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A Ética e as Imagens da Violência em São Paulo

Por: Carlos Correia
Jornalista e Professor de Jornalismo
da USCS ( Universidade Municipal de São Caetano)

Fausto Henrique Gomes Nogueira

Mestre em História Social pela USP

 

 

 

 

Este ensaio analisa e questiona o papel ético da mídia na formação de uma visão crítica, social e humanística da opinião pública diante dos discursos e imagens veiculados durante a onda de violência e ataques do PCC em São Paulo.

 

Palavras-chave: Mídia, ética, espetacularização da notícia, violência, consciência, cidadania

 

The object this essay is a analysi and to raise a question about the étics paper of the mass mídia in the formation of critic vision, social and humanist, about the discourses and images showing during the sucession violents race of the PCC in São Paulo.

 

Key-words: Mídia, étics, news spetacle, violence, conscience, citizenship

 

“O homem quer o caos. Na verdade, ele precisa disso. Depressão, conflitos, badernas, assassinatos. Toda essa miséria. Somos atraídos a esse estado quase orgiástico gerado pela destruição. Está em todos nós. Nos deliciamos com isso.

A mídia forja um quadro triste, pintando-as como tragédias humanas. Mas a função da mídia não é a de eliminar os males do mundo. Ela nos induz a aceitar esses males e a nos acostumarmos a viver com eles. O sistema quer que sejamos observadores passivos”
(diálogo reproduzido do filme “Waking Life”, 2001)

 

Entre os dias 12 e 20 de maio de 2006 ocorreram em São Paulo uma série de atentados coordenados e planejados por líderes de uma facção criminosa conhecida como PCC e que constituíram um episódio dramático que exprimiu os conflitos sociais existentes em nossa sociedade.

 

Naquela altura a cidade de São Paulo, em particular, assistiu a uma escalada de violência em uma proporção provavelmente sem sentido para uma parcela da população paulistana, tendo em vista que para muitos moradores da periferia, o medo, o sentimento de insegurança, o toque de recolher estabelecido por grupos de traficantes, assassinatos próximos ao seu local de moradia, há muito tempo já fazem parte do cotidiano de grande parte da população que vive sem esperança nessas regiões. A novidade é que atingiu praticamente a todos, paralisando as atividades produtivas, trazendo um caos generalizado para a cidade.

 

Ocorreram ataques às forças de segurança, como a polícia, guardas municipais e agentes penitenciários, ao mesmo tempo em que ocorriam diversas rebeliões em penitenciárias e Centros de Detenção Provisória. Pelas informações veiculadas na imprensa a cidade sofreu, na primeira onda de ataques, 293 atentados, com pelo menos 160 mortos. As ações policiais seguidas acabaram resultando na morte de 493 suspeitos.

 

Os meios de comunicação noticiaram fartamente durante toda a semana, nos jornais escritos, noticiários de rádios e TVs, entrevistando especialistas e autoridades. O fato causou um grande impacto na imprensa, como nos revela o editorial de Albert Dines, editor do programa Observatório da Imprensa da TV Cultura:
“Marcola, o bandido, mudou tudo: os Cadernos de Cidade finalmente foram valorizados, os repórteres de rua foram reabilitados, as autoridades descobriram que não podem continuar dizendo uma coisa e fazendo outra. Marcola desarrumou as rotinas das redações, mostrou que jornais diários devem trabalhar com igual intensidade todos os dias da semana e que não adianta fingir que está tudo bem quando na realidade quase tudo anda muito mal.
Marcola mostrou que eleições não são os únicos instrumentos de mudança. A quatro meses do próximo pleito percebe-se que as mudanças devem ocorrer agora, imediatamente, antes que seja tarde.

Marcola mostrou que a violência não se concentra no Rio de Janeiro, é um fenômeno nacional que envolve não apenas os presídios e as favelas, mas também o Congresso. A corrupção não é um ilícito isolado e confinado ao caixa dois dos partidos. A corrupção deixa seqüelas em todas as esferas da sociedade.

Marcola juntou-as.

Marcola mostrou que para entender Marcola é preciso ir um pouco além das frases feitas e posturas politicamente corretas. O bandido nos acordou para as conquistas democráticas que já havíamos esquecido. Marcola relembrou a repressão e a justiça sumária nos becos escuros.

