sábado, maio 21, 2022
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A escola que os jovens merecem

Depois de vencer os obstáculos da 1ª à 8ª série, os jovens e adolescentes deveriam ganhar um prêmio. Mas, ao contrário, descobrem uma escola pior. As turmas de ensino médio são as mais lotadas (chegam a 50 alunos por sala), o conteúdo é mais extenso e específico e os professores não têm preparo para lidar com o estágio de desenvolvimento dos alunos. A qualidade é tão baixa que, ao fim do 3º ano, apenas 25% dos alunos sabem o conteúdo de língua portuguesa e 10% o de matemática. As escolas não conseguem reter os jovens. Entre os 10 milhões que têm entre 15 e 17 anos, só metade está no ensino médio. Da outra metade, 1,8 milhão de alunos desistiram de estudar e 3,5 milhões continuam presos nos obstáculos do ensino fundamental.

Fonte: Rede Pró Brasil

A falta de cuidado é histórica. Mesmo na década de 90, o fundo que o governo federal criou para garantir que todas as crianças tivessem acesso à escola só cobria o ensino fundamental. O ensino médio continuava por conta dos Estados. Isso só mudou em 2006, quando foi aprovado um fundo para todos os ciclos da educação básica, da creche ao último ano. O desafio agora é resgatar os jovens que desistem da escola. E garantir qualidade para que completem os estudos.

Uma das ações mais visíveis nesse sentido foi a criação de um novo e mais ambicioso Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio. Sua pretensão é substituir os diversos vestibulares, que levam as escolas a dar um excesso de conteúdo para atender à demanda de cada processo seletivo. “O conteúdo era uma sobreposição de programas de vestibulares”, afirma o ministro da Educação, Fernando Haddad. “O professor não tinha condições de desenvolver e aprofundar as discussões.” Embora o ministro use verbos conjugados no passado, o excesso de conteúdo e a falta de tempo para atividades ainda são um problema bem presente nas escolas. O novo Enem vai na direção certa, mas não resolve tudo.

Além das carências de investimento, a principal falha do modelo é tratar jovens e adolescentes como crianças. Para Marrie-Pierre Poirer, representante no Brasil do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), é preciso engajar os alunos a pensar soluções. “Dar responsabilidade é essencial nessa fase. A escola deve ouvi-los e testar sua capacidade de construir projetos e tomar decisões.” Para não repetir o erro da escola, ÉPOCA chamou jovens a refletir sobre o que precisa mudar. Ao longo de uma semana, os cinco alunos de diferentes Estados – seus nomes estão nas fotos acima – fizeram um diário. Eles foram indicados por entidades de educação e escolas por ter facilidade em escrever e se comunicar. Nas próximas páginas, ÉPOCA apresenta um mergulho em uma semana da vida desses meninos. Com suas dúvidas, sonhos, medos e reflexões sobre a educação. Um grupo de alunos que fazem oficina de grafite na Escola Estadual Antônio Alves Cruz, em São Paulo, foi convidado a ilustrar os diários. Todas as imagens foram gravadas nas paredes da escola.
QUESTÃO 1

 

Estudar ou abandonar, o dilema do ensino médio
Mais de 20% dos alunos desistem dos estudos no 1º ano. A solução é obrigá-los ou seduzi-los a ficar?

O 1º ano do ensino médio é a série em que os alunos mais deixam os estudos. Aos 15 anos, eles já têm autonomia para avaliar se querem enfrentar mais três de escola. A cada dez alunos que fazem esse balanço no país, dois chegam à conclusão de que a escola não vale a pena. E desistem. Também é um ano de alta repetência: 15%. Em 2007, o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro foram recordistas. Quase metade dos jovens repetiu ou saiu da escola no 1º ano.

Para reduzir o problema, o Ministério da Educação quer tornar o ensino médio obrigatório. Hoje, os pais só são obrigados a matricular seus filhos da 1ª à 8ª série. Grande parte dos países da América Latina está fazendo o mesmo. O Chile já aprovou a obrigatoriedade, e a Argentina está tentando. Segundo o sociólogo argentino Nestor Lopez, autor de um estudo sobre abandono escolar no continente, quase metade dos alunos não termina o 3º ano. Entre eles, pouco mais da metade é de família pobre. Os outros teriam condições de continuar. “Aqui aparece a escola que não consegue dialogar, seduzir os jovens”, afirma Lopez. O fenômeno foi observado no Brasil por um estudo do economista Marcelo Néri: 40% dos alunos que saíram da escola em 2006 declararam falta de interesse como principal motivo.

