sexta-feira, setembro 30, 2022

A Rainha Guerreira Nzinga

Na África como nas Américas resistiram à dominação colonial e à escravidão. Foi uma luta marcada por batalhas sangrentas, negociações, atos heróicos e traições. E nos combates dos negros contra o colonialismo português uma mulher se destacou como símbolo de coragem e persistência. Ela foi Nzinga ou Ginga; como ficou conhecida no Brasil a grande rainha do povo negro de Angola.

Nzinga Mbandi Ngola Kiluanji nasceu em 1582, quando Angola (que na época se chamava reino do Ndongo) começava a ser ocupada pelos portugueses. Sua mãe, Guemguela Camcombe, era uma escrava mbundo. Quando Nzinga nasceu, os pais-de-santo do reino previram que caso ela chegasse à idade adulta e se tornasse rainha, os rios do reino seriam inundados pelo sangue de muitas vítimas. Previram também que a nação seria invadida por homens brancos vindos do mar e que haveria doenças, fome, guerras, tristeza e miséria em Angola. Cronistas da época diziam que a jovem princesa tinha os mesmos olhos sedutores da mãe, “a cor da noite”, e o caráter firme do pai, o mais terrível adversário que os portugueses tinham enfrentado até então. Apesar de filha do rei dos Mbundos, povo que vivia na parte ocidental de Angola (Ndongo), Nzinga descendia por parte do pai mesmo da realeza Jaga, povo da parte oriental de angola (Matamba). Os Jagas, junto com os Mbundos, estiveram na linha de frente da resistência à penetração portuguesa na África. Povo guerreiro, que ataca seus inimigos com falas, lanças, flechas, azagaias e escudos, os jagas eram táticos militares que tinham como principal artifício a surpresa. Viviam em acampamentos muito bem vigiados, os quilombos, escolhendo de preferência o cobre adornando os braços e as pernas. Tinha paixão por tecidos e roupas, trocando de traje várias vezes ao dia e mantendo seus tecelões permanentemente ocupados. Trezentas aias serviram rainha, revezando-se ininterruptamente em grupo de vez. Nos jantares, até oitenta pratos chegavam a ser servidos.

O Estado dirigido por Nzinga tinha uma estrutura burocrática acessível tanto a homens como a mulheres. Os principais critérios para acesso aos cargos e a promoção eram o merecimento e a lealdade. A origem familiar tinha pouca influência. A rainha possuía diversos ministros que a auxiliavam nas atividades de governo. Cada um deles contribuía com servos para o trabalho no campo e ficava encarregado de fiscalizar o trabalho desse pessoal. O reino possuía um sistema de justiça baseado no trabalho de advogados que ouviam as queixas dos clientes e as apresentavam às cortes regionais. Havia ainda um sistema de arrecadação de impostos, que eram pagos pelos sobas. O atraso nesses pagamentos implicava em punições.

Em 1626, Nzinga deixou sua capital na Matamba oriental e armou seu acampamento de guerra numa ilha fluvial próxima à região de Mbaka, a antiga capital Mbundo. Recomeçaram os combates que prosseguiram por vários anos. Durante todo esse tempo os portugueses não param de tentar convencê-la a tornar-se uma aliada do rei. Mas em 1629, depois de uma batalha, duas irmãs de Nzinga, além de vários ministros, foram capturadas e isso ao mesmo tempo em que ela perdia o apoio de importantes chefes regionais. Nzinga inicia então um bloqueio ao comércio de escravos, fechando inúmeros entrepostos existentes no país. Isso afeta diretamente a vida econômica da colônia, totalmente baseada no tráfico de escravos. Os portugueses decidem então perseguir e capturar Nzinga onde quer que ela estivesse.

Enquanto isso suas irmãs eram recebidas em Luanda com honras de realeza (os portugueses esperavam formar com elas um governo fantoche que concorresse com Nzinga).