O fenômeno Marcola tem apenas 9 dias de vida. Difícil interromper o seu curso”.(2006).

 

Este texto, com tom impactante e críticas contundentes em relação à cobertura jornalística, ou ao conformismo da sociedade que recepciona essas informações, nos revela alguns problemas que o cidadão possui, em sua demanda por informações, filtradas e trabalhadas com qualidade discutível, sem reflexão, acerca das causas e complexidade dos fatos históricos relacionados à violência no mundo contemporâneo.

Este artigo, assim, não tem por objetivo apreender os estudos produzidos acerca do fenômeno da violência, nem tampouco averiguar as pesquisas referentes aos meios de comunicação e o seu impacto sobre as pessoas, tendo em vista que inúmeros especialistas já abordaram estas temáticas, particularmente no interior da área de Comunicação Social. Por outro lado, inúmeras pesquisas têm demonstrado o impacto da violência sobre a sociedade, em vários campos de pesquisa, como na psicologia, psiquiatria, teoria da recepção etc.

 

Nesse sentido, estuda-se normalmente os efeitos negativos às populações expostas à essa violência, seja na ficção, nos desenhos ou noticiários; alterando valores, comportamentos e representações.
Nossa intenção consiste em efetuar uma breve análise sobre os discursos produzidos pela imprensa na semana da chamada primeira “onda de ataques” realizados por criminosos ocorridos em maio de 2006 em São Paulo, procurando abarcar as representações e sentidos construídos pela mídia. Denominamos aqui primeira “onda”, pois os ataques se repetiram após algumas semanas, com as mesmas características, e com uma intensidade um pouco menor.

 

Advertimos que muitos registros, infelizmente, se perderam. Foram captados naquele momento, na semana em que ocorreram os ataques, impossibilitado de se deslocar ao trabalho, tendo em vista que o transporte funcionou de maneira precária, e as escolas fecharam com medo dos ataques. Assistimos a programas veiculados durante a tarde por emissoras como TV Cultura, TV Record, Rede TV, Gazeta, Rede Bandeirantes, ou emissoras de rádio como a CBN.

 

Poucos registros podem ser resgatados, como no caso da CBN que disponibiliza seus programas antigos em seu site na Internet (http://globoradio.com/cbn), oferecendo-nos registros efêmeros.

 

Inicialmente, para realização do estudo, torna-se imprescindível, inicialmente, apreender o significado da palavra violência e o papel que os meios de comunicação possuem nesse processo, ao forjar formas simbólicas de compreensão da realidade. Se pensarmos que “violência” provém do latim violentia, que significa impetuosidade, comumente ligamos a palavra ao uso da força física, mas devemos tomá-la num sentido mais amplo, associando a natureza do ato violento à intencionalidade de causar danos físicos, psicológicos ou sociais. Sem dúvida, compartilhamos de forma coletiva com uma multiplicidade de violências físicas, psicológicas e simbólicas existentes: a violência no esporte, no trânsito, a fome, precárias condições de existência, contra as mulheres, crianças, violência política, violência policial, violência da mídia, dos grandes grupos econômicos, do consumismo desenfreado, e que também reproduzem os seus efeitos em uma sociedade que se desestrutura e empobrece a cada dia.

 

A ação violenta pautada pela ausência de ética conduz à impossibilidade de relações e construções de articulações sociais. Assim sendo, Marilena Chauí, em texto de 1999, empreendeu uma análise do conceito de violência, considerando-a contrária a qualquer tipo de proposta ética na construção da sociedade. Para ela, violência significa “um ato de brutalidade, sevícia e abuso físico e/ou psíquico contra alguém e caracteriza relações intersubjetivas e sociais definidas pela opressão e intimidação, pelo medo e o terror. A violência se opõe à ética porque trata seres racionais e sensíveis, dotados de linguagem e de liberdade, como se fosse coisas, isto é, irracionais, insensíveis, mudos e inertes ou passivos”.

