Carta para a mulher que fui

Seu nome ainda me assusta e quando o escuto na rua minha espinha gela. Às vezes, quero que as pessoas te esqueçam, não sei o que fazer com sua memória. Escrevo esta carta em uma tentativa de fazer as pazes.

Por  ARIEL NOBRE, do Os Entendidos 

Sabe, você foi muito corajosa, não é qualquer pessoa que questiona o gênero assim de forma tão sincera. Eu ainda não sei o porquê da gente se encontrar tão tarde, mas tenho uma hipótese: o machismo quer que as coisas continuem do jeito que estão e isso inclui a manutenção de laços de dominação históricos entre os gêneros, mais especificamente a dominação do homem cisgênero sobre os demais gêneros. Nesse cenário tão desfavorável, você foi além das expectativas e se permitiu questionar. Nunca engoliu esse papinho de mulher submissa e – SPOILER – isso te libertou. Que orgulho!

Lembro da sua sensação de querer ser livre todo tempo, mas isso era coisa de homem. Você queria as roupas feitas pra guerra, pro mato, pra aventura. Mas não, submissão era o território que te impuseram desde muito cedo. E ainda assim você preferiu ser chamada de puta e herege, meus sinceros parabéns!

De tanto te maltratarem, a única linguagem que você aprendeu pra lidar consigo foi a do ódio, sua única referência de autocuidado foi a violência. Aos poucos, você foi se permitindo o prazer e aí foi uma conquista atrás da outra. Permitiu-se a masturbação livre sem achar que aquilo era pecado, uma libertação do clitóris para o mundo. Parabéns outra vez!

Lembra quando você levou sua esposa pra sua formatura? Sua família conservadora quase caiu pra trás com o cheiro de couro, carões à parte, tiveram que engolir a sapatão pecadora graduada – e muito bem acompanhada.

Eu sei, você não se sente inteira, mas não se cobre. A sociedade não te apresentou os instrumentos necessários para você se libertar. O mais lindo da sua trajetória é a coreografia, você se moveu, procurou, se questionou, foi atrás. Você não consegue ver suas qualidades porque ainda não se reconhece, porém, em breve isso vai mudar, esse sentimento de ansiedade vai tomar um outro rumo, o coração vai deixar de ser lugar de má-água e o corpo vai ser, enfim, a sua casa. Ser dura com você só piora, se aceitar e fazer carinho é a melhor opção.

Obrigado por existir. Acho que eu seria mais um homem idiota nesse mundão se não fosse você. Como saberia o que é ser mulher? Quando as pessoas supõem que eu tenho um pau entre as pernas me tratam muito diferente, você vai passar por isso em breve, é chocante!

Ontem mesmo vi um homem olhando pra bunda de uma mulher de uma forma tipicamente machista e lembrei de você na hora. Recordei de como era ruim essa situação e como ficava possessa de raiva, às vezes revidava e claro, o show começava: puta, vadia, feia, sapatão! Aos poucos você vai lidar melhor com a energia da raiva e entender mais do jogo político que ela constitui.

Dentro em pouco, uma sensação de morte vai tomar conta, mas não tenha medo, confia que vai dar certo. Siga assim, sem medo, com a cabeça erguida até que você se reconheça na imagem do espelho. Se você ainda se vê mulher, se respeite. Respire fundo, respeite seu tempo e não transfira seu ódio-próprio a elas. Afinal, foram as mulheres que te mostraram o caminho da revolução e é com elas que você vai estar nos próximos anos. Além disso, vale sempre lembrar que você nasceu de uma mulher e renasceu de outra.

Não se preocupe, a paz interior vai chegar como uma brisa. O que te aprisiona hoje é o que te libertará amanhã. É importante dizer: eu nunca te abandonei, mas é preciso se deixar transformar, aliás, não te esqueço e te prometo respeitar todas as mulheres enquanto estiver #transvivo. Vai em paz!

Com amor,

Ariel

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