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Benedicto Lopes, negro, brasileiro, piloto de carro

Fonte: nobresdogrid.com.br

O Documento Especial deste mês refere-se a um fato que mudará, para a grande maioria das pessoas, a história do automobilismo brasileiro.

Chico Landi sempre foi tido, para muitos, como o pioneiro do Brasil nas pistas européias, como piloto que fora convidado a correr na Europa, devido a alta qualidade se sua pilotagem, como o brasileiro que conquistou a nossa primeira vitória no exterior. Contudo, antes dele, outros brasileiros desbravaram as pistas no exterior.

Nos anos 20 e 30, já havia um brasileiro correndo em provas européias: Manuel de Teffé ou o Barão de Teffé disputou diversas provas entre a segunda metade dos anos 20 e a primeira dos anos 30, obtendo algumas vitórias.

Infelizmente, muitos registros da época são extremamente imprecisos. Em alguns casos citando a mesma prova em dias diferentes ou mesmo com vencedores de diferentes em um mesmo ano.

O Registro mais preciso que obtivemos reporta-se a uma prova de ocorrida em 29 de abril de /04/1931 quando Teffé venceu a Vermicino – Frascati, na região de Lazio (próximo a Roma) na Itália.

Em alguns casos até mesmo a participação do Barão consta apenas de seus registros pessoais.

A primeira vitória obtida no exterior de que se tem registro, contudo, deu-se nos EUA. Irineu Correa venceu em 6 de setembro de 1920 uma corrida em Chester Fair.

Chester Fair é uma feira agrícola realizada desde 1877, e era comum que entre os diversos eventos da mesma pudesse até ocorrer uma corrida de carros, disputadas normalmente em pistas com piso de madeira (isso mesmo: madeira) ou de terra. Provas como estas não costumavam ser de grande importância, considerando-se que as 500 milhas de Indianápolis eram disputadas desde 1908. Contudo, não podemos desabonar o feito de Irineu, mesmo que a prova não tenha registro como parte do calendário da antiga AAA, anterior a USAC.

O fato pitoresco é que hoje ainda fazem corridas na Chester Fair… só que com porcos!

Buscando mais informações, fomos à procura de Fermando Lopes, filho de Benedicto e que hoje está com 77 anos e uma saúde física e mental invejáveis. Conversamos por quase uma hora com ele no domingo 21de dezembro do ano passado (2008).

Leiam a reprodução da matéria escrita por Fabio Seixas e em seguida, o nosso diálogo com Fernando Lopes, filho mais velho deste fenomenal piloto do qual muito pouco se fala.

 

“Campineiro Voador” foi primeiro representante do país a correr na Europa

FÁBIO SEIXAS
Editor adjunto de esporte

A F-1 ainda não chamava F-1, ainda não existia um Mundial organizado, as corridas ainda aconteciam de forma dispersa. Mas já havia grandes marcas envolvidas, circuitos como Monza, Spa, Estoril e Nurburgring já faziam parte do cenário, já havia até jogo de equipe.

E, 70 anos antes de Lewis Hamilton estrear, pode ter havido um negro nas pistas européias.

Benedicto Lopes. Brasileiro.

A incerteza é dos próprios filhos. Que, sem informações precisas sobre os antepassados, não sabem afirmar ao certo se há sangue africano na família.

“Quando falavam que meu pai era negro, ele brincava que era intriga da oposição. Os avôs maternos eram de Portugal, mas do lado paterno tinha uma caboclada. Era uma mistura só… Mas pode escrever que era negro, sim”, diz Valéria Lopes Cavallini, filha de Benedicto, morto em 1989, aos 85 anos.

“Meu avô paterno era bem moreno. Pelo lado dele acho que deve ter havido uma mistura. Era uma grande salada”, relata Fernando, o primogênito.

Para o documentarista Paulo Scali, especializado em história do automobilismo brasileiro, não há dúvidas. “Benedicto era mulato, com absoluta certeza. Era descendente afro, encontrei isso em várias referências nas minhas pesquisas”, afirma.

“Dito”, como era conhecido, teria sido o primeiro -e único, até prova em contrário- piloto negro da era dos Grand Prix, corridas avulsas que existiam pelo planeta e que só foram agrupadas e incorporadas num campeonato, o Mundial de F-1, em 1950, após a 2ª Guerra.

De certo, o “Campineiro Voador”, outro apelido, foi o primeiro brasileiro convidado a correr na Europa. Em 1937, cruzou o Atlântico para três provas ao volante de um Alfa Romeo. Três pódios. Em Portugal, foi segundo no Estoril e terceiro em Vila Real. Na Itália, ficou em segundo em Pescara.