 

Uma ação ética é uma ação consciente, que busca a valorização do que é bom e justo. Existe, portanto, a necessidade de um agente consciente que entenda os valores da sociedade ao qual ele está inserido, e que, ao mesmo tempo, saiba condicionar sua vontade aos demais membros do grupo social, na medida em que padrões éticos ocorrem no relacionamento com os outros. Desse modo, a ação é ética se ocorre na vida de relação, em conjunto com outros agentes sociais, compartilhando valores como a liberdade e a racionalidade:

 

“Assim, uma ação só será ética se consciente, livre e responsável e será virtuosa se realizada em conformidade com o bom e o justo. A ação ética sé é virtuosa se for livre e só será se for autônoma, isto é, se resultar de uma decisão interior do próprio agente e não de uma pressão externa. Evidentemente, isso leva a perceber que há um conflito entre a autonomia da vontade do agente ético (a decisão emana apenas do interior do sujeito) e a heteronomia dos valores morais de sua sociedade (os valores são dados externos ao sujeito)” (Chauí, 1999).

 

A autora nos revela uma contradição existente nos discursos produzidos, também, pela mídia, na medida em que se a sociedade orienta-se por parâmetros éticos, sendo, portanto, contrário à violência, acaba aceitando muitas vezes soluções violentas para resolver tais conflitos. Portanto, nem toda a violência é criminalizada, assim a violência é descaracterizada quando é tratada apenas como um crime contra a propriedade e a vida; ou então como “um acidente na superfície social sem tocar em seu fundo essencialmente não-violento – eis por que os meios de comunicação se referem à violência com as palavras “surto”, “onda”, “epidemia”, “crise”, isto é, termos que indicam algo passageiro e acidental”.

 

Essas análises encaixam-se perfeitamente nos fenômenos ocorridos em maio de 2006, e abordam com nitidez o tratamento dado pela cobertura jornalística naquela oportunidade, e que iremos comentar mais adiante. Os fenômenos ocorridos em maio de 2006 apresentam, com nitidez, que o tratamento perpetrado pela cobertura jornalística está permeado pela superficialidade, visto que o conceito de violência é reduzido a crime e/ou surto.

 

A imagem da violência resultante não objetiva elucidar suas origens ou causas, ou outras formas de violência tão nocivas e contrárias à construção da sociedade: “Dessa maneira, as desigualdades econômicas, sociais e culturais, as exclusões econômicas, políticas e sociais, o autoritarismo que regula todas as relações sociais, a corrupção como forma de funcionamento das instituições, o racismo, o sexismo, as intolerâncias religiosa, sexual e política não são consideradas formas de violência, isto é, a sociedade brasileira não é percebida como estruturalmente violenta e por isso a violência aparece como um fato esporádico superável” (Chauí).

 

Uma outra abordagem interessante, que consideramos complementar para os objetivos propostos neste texto, embora partindo de parâmetros diferenciados é o do psiquiatra Jurandir Freire Costa em conhecido artigo sobre a “cultura da violência” na sociedade e suas implicações no imaginário brasileiro. Sob uma outra perspectiva, a violência na sociedade brasileira, ou melhor, a cultura da violência , segundo Jurandir Freire Costa, indica uma construção própria no imaginário nacional implicando numa aceitabilidade de condições brutais a que estamos submetidos. O autor indica que: “ela segue regras próprias. Ao expor as pessoas a constantes ataques à sua integridade física e moral, a violência começa a gerar expectativas, a fornecer padrões de respostas. Episódios truculentos e situações-limite passam a ser imaginados e repetidos com o fim de caucionar a idéia de que só a força resolve conflitos. A violência torna-se um item obrigatório na visão de mundo que nos é transmitida. Cria a convicção tácita de que o crime e a brutalidade são inevitáveis. O problema, então, é entender como chegamos a esse ponto. Como e por que estamos nos familiarizando com a violência, tornando-a nosso cotidiano.” (1993)

 

A definição de violência do autor aproxima-se daquela oferecida por Chauí: “violência é a palavra que empregamos para denominar a série de atos intencionais que se caracterizam pelo uso da força, em situações de conflito, transgressão às leis que visam o bem comum e predomínio da crueldade sobre a solidariedade no convívio humano”, uma vez que seu artigo aborda a aceitabilidade da violência, relatando muitos casos que forjam uma cultura da violência.

