14 de maio e a Revolta dos Malês

Enviado por / FonteFernanda Meneses

Artigo produzido por Redação de Geledés

Quem passa pelo Campo da Pólvora, em Salvador, nem imagina que aquela praça, onde ironicamente hoje se encontra o Fórum Ruy Barbosa, foi palco de várias execuções e ficou marcada pela execução de quatro figuras de uma das revoltas mais importantes da história do Brasil, a Revolta dos Malês.

A Revolta dos Malês foi um levante ocorrido em Salvador, no ano de 1835, onde negros africanos escravizados de origem islâmica, enfrentaram o império em busca de liberdade religiosa e fim da escravidão.

Naquele ano, a capital baiana tinha 65 mil habitantes com cerca de 80% da população sendo negra e dessa parcela, 40% eram escravizados. Parte desse grupo era composto por africanos de origem muçulmana, vindos do sudeste da Nigéria e do Reino do Benin, chamados de Nagôs (Iorubás) e Haussás, conhecidos naquela época como Malês. O nome é derivado da palavra iorubá “imalê”, que significa “muçulmano”. 

Os Malês eram conhecidos também como “escravos de ganho”, por saberem ler e escrever em árabe e fazer contas. Atuando no centro urbano de Salvador, eram comerciantes de frutas, sapateiros, pedreiros e ferreiros, o que fizeram deles escravizados com um “status” maior, dentro de suas condições. Alguns tinham permissão de portar o Alcorão e possuíam um anel que os identificava como superiores. 

A inteligência dos Malês em pensar em estratégias, juntamente com a passabilidade em poder se movimentar na cidade, foram essenciais para a disseminação das informações da revolta que tinha como principais objetivos, o confisco dos bens dos brancos e dos chamados na época de ‘mulatos’, igualdade dos direitos em relação aos cidadãos brancos, criação de uma república islâmica, assim como o direito de liberdade ao culto baseado na religião islâmica, o fim da imposição católica, o fim da descriminação racial e extinção do regime escravocrata. Os Malês também pretendiam fundar uma república islâmica ortodoxa na Bahia e depois expandir para Pernambuco.

Uma das principais estratégias usadas foi a disseminação das informações sobre o planejamento do levante, através de panfletos escritos em árabes. Uma forma dos patrões não descobrirem as intenções do grupo e assim reunir a maior quantidade de Malês de todas as partes da cidade para poder começar uma rebelião. 

À frente do motim estavam Ahuna, Pacifico Licutan,  Nicobé, Damalu, Aprígio, Pai Inácio e Gustard, além de Luís Sanim e o liberto hauçá Elesbão do Carmo ou Dandará. O plano inicial era atacar Salvador na manhã de 25 de janeiro, data escolhida para coincidir com a festa conhecida como Lailat al-Qadr, Noite da Glória, que celebra o dia em que o Alcorão foi revelado à Maomé, mas os planos foram frustrados após uma denuncia feita pela ex-escrava Guilhermina de Souza, em lealdade ao seu patrão.

A polícia agiu rapidamente para reprimir o levante, uma batalha se iniciou e se concentrou principalmente onde hoje fica localizada a Praça Castro Alves. A batalha sangrenta termina com um grande número de Malês sendo mortos, outros presos, alguns condenados, outros deportados e alguns levados aos açoites com penas que variavam de 300 até 1.200 chicotadas.

Dezesseis escravizados foram condenados à morte pela revolta, mas doze deles conseguiram permutar a sua pena e assim, no dia 14 de maio de 1835, quatro acusados foram fuzilados no Campo da Pólvora, em Salvador, marcando para sempre a história da Bahia e do Brasil. 

Após esse episódio, o medo de uma nova revolta se instalou entre todos os habitantes livres em todas as províncias do Brasil. O caso bastante divulgado, principalmente no Rio de Janeiro, sede do Império, fez com que as autoridades passassem a ser mais rígidas com a população africana, ampliando a repressão abusiva e hostil. 

A Revolta dos Malês deixou um legado importante na história da Bahia e do Brasil, destacando a resistência dos africanos escravizados e a luta pela liberdade e igualdade. O Campo da Pólvora, onde ocorreram diversas execuções na época, hoje abriga o principal fórum de justiça do estado baiano, além de ser um local de passagem de muitos que não fazem ideia da história de resistência e coragem daquele lugar.


Fernanda Meneses é jornalista e fotógrafa baiana. Fez parte da 3ª turma do Curso de Multimídia de Geledés- Instituto da Mulher Negra e escreve para o Portal Geledés.

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