Histórias, muitas, que se esfarelaram pelas décadas. Que hoje estão guardadas em poucos livros e, principalmente, numa caixa de papelão na casa de Valéria, em Campinas, e num armário em São Vicente, onde vive o irmão, Fernando.

“Só quem acompanhava automobilismo, mesmo, reconhecia os feitos do meu pai. Naquela época não havia tanta divulgação, era bem diferente. O dinheiro também não era tanto como agora, mas dava para o sustento”, declara Fernando, caminhoneiro, que herdou do pai o gosto pela mecânica.

E foi esse interesse que iniciou a carreira de Benedicto no esporte. Nascido em 1904, na rua José de Alencar, no centro de Campinas, filho de um maestro e de uma dona-de-casa, ele começou a fazer dinheiro em 1932, após a Revolução Constitucionalista. Sua grande sacada: comprar jipes avariados, reformá-los e revendê-los.

Já com oficina montada, mecânico reconhecido na cidade, recebeu de um cliente o incentivo para se tornar piloto. “O nome dele era Dante de Bartolomeu. Um dia, pegou uma carona com meu pai, ficou impressionado com o jeito como ele dirigia e começou a insistir para que tentasse participar de umas corridas”, conta o filho.

A estréia aconteceu em 1934, com um Bugatti emprestado por um amigo. A prova, o 2º GP do Rio de Janeiro, no Circuito da Gávea. Um traçado de rua de 11,6 km que, com mais de cem curvas, com piso que ia do asfalto ao paralelepípedo e da terra à areia e até com trilhos de bonde pelo caminho, foi celebrizado como o “Trampolim do Diabo”.

Foi breve. Com problemas mecânicos, Benedicto abandonou a prova na segunda volta.

Em 1935, com um Ford adaptado, fez-se notar pela primeira vez: liderou a prova e estava próximo da vitória quando, na 22ª das 25 voltas, bateu num retardatário que estava atravessado na avenida Niemeyer.

Acidente que, 73 anos depois, continua engasgado na família. “O piloto fez aquilo de propósito, para que o amigo dele, que vinha em segundo, ganhasse a corrida”, diz Valéria. “Com aquele Fordinho, ele surrava todo mundo.

Surrava os Fiat, os Alfa Romeo… Aquilo foi sacanagem”, esbraveja o irmão.

 

Benedicto

 

O vencedor foi Ricardo Carú, argentino, pilotando um Fiat.

No ano seguinte, 1936, Benedicto conseguiu sua primeira vitória, na estrada de Petrópolis. E seguiram-se outros triunfos, em circuitos como o do Chapadão, em Campinas, e da Quinta da Boa Vista, no Rio, até que ele fosse convidado pelo Automóvel Clube de Portugal a participar de corridas por lá.

Àquela altura, a família havia mudado para o Rio, onde ele tinha duas oficinas badaladas. “Nós éramos muito bem de vida. Apartamento em Ipanema… Éramos ricos”, lembra a filha.

Com três troféus na bagagem, desembarcou no Brasil sem a recepção esperada. As homenagens ficaram restritas ao meio do automobilismo.

Num jantar promovido pelo Automóvel Clube do Brasil, batizou uma sopa. “Creme Benedito Lopes”, mostra o cardápio guardado até hoje por Valéria.

Assim, sem o Cê no nome.

Benedicto correu até 1954. Despediu-se do esporte aos 49 anos, com vitória no circuito de rua do Maracanã, quando já sofria de úlceras. O tratamento levou-o de volta a Campinas e sugou as economias da família.

Benedicto

Doente, o então ex-piloto ainda conseguiu tocar uma oficina de Studebaker e, mais tarde, uma autorizada da DKW. E, claro, acompanhava com interesse seus sucessores na F-1.

“Ele dizia que na época dele era muito mais difícil. O pneu era fino, o freio era ruim, o câmbio era na mão. Não tinha esse negócio de botãozinho, não. Muita gente morria correndo. Hoje, os caras batem, dão uma sacudidinha no macacão e saem andando”, diz Fernando.

Nos seus últimos tempos, de cama, acompanhou os duelos entre Nelson Piquet e Ayrton Senna. E torcia pelo último.

“Meu pai achava o Senna mais destemido, mais ousado. Ele mesmo era um piloto assim. Os adversários diziam que ele às vezes fazia umas loucuras nas pistas”, afirma Valéria.
Loucuras. Como no dia em que a levou, então com 8 anos, para dar uma volta pelo Circuito da Gávea. Sentada em seu colo, contornando o traçado que flertava com o perigo. Sua máquina, uma Ferrari. “Não tem como descrever aquela cena. Uma sensação maravilhosa.”