 

Os dois autores fazem, assim, uma escolha pela ética na sociedade, fornecendo análises referentes aos valores com os quais moldamos nossas relações e, assim, conduzindo-nos a dar novo significado aos nossos modelos éticos e morais. Desta maneira, esta postura ética rompe com o círculo vicioso imposto pela mídia, que podemos chamar de uma “estética da violência” ao valorizar a utilização da força trazendo uma moral desvinculada de processos éticos, na medida em que os agentes sentem-se atraídos pela violência como única forma possível de responder ao quadro de violência. Esta, imbuiu-se na cultura através do mass media, que passa a ser considerado como algo natural, inerente ao ser humano. A “cultura da violência”, assim, é forjada, ao cairmos em um círculo vicioso, na medida em que, ao não romper com o processo, reproduzimos representações e estereótipos dentro de determinados padrões violentos.

 

Esta postura muitas vezes nos afasta de uma atitude ética, isto é, a de que a “crença ética é aquela que exige do sujeito uma posição quanto ao certo e ao errado. No momento em que duvidamos da “bondade” ou da “maldade” de certa ação estamos alterando nossos sistemas de crença. Ou seja, o justo e o injusto; o violento e o não violento; o humano e o desumano dispensam fundamentos racionais para determinar o modo como agimos e avaliamos nossas ações. Daí a dificuldade de que enfrentamos quando tentamos convencer indivíduos adeptos da violência de que o recurso aos meios legítimos da justiça ainda é o melhor meio que temos de eliminar conflitos.” (Costa).

 

Outra imagem, talvez, que reproduz o que melhor aconteceu em maio de 2006. Não se sabia mais em quem se podia confiar, nenhum lugar parecia estar seguro.

As pessoas acreditavam em um estado quase apocalíptico acreditando em boatos que eram produzidos instantaneamente ao sofrer as conseqüências daqueles atentados. Jurandir Freire falava de um “medo social, o pânico com características fóbicas.

O autor também defende a assimilação de procedimentos éticos que possam alicerçar a construção de uma sociedade democrática. Dessa maneira, uma atitude não ética é pautada pela resolução dos conflitos sem a mediação dos poderes e instituições constituídos, como a polícia, a justiça etc. A moralidade passa a ser algo individualizado ou pertencente a um determinado grupo, e não constituinte de princípios éticos universalmente válidos. Esse é o produto da “cultura da violência”. Essa cultura da violência tem uma outra faceta que é a cultura do medo. Michael Moore, no documentário Tiros em Columbine, acerca das causas da violência nos Estados Unidos, e as imagens criadas pelos discursos políticos e veículados nos meios de comunicação, nos indica que o medo é o principal produto da violência, tendo por objetivo a transmissão de uma determinada ideologia com vistas ao controle social.

 

Verificamos uma criação/recriação de um universo simplificador entre o bem e o mal, o certo e o errado, dependendo do lado de quem a pessoa se posiciona, descaracterizando a complexidade das mazelas sociais.

Aceita-se a violência, a brutalidade, como forma de defesa social, perdendo o pressuposto ético que incrimina qualquer tipo de violência. Esta pode ocorrer em todos os níveis, como por exemplo contra uma criança, quando é flagrada cometendo um delito. Ela deixa de ser uma criança com direitos constituídos, vira uma “coisa”. Já não é mais uma criança, torna-se um menor-delinquente, ou quem sabe, um vir-a-ser uma coisa. A coisificação do outro, é outra característica de uma sociedade amedrontada que não confia nos poderes constituídos. A sociedade busca seus inimigos, alia-se a discursos truculentos, muitas vezes disseminados pela política e pela polícia, sente saudades de soluções de extermínio, de chacinas e faxinas étnicas-sociais, como diversas que temos notícias. A cobertura da imprensa, assim, construiu uma determinada espetacularização dos conflitos humanos sem a devida análise das mazelas sociais que estão na origem da maioria das ações violentas.

