quarta-feira, setembro 22, 2021
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“Xica”: palimpsesto e fúria encarnada sobre a Gamboa

Em “Black Women Against the Land Grab” Keisha-Khan Perry reposiciona nossa percepção sobre a Gamboa de Baixo, na cidade de Salvador da Bahia, na verdade nos faz entender, como o “baixo” na Gamboa, foi produzido como um corte no tecido vernáculo urbano. Um reassentamento das hierárquicas raciais-sociais, materializado, especializado, com a construção da Avenida do Contorno. Baixo, baixaria, baixeza, baixo-astral. A associação usual do território e do corpo negro à indignidade e à devassidão sexual, construindo o significado da negritude na diáspora tropical das Américas. Como a tara desse enorme silêncio pervertido que não pode falar em seu próprio nome.

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Por Osmundo Pinho Enviado para o Portal Geledes

Ir ao teatro na Gamboa (de Cima), nos obriga a confrontar essa arquitetura da violência e da desigualdade. Terror and enjoyment, como discute Saidiya Hartman, no coração da sociogênese antinegra nas Américas. A economia politica da escravidão como perversão sexual. Diante disso nos colocamos ao assistir “Xica”. Poderosa contra-narrativa encenada através de corpos negros dessas liliths-signos-desterrados de Xica. Das Xicas.

Sob a direção de Georgenes Isaac, o Coletivo das Liliths leva ao palco a re- encarnação da primeira travesti (não-indígena) encontrada nos registros históricos sobre o Brasil. Xica era Africana e foi escravizada. A passagem do meio, e a escravidão como linguagem extrema do poder. O espetáculo, sobre a fenda que divide a Cidade da Bahia em duas. A Cidade Alta e sua congênere “Baixa”. A geografia da morte edificada redescreve os signos do palimpsesto racial, que espetaculariza o sofrimento, a morte e a plasticidade corpórea do negro como medida de nossa mesma despossessão. Não é em termos de plasticidade, aliás, que Orlando Paterson define a condição escrava como “morte social”? A negação de si, como construção de um espetáculo para os outros. O senhor de Xica – de “white mask” no palco – , adora massagem nos pés que ela lhe faz, deleite “homoafetivo” tornado efetivo pelo chicote. Os “senhores” de hoje – de “white face” na praça – adoram as delícias que o corpo, a música, a culinária negra podem lhes proporcionar. Alguns, por aqui na Bahia, chamam a esse deleite estruturado de “baianidade nagô”.

Encontramos na portaria do teatro Luiz Mott, meu antigo professor, feliz coincidência. O antropólogo paulista, ativista LGBT histórico, comendador e decano é homenageado pela Companhia das Liliths. Que logo em seguida adverte à todxs (eu parafraseio): Buscamos aqui nos afastar da academia “eurocêntrica”. Contaremos a nossa história, de nosso jeito, sem preciosismo histórico, mas com a raiva que constrói as verdades parciais, redescritas, revistas através da poeira do tempo e da “plumagem da noite”, eu acrescentaria.

Mott é autor de relevante e originalíssima obra sobre sexualidade colonial, que contribuiu para a emergência do horizonte das moralidades e poderes do passado: “Há entre o gentio de Angola muita sodomia, e tendo uns com os outros suas imundices e sujidades, vestindo como mulheres. Eles chamam pelo nome da terra quimbanda, os quais no distrito ou terra onde os há tem comunicação uns com os outros”, diz, citando um tal Capitão Cardonega, que escreveu em 1681 essas linhas de escândalo.

A decifração do palimpsesto que promove o espetáculo, faz como sugere Carlos Figari, uma leitura extrovertida, que por meio de sua interpelação desentranha o texto nativo – polifônico e performático – soterrado pela voz colonial que produz um “Outro”. A voz hegemônica – eurocêntrica? – por meio da qual entreouvimos o feiticeiro Quimbanda, reinscreve a incomensurável alteridade corporal, sexual, política (consubstanciada sob domínio do terror escravista) no registro freyreano da “síntese de antagonismos”. Luiz Mott descreve o caso de Pero Garcia, senhor de um engenho em Peroaçu, 42 anos, casado. Foi levado a inquisição em 1618, acusado de cometer o pecado da sodomia com dois mulatos forros, “moradores de sua casa” e com dois escravos, um dos quais a época teria entre 6 ou 7 anos. Mott pondera: “Nesse caso é impossível saber se houve ou não violência física ou constrangimento moral por parte do senhor em relação a seus subalternos”.

“Xica”, furiosa, no palco da Gamboa, nos convida a des-ler essas narrativas, e a desencaixar do aparato pervertido do racismo e do desejo que ainda definem a presença e as vidas negras na Cidade da Bahia, o texto, o corpo, a voz encarnada, soterrada na poeira ensanguentada da Historia, como um meio de finalmente encontramos a nós mesmos.

Referências

FIGARI, Carlos. @as Outr@s Cariocas. Interpelações, Experiências e Identidades Homoeróticas no Rio de Janeiro, Séculos XVII ao XX. Belo Horizonte/Rio de Janeiro. Editora UFMG/IUPERJ. 2007.

HARTMAN, Saidya V.. Scenes of Subjection. Terror, Slavery, and self-making in Nineteenth-Century America. Nova York: Oxford University Press. 1997

MOTT, Luiz. Relações Raciais entre Homossexuais no Brasil Colônia. In . ___. Escravidão, Homossexualidade e Demonologia. Ícone Editora. São Paulo. 1988. Pp. 19-48.

PATTERSON, Orlando. Escravidão e Morte Social. São Paulo. EDUSP. 2008.

PERRY, Keisha-Khan. Black Women Against the Land Grab. The Fight for Racial Justice in Brazil. Minneapolis. University of Minnesota Press. 2013.

Osmundo Pinho é: Antropólogo. Professor no CAHL/PPGCS (UFRB) e no Pós-Afro (UFBA).

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