O ano era 1953. A F-1 já chamava F-1, já existia um Mundial. No Rio de Janeiro, fazia sucesso o primeiro samba de Vinícius de Moraes: “Quando tu passas por mim/Passa o tempo e me leva para trás”.

 

 

Entrevista com Fernando Lopes filho de Benedicto Lopes

Fernando Lopes

NdG: Bom dia ‘seu’ Fernando. Como havia falado há pouco por telefone com o senhor, o nosso interesse na história do seu pai reside no fado de ele realmente poder ter sido o primeiro piloto brasileiro a correr fora do país, sendo convidado.

Fernando Lopes: Sim. E foi mesmo! Sabe qual foi o primeiro carro que o meu pai correu? Ele trabalhava em uma oficina lá em Campinas e tinha um cliente lá, do dinheiro, que se chamava Dante Bartolomeu. Quando ele tinha que fazer viagem, pegava meu pai pra dirigir para ele e um dia ele falou que meu pai devia correr. Meu pai nunca tinha pensado nisso. Ele insistiu e no retorno de uma viagem, apareceu com uma Bugatti na oficina. Mas era um carro muito antigo e ele falou que era o carro para o meu pai correr. Mas o carro era muito velho, nem agüentava terminar corrida, mas aí o pai se empolgou e foi então que ele fez o Ford, adaptado. O motor era de um Ford 1934. Era o carro dele e do parceiro dele, o Luiz Tavares de Moraes, que era um cara importante no Rio. Eles surravam todo mundo com aquele Ford adaptado.

 

Benedicto - Carro

 

NdG: Então o seu pai foi “empurrado” para a pista pelo Sr. Bartolomeu e ele jamais, certamente, imaginava aonde o seu pai chegaria…

Fernando Lopes: Duvido muito. Mas o meu pai correu muito… e foi mesmo o primeiro a sair daqui para correr na Europa. Tenho aqui os troféus que ele conquistou para provar. Antes do Chico Landi vencer o GP de Bari, em 1948, meu pai já tinha ido correr na Europa, antes mesmo da guerra. São lembranças que nós, da família trazemos conosco e que agora, praticamente 20 anos depois da morte do pai é que algumas pessoas resolveram vir atrás da história dele. Eu acho que começou por causa deste rapaz que ganhou o título da F1, o Lewis Hamilton. Só que tem uma coisa: Meu pai não era negro coisíssima nenhuma! Inclusive ficamos bastante chateados com esta citação na matéria que saiu no jornal. O meu avô era um caboclo e o meu pai e eu saímos mais a feição dele. Minha irmã, que saiu mais à minha mãe, é branca.

NdG: Bem, o que nos trouxe até o senhor não foi a questão das origens raciais do seu pai, mesmo porque o Brasil é uma mistura de raças. Buscamos do Benedicto os fatos vividos por ele, no Brasil e fora do Brasil…

Fernando Lopes: O meu pai corria com um Ford, Era um carro adaptado, mas era o que se tinha aqui no Brasil na época. Era um carro mais fraco do que os seus maiores adversários, as Maseratis e as Alfas, mas em 1935 ele ia vencer a corrida na Gávea. Não venceu porque os argentinos fizeram uma sacanagem e atravessaram um carro na saída de uma curva. O pai não teve como desviar e bateu. Aí quem ganhou a corrida foi o Ricardo Caru, outro argentino. O automóvel clube viu mas não aceitou o protesto e aquilo ficou por isso mesmo.

 

Benedicto

 

Mas a partir de 1937 as coisas começaram a mudar: Depois do acidente na corrida em São Paulo, em 1936, o pai comprou o carro da Hele Nice. Uma Maserati. Recupero-a por inteiro. As peças sobressalentes chegaram de navio quase um ano depois. Ela se comprometeu a enviar e enviou, foi muito séria, muito profissional. Com aquele carro o pai ganhou muitas corridas. Temos aqui alguns dos prêmios recebidos por ele. De algumas provas eu lembro bem. A vitória no chapadão de Campinas, onde faleceu o Fernando Sarmento, lembro de uma corrida em Poços de Caldas em que o carro dele parou faltando 500 metros para chegada, por falta de gasolina. Daí foram ver o tanque e acharam um monte de pedacinhos de borracha dentro. Isso hoje não acontece…

NdG: (Risos) o pessoal da Ferrari não vai concordar com o Sr. O Sr. soube de uma conversa sobre um pó branco que acharam nos tanques da Ferrari em 2007, em Monaco?

Fernando Lopes: É verdade… (risos) mas ali foi gente da própria equipe. E aquela corrida em que o Barrichello ficou sem combustível aqui no Brasil? Aquilo não existe.

NdG: Bom, sobre o seu pai e os convites para correr na Europa, o que o Sr. poderia falar no contar?