 

A partir do momento em que concebemos a sociedade como formada por indivíduos livres e conscientes, portadores dos mesmos direitos, que possuem uma consciência de si, e do grupo, esse quadro engendra uma necessidade de se refletir melhor acerca da construção que os meios de comunicação perpassam em seus discursos: “Em outros termos, entendemos que a violência não pode ser simplesmente negada, considerada como uma parte maldita da sociedade, um resquício do passado que deve ser eliminado: ela é um dos elementos vivos de qualquer projeto social.De um ponto de vista mais amplo, acreditamos que, ao invés de negarmos a sua presença e a repudiarmos como um fantasma, deveríamos procurar compreender como ela se inscreve nas relações sociais e no nosso imaginário. Essa atitude reflexiva poderia contribuir para um melhor conhecimento da nossa sociedade, e também para a modulação da própria violência.” (Rifiotis, 1998, p. 27).

 

VIOLÊNCIA COMO SHOW MIDIÁTICO

A partir destes referenciais é interessante notar as maneiras através das quais a mídia tem trabalhado com a questão da violência, particularmente em relação aos atentados ocorridos no mês de maio.

 

Essas observações nos revelam as limitações do trabalho jornalístico, principalmente ao retratar as experiências coletivas dramáticas dos grupos sociais; pois “quando se aproxima demais da emoção, a imprensa se transforma num mero show de notícias, preocupado com o consumo dos efeitos e não com a apuração das causas. Carente de uma referência teórica, oscila entre a euforia e a depressão, entre o catastrofismo e o sensacionalismo. Quando se aproxima do polo da razão, investigando as causas dos fatos, o jornalismo amplia a própria qualidade.

 

Nesse caso procura religar informações dispersas e integrá-las num corpo de conhecimentos e valores.” (Ribeiro, 1994, p. 10).

 

O jornalismo trabalha com o cotidiano, com fatos que afetam a vida das pessoas, e acaba selecionando o que é importante, recriando as experiências, atribuindo importância diferenciada aos fatos; trabalha, portanto em uma velocidade que impede o aprofundamento das questões e análise dos temas, acabando por recriar pré-conceitos e reforçando valores, neste caso, autoritários. O discurso aparentemente moderno e “crítico” esconde-se o modelo e a cultura da violência.

 

Entretanto, o trabalho da informação jornalística deveria ser pautado por uma postura ética, para além de subjetividades e interesses, como referência nos discursos jornalísticos, assim, “é necessária a intervenção da subjetividade na composição do fato. O juízo ético, a ideologia, a opinião são pré-condições da abordagem dos fenômenos” (Ribeiro, p. 10). Mas, como já apontou Bucci “numa época em que se tornou lugar-comum dizer que o conhecimento é segredo de todas as atividades, chega a ser chocante constatar que a maioria dos jornalistas praticamente não estudam. Ao contrário, dão mostras de um sentimento antiacadêmico e antiintelectual quase sem precedentes.” (2000, p. 199).

Abordando alguns exemplos de tratamento em relação aos casos de maio, verificamos os termos através dos quais identificava-se as origens pertinentes aos ataques:
• a negligência das autoridades que nunca levaram a sério a organização que se estabelecia há tempos, com suas lideranças constituídas em presídios;
• o problema do tráfico de armas que facilita a entrada de armamentos no Brasil;
• o sistema carcerário que concedia no seu interior “muita liberdade” aos detentos;
• conivência de agentes penitenciários que auxiliariam na entrada de celulares ou outros objetivos para os detentos;
• inoperância do Estado ao não bloquear os sinais de celulares dos presídios; celulares que não eram bloqueados nos presídios;
• os advogados dos criminosos que são uma ponta de ligação entre os criminosos e as quadrilhas fora dos presídios;
• a impunidade existente na Justiça, etc1.

 

Sem dúvida, esses problemas são históricos, contribuindo com o atual estado de coisas, e demandam soluções urgentes. Entretanto, percebemos raras referências em relação a outras raízes do problema. Afirmava-se que as causas não eram sociais, mas a violência se explicaria por si mesma.

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1 Para algumas referências ver no site da CBN entrevistas realizadas a partir do dia 3 de maio. Como exemplo: Entrevistas com Saulo de Castro Abreu Filho, secretário de Segurança de São Paulo, Wallter Maierovitch, juiz e presidente do Instituto Brasileiro Giovani Falcone e Coronel José Vicente, ex-secretário Nacional de Segurança.

