A Festa do Divino Espírito Santo no Maranhão e suas Caixeiras

Alcântara

No Maranhão, o culto ao Divino Espírito Santo teve início com os colonos açorianos, portugueses e seus descendentes, que desde o início do século XVII chegaram para povoar a região. A partir de meados do século XIX, a tradição da festa do Divino começou a estar firmemente enraizada entre a população da cidade de Alcântara, de onde se espalhou para o resto do Maranhão, tornando-se muito popular entre as diversas camadas da sociedade, especialmente as mais pobres.

Hoje, a devoção ao Divino é uma das mais importantes práticas religiosas do Maranhão, a festa, igualmente à que ocorre em Paraty (Rio de Janeiro) talvez seja uma das mais tradicionais de todo o território brasileiro, conservando ainda à risca aspectos do período colonial, mobilizando a cada ano centenas de pessoas em todo o Estado. Embora possa envolver gente de todos os extratos sociais, quase todos os participantes são pessoas humildes, de baixo poder aquisitivo, que se esforçam para produzir uma festa rica e luxuosa, onde não podem faltar as refeições fartas, a decoração requintada e caras vestimentas para as crianças do império (ver abaixo). Por se tratar de uma festa longa, custosa e cheia de detalhes, sua preparação e realização levam vários meses e envolve muita gente, construindo assim uma grande rede de relações entre todos os participantes.

Em São Luís e em diversas outras cidades maranhenses, a festa do Divino é estreitamente identificada com as mulheres, e em especial com as mulheres negras ligadas às religiões afro-brasileiras. Esse fato distingue a festa no Maranhão das festas do Divino realizadas em outras regiões do país e lhe dá uma feição bem particular. Com exceção de algumas festas como a de Alcântara, organizada com o apoio de autoridades locais e sem vínculos com terreiros, a grande maioria das festas do Divino no Maranhão é realizada em casas de culto (tambor de mina), onde a presença feminina é dominante.

Toda a festa do Divino gira em torno de um grupo de crianças, chamado império ou reinado. Essas crianças são vestidas com trajes de nobres e tratadas como tais durante os dias da festa, com todas as regalias. O império se estrutura de acordo com uma hierarquia no topo da qual estão o imperador e a imperatriz (ou rei e rainha), abaixo do qual ficam o mordomo-régio e a mordoma-régia, que por sua vez estão acima do mordomo-mor e da mordoma-mor. A cada ano, ao final da festa, imperador e imperatriz repassam seus cargos aos mordomos que os ocuparão no ano seguinte, recomeçando o ciclo.

A festa se desenrola em um salão chamado tribuna, que representa um palácio real e é especialmente decorado para este fim. A abertura e o fechamento desse espaço marcam o começo e o fim do ciclo da festa, durante o qual se desenrolam as diversas etapas que, em conjunto, constituem um ritual extremamente complexo, que pode durar até quinze dias: abertura da tribuna, busca e levantamento do mastro, visita dos impérios, missa e cerimônia dos impérios, derrubamento do mastro, repasse das posses reais, fechamento da tribuna e carimbó de caixeiras.

Entre os elementos mais importantes da festa do Divino estão as caixeiras, senhoras devotas que cantam e tocam caixa acompanhando todas as etapas da cerimônia. As caixeiras são em geral mulheres negras, com mais de cinqüenta anos, que moram em bairros periféricos da cidade. É sua responsabilidade não só conhecer perfeitamente todos os detalhes do ritual e do repertório musical da festa, que é vasto e variado, mas também possuir o dom do improviso para poder responder a qualquer situação imprevista.

Tímido Reinado: Faltam Caixeiras na festa do Divino!

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Este ano, a festa aconteceu com o número mínimo permitido pela tradição.

Por Carolina Mello – Jornal O Imparcial

O grupo de caixeiras do festejo do Divino Espírito Santo de Alcântara, a 22 km de São Luís, foi o mínimo este ano. Apenas cinco mulheres estiveram responsáveis pelo toque de caixas e entoar de cantos que abrem alas para os cortejos imperiais, encerram missas e reverenciam o Espírito Santo durante as “Alvoradas”. O evento, que perdura quase 15 dias e mobiliza centenas de pessoas na cidade histórica, continua farto e grandioso. Só a quantidade de caixeiras tem diminuído ao longo dos anos. Para elas, o desinteresse da nova geração pelo rito está ligado à falta de incentivo e a competição desleal com as festas de reggae, que acontecem paralelas ao festejo.

Segundo Marlene Silva, com 64 anos e caixeira desde os 14, a dificuldade em atrair a simpatia de jovens é tanta, que até para formar o grupo de “bandeirinhas” – garotas que carregam bandeiras para o Espírito Santo durante os cortejos – foi difícil este ano. Isso porque a figura da “bandeirinha” sempre acompanha as caixeiras nas obrigações, ajudando a cantar as ladainhas e dançando nas festas organizadas na Casa do Divino. Desta forma, a função é uma porta de entrada para tornar-se caixeira. “Hoje elas (bandeirinhas) não querem mais nem cantar junto com a gente, é assim mesmo…”, comenta Marlene. Ainda sim, aos poucos que vão se integrando a festa, as bandeirinhas pegam gosto pelos cantos, e são levadas a aprender a tocar caixa.

Para Marlene, se houvessem medidas de incentivo durante todo o ano, a juventude aprenderia a dar valor aos significados do Divino, e naturalmente se integraria festa. Está em seus planos criar uma oficina permanente de toque de caixa, mas para realizá-lo, a caixeira aguarda a doação de um espaço próprio e de instrumentos. Segundo ela, sua insistência em cultivar a tradição foi, em grande parte, responsável pela gravação de um CD com as caixeiras do Divino de Alcântara sob patrocínio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). A caixeira diz aguardar o lançamento oficial do disco. Marlene e a irmã Ana Benedita Ferreira, 70, que toca caixa desde os sete anos de idade, são as caixeiras com mais tempo de atividade no Divino de Alcântara.

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