Fernando Lopes: Correr na época do meu pai era muito difícil… o pneu parecia pneu de bicicleta, fininho, o motor era dianteiro, a traseira ficava solta. O primeiro carro de corrida que eu vi com motor traseiro foi o de Von Stuck, o Auto Union. O reio era de lona, não tinha essa coisa de disco. Se não soubesse usar ficava sem freio. Câmbio hoje em dia é com essa coisa de borboleta. Eu lembro que o câmbio da Maserati era por baixo do volante, manual, de engate e mudava para a esquerda. E só tinha piloto bom. Era o Von Stuck, o Pintacuda, o Farinoni, o Brizio, o Marco Sameiro, o Caru, o Landi… e o meu pai, lá. Hoje é tudo cheio de tecnologia, box fechado, computador pra todo lado… Naquele tempo era muito mais difícil.

NdG: O Sr. acompanhava o seu pai nestes tempos?

Benedicto

Fernando Lopes: Sim, eu acompanhei meu pais desde pequeno… eu até comecei a correr no kart… fui comtenporâneo do Emerson, do Carol Figueiredo, do Giaffone. Eu corri com eles. O Pace…

NdG: E o Sr. não tentou continuar?

Fernando Lopes: Meu pai não queria que eu me metesse nessa coisa de correr… ele dizia que tinha muita sacanagem e não queria ver as coisas se repetirem. Aí complicava: não tinha patrocínio e sem apoio nem dentro nem fora de casa ficava difícil.

NdG: E quando o seu pai foi para a Europa… como foi que se desenrolou o convite?

Benedicto

Fernando Lopes: A primeira corrida do meu pai na Europa foi em 1937. Teve o problema da II Guerra Mundial que paralizou as corridas… mas o meu pai contou que teve corrida em que os carros dos pilotos espanhóis chegavam com a carroceria furada por tiros!

NdG: E depois da guerra?

Fernando Lopes: Ele correu mais no Brasil nesta época. Hoje em dia os carros vão para os autódromos nesses caminhões modernos, e nem carreta tipo cegonheira. A gente levava o carro do pai amarrado por uma corda, puxado, comigo no volante. Ganhou algumas corridas de subida de da serra. Naquela época começaram as vitórias das carreteiras. Foram companheiros de freqüentar nossa casa o Gino Bianco, o Enrique Casini, O Quirino Landi, irmão do Chico, o Luiz Carlos Leite… e os adversários eram os gaúchos, os Andreata, o Camilo Christófaro que era de São Paulo, tinha o Francisco Marques… o Fangio veio correr aqui. O Villoresi quando veio aqui no Brasil, queria que meu pai fosse para a Itália com ele de todo jeito. Este álbum aqui é daquele tempo, o Fernando de Figueiredo que bateu estas fotos e a maioria das fotos é de 1937. Essas fotos aqui são da Maserati do meu pai… mas a foto que mais gosto é deste carro aqui, de um corredor português que fez a carroceria do carro toda de vime, para ficar mais leve e ventilar melhor o motor. Era do Fernando Figueiredo, esse que fez o álbum.

 

Benedicto

 

NdG: E não havia risco de pegar fogo?

Fernando Lopes: Nunca pegou.

Esta foto aqui meu pai já estava doente… eu que juntei aqui no álbum…

 

Benedicto

 

NdG: Este é o tipo da manchete que é inadimissível… Não existe “ex-campeão”. O título, as vitórias de um esportista serão deles para sempre.

Fernando Lopes: Eu tenho aqui em casa no guarda-roupa uma caixa de fotos e mais várias outras taças que o pai ganhou nas corridas…

NdG: O Sr. devia escrever um livro… com toda esta memória, com toda esta história… Existem pessoas que escrevem o livro. O Sr. vai falando, eles vão gravando e daí digitam tudo no computador e passam para o Sr. ler e ver se está bom… e assim o Sr. pode ter a chance de fazer um registro da vida do seu pai que ficará para a eternidade.

Fernando Lopes: E a minha irmã tem muito mais coisas em casa… talvez nós devamos fazer isso mesmo.

Fernando Lopes:  Sim, eu acompanhei meu pais desde pequeno… eu até comecei a correr no kart… fui comtenporâneo do Emerson, do Carol Figueiredo, do Giaffone. Eu corri com eles. O Pace…

NdG:  E o Sr. não tentou continuar?

Fernando Lopes:  Meu pai não queria que eu me metesse nessa coisa de correr… ele dizia que tinha muita sacanagem e não queria ver as coisas se repetirem. Aí complicava: não tinha patrocínio e sem apoio nem dentro nem fora de casa ficava difícil.

NdG:  E quando o seu pai foi para a Europa… como foi que se desenrolou o convite?

 

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