Carta de repúdio à mídia racista

Há uma nítida ascensão da população mais pobre no Brasil. Aqui, esta população é a negra. Estes avanços têm sofrido ações diretas dos setores conservadores. Esta elite tem demonstrado que não quer dividir os recursos, o poder ou os direitos básicos humanos.

Algumas instâncias foram montadas pelo governo e pela sociedade civil para elaborar políticas afirmativas. Isto, em vários níveis, chegando até à construção de conselhos municipais da população negra. Há uma agenda propositiva acontecendo. Passeatas dos povos de Candomblé, campanhas contra o genocídio que assola a juventude negra, criação de mais delegacias de combate à violência sofridas pelas mulheres, política nacional de titulação das comunidades quilombolas, ProUni e cotas raciais incluindo uma parcela significativa de jovens. Contudo, falta pensarmos melhor uma educação anti-racista e uma mídia enegrecida e étnica.

A televisão brasileira é branca. É Incomum acharmos jornalistas, apresentadores e âncoras negros. E não adianta citar os raros exemplos para tentar negar o óbvio, têm pouquíssimos negros na TV. A constatação é simples: o padrão estabelecido pela mídia brasileira é racista, machista, homofóbico e fascista.

Alguns casos no final do ano foram emblemáticos. Ao primeiro indício de relação com o Cadomblé, apressaram-se para declarar que o garoto que teve seu corpo enxertado por agulhas tinha passado por um ritual de “magia negra”. Mas se até uma Secretaria com status de Ministério foi criada para pensar políticas para população negra o que falta? Bem, este é um debate que está colocado e não podemos deixar de fazê-lo.

Mesmo com alguns avanços, somos forçados a concordar com Boris Casoy * em uma coisa: os negros ainda são os últimos na escala do trabalho. São, porque a elite da sociedade da qual pertence continua construindo ferramentas de manutenção da sua hegemonia no Brasil. Quanto mais escura é a cor da sua pele, mais racismo e mais subjugada será esta pessoa. Nossa condição é a de povo mutilado, não podemos nos acomodar ou diminuir o ritmo das lutas.

Em especial, podemos pensar no papel que pode cumprir a mídia televisiva. Ela pode funcionar como uma das  estratégias de mudança social, desde que propicie o desenvolvimento e a visibilidade dos invisíveis no que é exclusivamente comercial; que realize novas maneiras de expressão cidadã; e que promova a mobilização social, como mecanismos de controle social e reivindicação de melhorias. Entretanto,  o que observamos é uma televisão mergulhada num contexto marcado pelo âmbito privado e um cenário globalizado no aspecto econômico e tecnológico que, ao mesmo tempo, privilegia os interesses de grupos políticos conservadores.

Uma luta fundamental para nos somarmos é da TV Pública. É fundamental intensificar o ritmo de estruturação da TV Pública, consolidando a partir dela um sistema de comunicação ágil, democrático e plural. Essa é uma necessidade veemente da democracia brasileira. A TV Pública é uma aspiração histórica de segmentos da sociedade brasileira preocupados com a pluralidade e a democratização do acesso à informação. Mesmo tendo certeza de que a TV Pública não acabaria com o racismo, usar a mídia para enegrecer os ideais e construir alternativa a tanto preconceito que se ensina é imprescindível.

Outra coisa que a mídia racista não sabe é do poder bélico que são essas vassouras do povo negro paradas por apenas uma semana. Talvez seja isso que a elite branca precise, ter o lixo produzido por eles mesmos armazenado dentro de suas casas. Com certeza, o cheiro que este lixo produzirá será menos nocivo do que os pensamentos dos conservadores. Só teremos uma sociedade e mídia mais igualitárias quando aqueles que estiverem nestes meios representarem nossa política. Precisamos de jornalistas negros e negras para que a pauta se torne centralmente a implementação de políticas para a população Negra. Além disso, precisamos enegrecer o mundo do trabalho, para que mais negros e negras ocupem profissões do primeiro escalão, substituindo gradativamente figuras como Casoy.

Assinam esta carta:

Cledisson Junior- Diretor de Combate ao Racismo da UNE União Nacional dos Estudantes

Herlom Miguel – Coletivo Nacional Enegrecer

Luiz Carlos Suica – Sindilimp-BA (Sindicato dos Trabalhadores em Limpeza Intermunicipal da Bahia)

Fetralimp-BA (Federação dos Trabalhadores em Limpeza do Estado da Bahia)

Gilmar Santiago – Vereador Negro da Cidade de Salvador

Fonte: UJS

+ sobre o tema

Foguinho, Carvão, Chocolate, Negueba Racismo dentro das escolas agrava evasão em Alagoas

Foguinho, Carvão, Chocolate, Negueba. Esses apelidos são rotina na...

Poesias das quebradas de Salvador vão ser publicadas em livro

A obra “Poéticas periféricas: novas vozes da poesia soteropolitana”...

Uma ação mais humana por outra Maré é possível

O momento que vivemos chama atenção pela profusão de acontecimentos...

1a. Jornada de Direito Antidiscriminatório

1a. Jornada de Direito Antidiscriminatório Programação: 23/08 (terça-feira) às...

para lembrar

Para Valter Silvério, leis precisam ser mais duras contra o racismo

Um protesto objetivo, imediato, espontâneo e irônico. É dessa...

Suárez é punido com oito jogos de suspensão por racismo

O atacante uruguaio Luis Suárez, do Liverpool, foi suspenso...

Hoje na história, 21 de janeiro: um dia contra o racismo

Na passagem do Dia Nacional Contra a Intolerância Religiosa,...

Intolerância religiosa: a livre expressão do racismo brasileiro

No Rio de Janeiro, umbandistas do Centro Espírita Irmãos...
spot_imgspot_img

Mortes pela polícia têm pouca transparência, diz representante da ONU

A falta de transparência e investigação nas mortes causadas pela polícia no Brasil foi criticada pelo representante regional para o Escritório do Alto Comissariado...

Presos por racismo

A dúvida emergiu da condenação, pela Justiça espanhola, de três torcedores do Valencia por insultos racistas contra Vini Jr., craque do Real Madrid e da seleção brasileira. O trio...

Formação territorial do Brasil continua sendo configurada por desigualdades, diz geógrafo

Ao olhar uma cidade brasileira é possível ver a divisão provocada pela segregação espacial no território, seja urbano, seja rural. A avaliação é fruto...
-+=