A luta de uma escritora da Islândia para que não haja mais tragédias como a do bebê sírio. Por Paulo Nogueira

E então penso comigo.

Tanta gente desinspiradora tem ocupado meus textos.

Do DCM 

Eduardo Cunha, Aécio, Gilmar Mendes, Olavo de Carvalho etc: a lista é longa e vil.

Mas eis que aparece um arco-íris, lá na pequena, remota, fria e sublime Islândia.

É uma escritora de 33 anos chamada Bryndis Bjorgvinsdottir. Bryndis com sua arma, a palavra, decidiu agir em favor dos refugiados.

Ela mandou uma carta aberta para o ministro do Bem Estar Social da Islândia. Tamanha a força da carta que ela acabou repercutindo muito além da Islândia. Ganhou o mundo.

“Os refugiados são nossos futuros maridos e mulheres, melhores amigos ou almas gêmeas. Eles são os bateristas da banda dos nossos filhos, nosso futuro colega, a Miss Islândia 2022, o carpinteiro que finalmente vai terminar o banheiro, o atendente da cafeteria, o bombeiro, o gênio da informática ou o apresentador de televisão.”

Ou são, também, aquele garotinho sírio cuja foto à beira mar – morto, numa pose de bebê que dorme depois de brincar horas – encheu de dor, ultraje e vergonha a humanidade.

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Bryndis criou, também, uma página no Facebook em prol dos refugiados. Logo de cara, ela avisa: “Mensagens de ódio não serão toleradas.”

(Até quando elas serão toleradas no Brasil?)

Na Islândia de Bryndis, 12 mil pessoas se ofereceram para receber refugiados em suas casas.

É um número colossal, dado que a Islândia tem 300 mil habitantes.

O governo local, sob a pressão da sociedade, estuda o que fazer.

“Não é porque não está acontecendo aqui que não está acontecendo”, diz a página criada por Bryndis.

Pessoas de outros países decidiram replicar o gesto de Bryndis, e apelar para que seus governantes ajam, e com urgência.

Num paralelo dolorido, foi lembrado que a situação presente reproduz cenas da Idade Média em que, protegidas por muros indevassáveis, as pessoas privilegiadas fechavam os olhos, a mente e o coração aos desafortunados que batiam às portas dos castelos em busca de ajuda e, muitas vezes, salvação.

Tantos séculos depois, e a humanidade parece que não aprendeu nada.

Voltaire, numa grande frase, disse que deixaríamos este mundo tal como o encontramos, “maldoso e idiota”.

A imagem do bebê morto dá uma extraordinária atualidade a Voltaire.

Podemos ficar parados e chorar a eterna miséria humana.

Mas Bryndis Bjorgvinsdottir decidiu ir contra a maldição voltariana.

Ela quer melhorar o mundo, e está agindo para isso.

De alguma forma, ela está devolvendo a esperança para milhões de pessoas – e não estou falando apenas de refugiados.

Sobre o Autor

O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

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