segunda-feira, novembro 29, 2021
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A mulher que sonha ser gente – Por Lelê Teles

Ao deixar o cárcere, onde esteve reclusa por 18 dias, Rosângela Sibele de Almeida Melo, de 41 anos, desabafou: “Meu grande sonho é ser gente. Eu ainda não sei o que é isso, não sei o que é ser mãe, filha, irmã...”

Ao deixar o cárcere, onde esteve reclusa por 18 dias, Rosângela Sibele de Almeida Melo, de 41 anos, desabafou: “Meu grande sonho é ser gente. Eu ainda não sei o que é isso, não sei o que é ser mãe, filha, irmã…”

Engana-se quem acredita que a gente nasce gente, na verdade a gente se torna gente; gente é uma construção social, só existe gente em meio a outras gentes.

Nós somos animais cívicos, como definiu Aristóteles.

É nos outros que eu me reconheço, é com os outros e pelos outros que eu me defino.

Somos seres incompletos, ou carentes, como disse o filósofo grego.

Por isso, necessitamos tanto das coisas quanto das pessoas.

Nossa completude só se realiza quando mantemos relações e trocas.

A família, os colegas, os amigos e a sociedade são mais que um grupo de pessoas com as quais temos interações, eles são a humanidade, são a parte de mim que parte de mim e se projeta pra fora.

É por isso que esperamos empatia dos outros.

A fraternidade e a sororidade, ou seja, a irmãodade e a irmãdade, são formas de proteção coletivas que me estruturam dentro de um grupo, separado por gêneros.

Por essas formas de interação, e troca, inventamos diversos e variados mecanismos de humanização.

Até na hora da morte fazemos rituais coletivos para se despedir do outro e choramos, mesmo que o outro não possa mais enxergar as nossas lágrimas.

É que choramos pelo outro, mas não para o outro, nosso choro é para os outros, para os que estão vivos, como disse Marcel Mauss.

Porque aquele que parte é uma parte de cada um de nós partindo.

A gente reparte a dor da partida porque ela também define a nossa finitude.

Compreende agora o grito de dor e fome lancinado por dona Rosângela?

Ela não está sozinha como um misantropo, que o faz por escolha, como o Rousseau d’Os Devaneios do Caminhante Solitário que vira asceta para acertar as contas com a sociedade.

Sua solitude, a da dona Rosângela, é uma construção político-econômica e ideológica, ela é mais uma vítima da necropolítica, diria Achille Mbembe.

Essa senhora não se enxerga como gente porque está apartada da família, mas também porque está excluída da sociedade, por ser desempregada e dependente química pobre.

Ela não leu Aristóteles, mas soube definir filosoficamente o que é ser gente.

Rosângela cometeu o que se chama de crime famélico: furtou para saciar a fome.

Mãe de cinco filhos, essa infeliz está desempregada, como desempregados estão quase 15 milhões de brasileiros.

Essa pobre  mulher faminta furtou um refri, um macarrão instantâneo e um suco instantâneo e, por esse crime terrível, ela foi mandada ao cárcere pela ação de duas mulheres, uma promotora e uma juíza.

Ou seja, as sista, as sorelle, as irmãs, também lhe viraram as costas.

Como se vê, Rosângela está só no mundo… e sente fome.

E foi sentindo o ardor da fome no estômago que Rosângela viu Bolsonaro comer, sorridente, uma picanha que custa mil e oitocentos reais o quilo.

Como se sentir gente, gente?

Um cão, um gato, um pet como dizem, é mais gente que dona Rosângela, esses animais já recebem até nome de gente, são tratados como gente, usam pulôveres no inverno, sapatênis no verão, vão ao psicólogo, ao médico, ao dentista; fazem mais de três refeições por dia e recebem amor e carinho.

Ah, esqueci de um detalhe.

Além do gênero, as pessoas também são segregadas por classe e raça.

Não é de hoje que sabemos que os negros foram definidos como seres sem alma, como quase humanos; porém, incivilizados e incivilizáveis.

Os pobres, tratados como deficientes cívicos pelo Estado, são destratados como não-gente pela sociedade burguesa anti empática.

Josué de Castro, o médico e geógrafo pernambucano, ao experienciar a terrível luta do homem por alimento num Recife empobrecido, mostrava o ser humano faminto como um bicho: o homem caranguejo.

O poeta Manuel Bandeira, ao ver um homem revirando o lixo para comer comida comida, por um instante achou que aquele comedor de restos era um bicho.

Essa bichificação da miséria é uma forma de perceber que aquela gente deixou de ser gente, se alguma vez chegou a ser.

A miséria é uma condição sub-humana, é uma desumanização.

É difícil um miserável se ver como gente, porque sabe que as outras gentes não o veem como um igual.

A única coisa que têm em comum é serem bípedes implumes.

Foi Lula quem enxergou que os miseráveis brasileiros eram seres humanos, que eram gente, foi por isso que ele lhes estendeu a mão.

Foi com essa empatia que Lula retirou mais 40 milhões de pessoas da miséria absoluta.

Lula já foi pobre e desgentizado, ele consegue enxergar a humanidade nesses miseráveis; por isso Lula é tão necessário.

Só Lula pode fazer com que o sonho de donas Rosângelas se torne realidade.

Por todos miseráveis e famélicos deste mundo…

Oremos ao senhor.

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