Entre 1630 e 1640, Nzinga reconstitui seus exércitos, abalados pelos choques com os portugueses, mas continua mantendo contatos diplomáticos com Luanda. Em 1641, ela recebe a notícia de que os holandeses haviam desembarcado na capital da colônia e entra em contato com eles, fechando um tratado de assistência mútua. Ela esperava contar com a ajuda dos holandeses para destruir a estratégica fortaleza de Massangano, na confluência dos rios Cuanza e Lucala.

Com o apoio dos holandeses e do rei do Congo, Nzinga impõe pesadas derrotas aos portugueses, sem no entanto conseguir tomar a fortaleza. A decisiva batalha final por Massangano foi vencida pelos portugueses em 1648.

O revez de Massangano e a derrota dos holandeses em Luanda mudariam o pensamento da rainha negra, a essa altura já com 66 anos de idade. O cansaço parece ter vencido a velha combatente no final da vida. Ela assina um novo tratado com os portugueses e começa a negociar a libertação de sua irmã Mocambo, o que conseguiria em 1657. A volta da irmã influencia Nzinga a voltar ao catolicismo. Sob influência dos padres católicos, a rainha assinaria um último tratado com os portugueses, pelo qual eles se retirariam da parte oriental do reino em troca da liberdade de comércio (leia- se tráfico) na parte ocidental. Em 1658 ela se casa com um escravo convertido e durante a cerimônia joga fora seu arco e flexa para demonstrar seu empenho pela paz. Depois disso, 1659, lança suas tropas contra o jaga Kalanda, um antigo aliado que recusara o acordo com os portugueses. Kalanda foi derrotado e Nzinga ordenou que sua cabeça, espetada em pau, fosse enviada ao governador português. Seguiram-se anos de decadência física até sua morte em 1663, aos 81 anos, sem herdeiros.

Jagas em Palmares?

Existem fortes indícios do envolvimento, pelo menos numa primeira fase, dos mesmos povos africanos nas lutas travadas nas selvas de Angola e na serra da Barriga. O impulso inicial para o estabelecimento do quilombo de Palmares parece ter se originado com os bantos, povo proveniente de Angola. Aliás, vale lembrar, que os habitantes de Palmares chamavam a região de Angola  Janga (pequena Angola). Os escravos africanos enviados para o Brasil nesse período vinham na maior parte de Angola. Entre 1575 e 1681 cerca de um milhão de escravos foram embarcados de Angola para o Brasil. A importância de Angola como fornecedor de escravos para o Brasil era tão grande que a própria administração portuguesa desse território esteve subordinada às autoridades sediadas no Brasil.

Mario Martins de Freitas, autor do livro “Reino Negro de Palmares”, diz que o quilombo de Palmares começou com a entrada no Brasil dos primeiros negros de Angola, provenientes das tribos jagas. Segundo Freitas, por questão de segurança os portugueses exportavam para o Brasil os jagas belicosos que caíam em suas mãos e teriam sido esses jagas que só admitiam a liberdade absoluta, os instituidores dos primeiros quilombos na serra da Barriga. Esses angolanos, segundo alguns historiadores, trouxeram sua língua, cultura e forma de governo a Palmares. Muitas palavras jagas foram aportuguesadas no Brasil (kilombo, mukambo, samba e gangazumba são apenas algumas delas).

Além disso, de acordo com algumas descrições, a área central do quilombo de Palmares, onde o chefe Ganga Zumba recebia seus hóspedes, era idêntica à corte do rei (ou rainha) de Angola. E, tanto no Brasil como na África, os quilombos eram situados no interior de densas florestas, próximos a escarpas e penhasco íngremes que proporcionavam vista panorâmica da região.

Galeria

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Obras Consultadas

– Nzinga – Ray Arthur Glasgow Coleção Debates – Editora Perspectiva 1982.

– Reino Negro de Palmares – Mário M. de Freitas – Biblioteca do Exército 1944.

Foto em destaque: Reprodução  site Visão 

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