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“Carlos Nobre: o Rio perde parte da cultura negra”

Professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio, onde dedicava-se a aulas sobre Jornalismo e Racismo, Carlos Nobre foi um profissional comprometido com a defesa dos Direitos Humanos, cidadania, igualdade – temas constantes de suas pesquisas, publicações, conferências, palestras. Assuntos relacionados à cultura afrodescendente, ao preconceito racial, à violência policial nas favelas do Rio marcaram sua trajetória de vida e seu trabalho em principais jornais do país.

Do Abi 

Carlos Nobre (Reprodução/Facebook)

Formado em Jornalismo, mestre em Ciências Penais pela Universidade Cândido Mendes, pesquisador Nirema (Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente) do Departamento de História da PUC-Rio, Nobre, com currículo tão rico, nunca deixou de ser repórter.

Sempre atento, apurando e investigando fatos, que seriam objetos de matérias jornalísticas, livros, seriados ou cursos voltados para releituras das ligações históricas entre o continente africano e o Brasil, “país com maior número de afrodescendentes na diáspora”, como dizia ele, dedicado também a trabalhos com ONGs e quilombolas. Nobre trabalhou nas redações de O Dia, Jornal do Brasil, Estado de São Paulo, entre outras. Os temas sociais sempre foram foco de suas pautas.

Reprodução/Facebook

Sócio da ABI desde 2004, ele estava empolgado em ajudar o Grêmio Recreativo Escola de Samba Grande Rio, em Duque de Caxias, a preparar seu enredo do desfile de carnaval de 2020 – “Tata Londirá: o canto do caboclo no quilombo de Caxias” – narrando a história do pai de santo caxiense Joãozinho da Gomeia (1914-1971), também conhecido como Rei do Candomblé. Um enredo criado com base nos seus trabalhos.

Nobre se tornou um especialista sobre o Rei do Candomblé. Em novembro, mês da Consciência Negra, lançaria o “Guia Afetivo sobre Joãozinho da Gomeia”. Trata-se da sua segunda biografia sobre o pai de santo – a primeira foi em 2017, “GomeiaJoão: a arte de tecer o invisível” – que, como o autor descrevia, “ao se instalar em Duque de Caxias (na Baixada Fluminense), em meados dos anos 1940, colocou essa cidade no mapa do mundo”.

O jornalista não escondia seu orgulho de, já com o primeiro livro, ter ajudado “JG” a ser reabilitado pelos movimentos sociais, culturais e políticos do município, após muito tempo de esquecimento. Não viveu, porém, para vê-lo ser cantado na avenida, em pleno carnaval.

Em suas passagens pelo Jorna do Brasil e O Dia. também se especializou na cobertura do Judiciário. Em consequência, foi capa da revista LIDE, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro em 1998. A respeito, no ano passado, ao se completarem 20 anos deste fato, registrou no seu Facebook:

“Quando trabalhei pela segunda vez, no “JB”, a justiça do Rio de Janeiro julgava casos pesados envolvendo os marginalizados e as elites, tais como: chacina da Candelária, chacina de Vigário Geral, lista de propinas do jogo do bicho, caso Mães de Acari, deputados envolvidos com propinas, oficiais da PM na lista de propinas do jogo do bicho, funcionários da elite do estado desviando recursos”,

Seu mais novo projeto vinha sendo desenvolvido na Comissão Diversidade, da ABI. No início do próximo mês, ele seria o representante palestrante de evento sobre censura realizado em conjunto com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro.

Sobre ele, Vera Perfeito, conselheira da ABI e coordenadora da Comissão de Diversidade, diz:

“Carlinhos, como era chamado pelos repórteres do antigo JB da Av. Brasil, foi um dos mais brilhantes da década de 70/80 na cobertura de polícia. Sempre quieto, caladão, mas um apurador de primeira.

Vim reencontrá-lo em agosto, após mais de 25 anos, quando o convidei, por indicação do jornalista Marcelo Auler, para integrar a Comissão de Mulher&Diversidade, criada durante a campanha da nova diretoria da ABI. Logo mostrou seu envolvimento em questões raciais, com quilombolas e religiões africanas.

Carlinhos estava escalado e entusiasmado para representar a ABI no dia 12/11 em um encontro em parceria com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do RJ, quando serão lembrados os 50 anos dos atos que proibiram a imprensa de divulgar noticiário sobre racismo, indígenas, guerrilha, entre outros assuntos durante a ditadura. Não deu, mas ficará na nossa lembrança para sempre”.

Carlos Nobre, 66, morreu na manhã desta terça-feira, 15 de outubro, dia do professor – categoria profissional a qual tão bem representou junto a seus alunos. Ele sofreu três paradas cardíacas, duas das quais revertidas durante a madrugada, em decorrência dos problemas com a diabetes. O enterro será nesta quarta-feira, às 13h no cemitério de Irajá. Não haverá velório.

“Sempre defendi crianças e adolescentes dos ataques de adultos, polícia e grupos de extermínio quando trabalhava como jornalista nos jornais cariocas. Fui muito bem recompensado por isso. Me apareceu, agora, ao rever meus arquivos, essa foto de Marcos Tristão, que, me fotografou ao lado de crianças da Favela do Vidigal, no inicio da Av. Niemeyer, em Ipanema, após fazermos reportagem sobre jovens nessa comunidade. Isso em 1989, há 30 anos. Axé.” Morro do Vidigal, foto de Marcos Tristão.

O amigo e colega Alexandre Medeiros deixou seu depoimento:

“Trabalhei com Carlos Nobre em O Dia e no Jornal do Brasil. Tive a oportunidade de ser seu chefe de reportagem e pude presenciar sua vocação para tratar de temas relacionados à cultura afrodescendente, ao preconceito racial e à defesa dos direitos humanos. Nobre fez disso uma causa, um sentido para sua vida.

O massacre dos negros pobres nas periferias brasileiras, sobretudo em decorrência de ações policiais, foi tema de muitas de suas reportagens. Um assunto que hoje volta com força, sobretudo no Rio de Janeiro e em São Paulo, em função da política de segurança dos governos instituídos. Nobre escreveu um livro de referência sobre as Mães de Acari (Mães de Acari: uma história de protagonismo social _ Pallas-PUC-Rio, Rio de Janeiro, 2004) e deixou alguns outros trabalhos que nos ajudam a entender a cultura afro-brasileira.

Com morte prematura, ele deixa uma lacuna nessa temática, tanto como jornalista quanto como professor universitário, além de nos deixar órfãos de suas argumentações sempre francas e diretas“.

Seu colega em diversas coberturas, o repórter fotográfico Marcos Tristão, registrou, ao saber da morte de Nobre:

“Com muita tristeza recebei a notícia do falecimento do amigo Carlos Nobre Cruz, companheiro de tantas coberturas jornalísticas. A última vez que estive com ele foi na eleição da ABI, conversamos e lembramos das nossas coberturas, falei que estive revirando meu arquivo fotográfico e que tinha localizado uma foto em que ele aparecia ao lado de Nelson Mandela, fiquei de escanear, infelizmente fiquei devendo esta foto ao amigo”.

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