Para Nora Krawczyk, professora da Faculdade de Educação da Unicamp, o desinteresse é um sintoma de que a escola não está bem. E o problema não pode ser combatido só com uma lei. “Sou a favor da obrigatoriedade”, diz. “Mas o fenômeno da evasão questiona nossa escola. Se ela não consegue reter o aluno, estará em condições de se tornar obrigatória?” Para ela, a medida teria de ser acompanhada de mais investimento em qualidade.

Acordei às 8 horas, abri a janela e um sol forte me recepcionou. Tomei café e fiquei deitado na cama, pensando no meu primeiro emprego. Entrei num programa de qualificação profissional e já recebi três propostas de estágio. A que mais gostei foi para trabalhar na minha escola, vamos ver no que vai dar… Quando terminar os estudos, quero cursar uma universidade para ser juiz. Estou no 2º ano, logo tem vestibular e Enem. Em Manaus, podemos fazer uma prova por ano, e a média vale para entrar na universidade federal e estadual. É o caminho mais curto, não precisa lembrar o conteúdo todo de uma vez. Mas não pude fazer porque não tinha os R$ 50 da taxa de inscrição.

Almocei com a família. Somos 13 aqui em casa. Depois tomei banho e fui andando para a escola. Na entrada, encontrei meu melhor amigo. Ele estava meio chateado, contou que estava pensando em desistir da escola. Ele tem minha idade, mas está no 1º ano porque repetiu. Eu disse que desistir não é solução para nada. Mas ele acha que sim… Não insisti, afinal, é ele quem decide o que faz.

O primeiro tempo foi física. Não gosto da matéria, tem muito cálculo. Depois tive português. A professora ainda está dando o básico do básico, começando a revisão de sujeito e predicado. Estamos atrasados, porque ficamos sem professor de português no primeiro bimestre. O terceiro tempo era história, mas também estamos sem professor há dois meses. Então, a professora de matemática adiantou a aula. Bateu a campa (sinal) e fui para o intervalo.

No começo deste ano, vi pela primeira vez os meninos passando maconha no intervalo. Eles não fumam na escola porque não dá. Mas já vi alunos vendendo. Nunca tinha visto isso na escola. Tem de ser aluno para vender lá dentro. Tem de ter intimidade, conhecer. E é nessa fase que a gente mais acha que tem amigo… A cabeça dos jovens está muito fraca. No ensino fundamental, a gente ainda é meio criança, chega ao médio e descobre outro mundo. Tem papo de sexo, a vida vai ficando adulta. É quando a gente vê que as escolhas estão por nossa conta. Como continuar ou não os estudos.

No quarto tempo não teve aula (era matemática, que adiantou). Fiquei conversando com meus amigos, não consigo entendê-los muito bem. Eles têm vontade de estar na escola, mas não para estudar. Eles vão paquerar, bagunçar, sacanear o professor. Todo mundo percebe como os alunos e os professores andam se aguentando… É como se um estivesse enjoado do outro. Não existe aquela vontade de fazer o que se faz. Para os professores, faltam melhor remuneração e reconhecimento. Para os alunos, aulas mais animadas, jovens e bem mais participativas. Acho que isso tem a ver com a evasão e que ela é um problema de todos na escola.

O quinto tempo foi sociologia, os problemas sociais estão cada vez maiores… No final de mais um dia, bate aquela vontade de chegar em casa e tirar a farda. Hoje não escutei música para dormir, como faço sempre, estava pensando no que meu melhor amigo falou, sobre desistir da escola. Amanhã nem vou comentar nada com ele. Não gosto quando alguém tenta me impedir de fazer o que quero.

 

A seleção
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Por que eles abandonam

ESCOLA4
A maioria dos alunos ainda entra na universidade pelo vestibular, não por sistemas como o de Manaus, que estabelece uma prova anual Mais que necessidade de trabalhar, os alunos de 15 a 17 anos desistem por falta de interesse

 

Grafite: Charuan Eulalio Reis e Guilherme

 

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