielle Franco (Foto: Bléia Campos)

Durante o programa do Big Brother Brasil deste ano, uma das participantes falou a expressão “ele fez o samba do criolo doido”. Segundos depois ela mesma percebeu sua fala e tentou se retratar dizendo: “ia falar uma coisa antiga e horrível”. Mas na verdade, ela já tinha falado e pensado. No mesmo momento, ela também fugiu do ponto, mas sentiu que estava falando algo racista. E estava mesmo.

Nessa mesma semana, um influencer sugeriu que não ter um partido nazista no Brasil era um exemplo da nossa falta de liberdade. Esse mesmo influencer já tinha reclamado ao perguntar se “não poderia ter uma opinião racista”.

Eu seguiria triste e cansativamente exemplificando outros casos como esses que acontecem na mídia e que têm como cerne, pelo menos a meu ver, dois problemas comuns: o racismo e a noção de liberdade de expressão.

Certa vez, em entrevista, Nina Simone disse que “liberdade é não ter medo”. Eu, como mãe, filha, mulher preta fico arrepiada com essa noção, com a possibilidade de ver corporeidades como a minha não terem medo. Mas em sociedade o buraco é mais embaixo. A participante do reality se retratou rapidamente por medo da rejeição do público ou de ser vista como racista. O influencer falou o que desejava por não ter medo de defender uma ideia de liberdade que é absolutamente agressiva, intolerante, nociva e dura para muitos que não são exatamente como ele.

Me parece cansativo e redundante dizer que liberdade de expressão nunca foi a possibilidade de alguém dizer o que quisesse. As mensagens odiosas que recebo até hoje nas minhas mídias sociais não são manifestações da liberdade de expressão, elas são apenas ofensivas, horrendas e agressivas.

As muitas e muitas mentiras e desinformações que falam sobre a minha irmã não têm nada a ver com liberdade de expressão. Elas são calúnias, difamação, e muitos outros nomes possíveis, mas liberdade não.

Agora que estamos combinados sobre várias coisas que liberdade de expressão não é, talvez seja o momento de dizer o que ela pode ser. Ela pode ser fazer uma pesquisa sobre violência política e criticar determinadas instâncias maiores que nós a partir de análises, entrevistas, checagem de dados. Ela pode ser falar sobre a sua própria história com honestidade e defender a sua opinião com respeito às outras vidas que têm histórias diferentes da sua. Ela pode ser chamar a Lina de ela, a palavra que tá ali, tatuada na testa dela.

Liberdade é também poder tatuar na sua testa uma palavra nada ofensiva para lembrar aos outros como você quer ser chamada. Liberdade, acima de tudo, é poder ser livre. Liberdade é acima de tudo respeitar o semelhante e o diferente. Respeito é bom e nossa liberdade agradece!

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