 

Reconhecendo-se a imagem da polícia e seu sofrimento por terem sido o alvo preferencial dos ataques, qualquer discurso que pedia equilíbrio nas ações e a averiguação da identidade das vítimas, com um possível excesso das ações policiais, era tido como favorável à criminalidade. Seria direito da polícia a resposta na mesma altura. A lei do “olho pó olho, dente por dente”, tornou-se a panacéia dos discursos. Figuravam na lista de entrevistados recorrentes, personalidades tradicionalmente ligados à posturas conservadoras no trato às questões da violência, tornando as soluções apenas em termos de repressão violenta. Qualquer discurso no sentido de se reconhecer os direitos humanos eram silenciados.

 

Se as soluções eram unânimes na identificação parcial dos problemas, o mesmo ocorria em relação às soluções propostas:
• instalação de bloqueadores de celulares nos presídios;
• a presença ostensiva do exército nas ruas;
• revista de advogados dos criminosos;
• fortalecimento do Regime de Detenção;
• legislação penal que coíba ainda mais as ações criminosas;
• “tolerância zero”, prendendo-se cada vez mais.

 

Procurava-se criar uma opinião acerca da capitulação do Estado diante dos bandidos, ao mesmo tempo, que saudava-se as ações na medida correta. Entretanto, alguns pontos não eram tratados. Interessante notar que realmente a polícia tem prendido mais, e muitos líderes estão presos, seria portanto essa a solução, tendo em vista que muitos problemas foram transferidos para o interior dos presídios, e as autoridades não conseguiram controlar a criminalidade?

 

Ouvimos no rádio e assistimos em canais de televisão as poucas referências à questões ou padrões éticos. Qualquer referência a isto pelos entrevistados sofriam críticas pelos outros membros da mesa.

 

A vítima passa a ser toda a sociedade, como agente social e público tendo uma cobertura gravada pela manipulação, eivada de preconceitos ou soluções fáceis e pouca reflexão, que dificultam uma opinião crítica por parte dos espectadores. Esse fenômeno complexo do qual todos fazem parte através de nossas vivências e experiências subjetivas, são transformados em uma imagem que mistura realidade e ficção, contribuindo para a construção de uma civilização ancorada na violência.

 

Outro aspecto a ser considerado nas análises empreendidas tendem a desconsiderar a violência arraigada na sociedade em todos os seus aspectos, em relação à pobreza social, ou a violência política. Sem dúvida, a política neoliberal levada a cabo nas últimas décadas, foi incapaz de resolver os conflitos, aumentando a desigualdade social e econômica, aprofundando as contradições perenes no mundo atual. Ao mesmo tempo, os impactos tecnológicos criaram a necessidade de um mundo “menor” em termos populacionais, passando o ser humano a ser considerado como desnecessário para a ordem econômica. A produção destes discursos, assim, contribuem para uma alienação em relação às reais causas desse processo. Esta, talvez, seja a pior forma de violência, aquela imperceptível para nós, que somos produtos e agentes.

 

Impossibilitados de apreender a sociedade no seu devir, como construção social, as imagens trabalham apenas com o tempo presente, com soluções imediatistas e truculentas. Isso atende, sem dúvida, a interesses particulares. A sociedade vai se acostumando aos sentimentos de medo, tornando-se pouco sensível à violência que adentra em sua casa, colaborando com o aumento da agressividade. As arbitrariedades são saudadas como único caminho possível.

 

Assim, concordamos de forma consciente ou não, com a violência, temos preconceito em relação ao menor infrator, aceitamos a existência de instituições repressoras como a antiga Febem, como depósito de adolescentes; acreditamos que “bandido bom é bandido morto”.

 

Aquele momento constituía-se como uma oportunidade que se ofereceu no sentido de discutir a existência de dois brasis dentro da sociedade: o que era normal para muitos e novidade para outros, as profundas desigualdades sociais existentes. Mas os discursos procuravam não identificar a violência com questões sociais. É bem verdade, que inúmeros cientistas sociais foram entrevistados e alertavam para se pensar estes problemas sob uma ótica diferenciada. Essa escolha, porém, não parecia produzir notícias relevantes e impactantes.

 

A mídia como produto da cultura capitalista contemporânea, nos revela muitas vezes os conflitos e contradições do gênero humano, nos remetendo a contextos reais e ilusórios, mas que se arraigam no cotidiano dos leitores, telespectadores, ouvintes e internautas. Nos fazem pensar sobre as limitações de uma sociedade que vivencia suas tragédias ainda mais do que seus sucessos. No entanto, não partimos do pressuposto de que a consciência das pessoas é determinada pela mídia, construindo um filtro, a partir do qual o indivíduo compreende a sociedade; mas sem dúvida que a interferência dos meios de comunicação são fundamentais.

 

A violência, assim, vende bastante como produto jornalístico, sendo uma de suas principais mercadorias. Há programas, inclusive, voltados para isso, como o Linha Direta da Rede Globo; jornais que se notabilizaram pela reprodução de crimes como o Notícias Populares, ou programas de rádio que buscam a dramatização de crimes, como o extinto programa de Gil Gomes.

 

A mídia deveria preocupar-se na construção de uma sociedade mais consciente e democrática, contribuindo com uma função educativa. Esses processos comunicativos deveriam induzir à reflexão crítica da realidade, e a busca pela liberdade e autonomia do indivíduo. Emissoras e rádios a partir do momento que são concessão pública, deveriam praticar, talvez, uma programação mais cultural. Soluções, enfim, pautada pela ética, como demonstraram os autores acima. Uma coisa é demonstrar as contradições e conflitos na sociedade, outra estruturar as informações de tal sorte que essa violência seja pulverizada em pequenas dramatizações cotidianas, sem nexo com o global, com uma sociedade consumista e alienada. Em uma sociedade com baixos níveis de escolaridade esta problemática torna-se mais dramática. Muito provavelmente, a mídia ainda não reconheceu este papel que ela possui em nossa sociedade.

 

Nossa percepção das coisas deve ser no sentido da efetivação de uma sociedade democrática. Há décadas este foi o sonho, que parecia possível a partir de 1989. Os conflitos são os mesmos, as demandas ainda não foram realizadas. O que mudou foram as imagens e os discursos que nos confundem. As intenções por trás disso devem ser dissimuladas urgentemente.

 

Pode-se argumentar que estas imagens da violência e princípios extraídos do senso-comum tem como objetivo primordial provocar emoções sem adentrar em processos conscientes de racionalização. Dessa forma, seria a vontade geral ter uma polícia violenta. Os direitos humanos passam a ser, nessa visão, uma forma de se beneficiar bandidos, pois só a eles protegem.

 

Nessa sociedade com múltiplas identidades forjadas, este mosaico construído com criaturas consideradas nefandas e fora dos padrões de civilização, atrapalham a beleza da cidade. Escondidos, os outros, nos seus veículos blindados, ouvindo os discursos sobre quem são os arautos da violência institucional são atraídos pela imagem da repressão, colocando a vingança e a morte, como único instrumento capaz de colocar os bárbaros sob controle. Para estes, só a exclusão do processo social serve, pois eles não têm nada a ver com isso. Estão fora do jogo do consumismo. São os únicos culpados pela sua miserabilidade. Não merecem mais do que a exclusão do jogo.

 

REFERÊNCIAS

BUCCI, Eugênio. Sobre Ética e Imprensa. Companhia das Letras, São Paulo, 2000
CERVERA, Rafael C. A violência nos meios de comunicação. Comunicação & Educação, São Paulo, [8], jan./abr. 1997.
CHAUÍ, Marilena. Uma ideologia perversa. Folha de São Paulo, Dom. 14/3/99, Cad. 5. MAIS!
COSTA, Jurandir Freire.O Medo Social. Veja 25 anos – Reflexões para o futuro. São Paulo: Editora Abril, pp. 83-89, 1993.
DINES, Albert. MÍDIA X ATENTADOS SP – O bandido que acordou a mídia. Programa Observatório da Imprensa dia 23/05/2006, www.observatoriodaimprensa.com.br
RIBEIRO, Jorge C. Sempre Alerta – Condições e contradições do trabalho jornalístico. São Paulo: Brasiliense, 1994.
RIFIOTIS, Theophilosa. Dilemas éticos no campo da violência. Comunicação & Educação, São Paulo, [13], set./dez. 1998.

Publicado originalmente na revista Sinergia, do Centro Federal de Educação Tecnológica, volume 8, n. 2, edição julho-dezembro de 2007.

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