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Caso do professor racista da UFMA serve para mostrar que o discurso da auto proclamada elite pensante, reproduz a mentalidade escravagista que ainda impera no Maranhão

Na rua  Oswaldo Cruz – a famosa rua Grande – mora um Coronel reformado da polícia Militar do Maranhão, cujo filho parasitou por anos a fio nos cofres da União municipal dos Estudantes Secundaristas – UMES, na época em que a entidade ganhava horrores vendendo carteirinhas de Estudante.

Pois bem, no interior da casa, mas precisamente na cozinha, o coronel da PM criava, se é que ainda não cria, um “negrinho” mufino que a época deveria ter no máximo 10 anos.

O negrinho, jeito insolente, passos rápidos, costelas à mostra de uma magreza reveladora, era o encarregado dos serviços gerais da casa, bem como do atendimento às necessidades dos moradores, que cultivavam o estranho hábito de beber água mineral sempre servida em copos lacrados vindos diretamente da fábrica da indaiá.

O negrinho, tratado de maneira humilhante, sobretudo pela esposa do coronel, em troca do trabalho sem hora para acabar, tinha direito apenas a um prato de comida, algumas mudas de roupa usadas e a matrícula numa escola da rede municipal de ensino público.

Sim, queridos, não se trata de uma história ocorrida durante o século XIX no auge da ordem escravista no Brasil, trata-se de um caso ocorrido em pleno século XXI, em pleno centro da cidade. Um crime duplo de exploração de mão de obra infantil e escrava cometida por um ilustre e respeitado membro da sociedade ludovicense, à vista de todos, com a complacência de muitos e o horror desta que vos fala.

Trata-se de uma tradição nojenta e disseminada em todas as esferas da sociedade Maranhense: importar do miserável interior do estado, crianças e adolescentes, sobretudo meninas, para “estudarem” na capital, subterfúgio asqueroso para justificar o trabalho escravo de muitas e muitas meninas e meninos são submetidos porque tiveram o azar de serem uns pobres desvalidos do interior.

Para piorar tudo, o hábito é visto como natural por boa parte das pessoas e persiste apesar de tantas e tantas campanhas de conscientização a respeito da prática criminosa que é escravizar seres humanos.

Por isso, não me espantei quando li no twitter, as seguintes declarações feitas por alguém que, curiosamente,  eu considero inteligente e lúcido e cuja identidade omiti para não parecer que desejo expô-lo ao ridículo:

tweet2

Eu até poderia me surpreender, não me surpreendo em função do que enumerei acima. A força da mentalidade escravista da sociedade Maranhense é que gera esse tipo de declaração cega e abominável, não importa se o autor delas vem da intelectualidade ou dos redutos semi-letrados, a ignorância e a barbárie a respeito do assunto é compartilhada por um universo comum: a sociedade racista que não se compraz com a condição humilhante do “negrinho do coronel” ou do aluno africano discriminado na UFMA.

A perversidade produzida pela ignorância é tão grande que o autor dos tweets, inverte a situação e transformando em vítima o professor, suposta cobaia da sociedade idiotizada que o condena baseada em  “denúncias que não dizem nada” e  enche de razão um aluno “apenas” porque ele é negro.

As denúncias não dizem nada??

Leiam então as denúncias assinadas pelos alunos do curso de engenharia química da UFMA:

“Para: Universidade Federal do Maranhão/UFMA

CARTA ABAIXO ASSINADO.

Nós, estudantes do curso de Engenharia Química da Universidade Federal do Maranhão/UFMA, matriculados na disciplina Cálculo Vetorial, informamos que o professor Cloves Saraiva vem sistematicamente agredindo nosso colega de turma Nuhu Ayuba humilhando-o na frente de todos os alunos da turma. Na entrega da primeira nota o professor não anunciou a nota de nenhum outro aluno, apenas a de Nuhu, bradando em voz alta que “tirou uma péssima nota”; por mais de uma vez o professor interpelou nosso colega dizendo que deveria “voltar à África” e que deveria “clarear a sua cor”;em um outro trabalho de sala o professor não corrigiu se limitando a rasurar com a inscrição “está tudo errado” e ainda faz chacota com a pronúncia do nome do colega relacionando com o palavrão “no cu”; disse que o colega é péssimo aluno por que “somos de mundos diferentes” e que “aqui diferente da África somos civilizados” inclusive perguntando “com quantas onças já brigou na África?”. Nuhu não retruca nenhuma das agressões e está psicologicamente abalado, motivo pelo qual solicitamos que esta instituição tome as providências que a lei requer para o caso.

Os signatários.”

As denúncias não dizem nada, cara pálida?

Não precisa ser especialista em direito para saber que a se confirmar o teor das denúncias descritas na carta abaixo assinado dos estudantes, o professor Cloves Saraiva deveria ser preso por prática de racismo e outros crimes.

Mas na crença cega do autor dos tweets, Cloves Saraiva é uma pobre vítima dos idiotizados do mundo, que dão toda razão a um aluno “apenas” porque ele é negro.

Na ignorância, esquece-se da historicidade gravada na palavra “negro”, terminologia que não é um simples sinificante para nominar aqueles que tem determinada tipo de pigmentação da pele. O africano escravizado passou a ser negro no Brasil para que houvesse uma perda de significado da sua própria condição, não é uma palavra inocente e desprovida de significado histórico, como aliás, nenhuma palavra o é. Foi por isso que os movimentos contra o racismo, mudaram a terminologia e passaram a usar o termo afro-brasileiro, para reconciliarem-se com um termo que foi propositadamente mascarado para divorciá-los de sua condição. Haja ignorância e  falta de sensibilidade social para proferir a frase:  “o aluno é negro e  isso é tudo”

Não é tudo, mas é razão suficiente para alguém ser humilhado nesse Estado cheio de gente com mentalidade do tamanho de uma noz.

Os dados do último senso – IBGE mostram que o Maranhão, estado onde houve o maior aumento percentual de vítimas de mortes violentas,  a maioria esmagadora dos assassinados são jovens, pobres e “negros”!

Tal realidade acontece por acaso? Por que Deus quis? Ou seria talvez porque a índole do negro é mais violenta do que as demais “raças”, como nos ensina a teoria lombrosiana?

Querer remediar a realidade de imensa discriminação a pessoas por causa da pele que existe nesse Estado, usando como desculpa que o discurso do politicamente correto é um atentado a liberdade de expressão ou que está em curso no país uma política exagerada  de proteção a “negros”  a ponto da sociedade ter se idiotizado para a argumentação lógica, é das coisas mais  medonhas que eu já vi e olha que já vi muita coisa medonha nessa minha vida.

Por fim, quero dizer que não pertenço a movimentos por direitos de negros ou de quem quer que seja, ao contrário, sempre achei a segmentação dos movimentos de luta por direitos humanos, o fim da picada.

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Falando em professor Racista…

Na verdade, só voltei minha atenção para o caso envolvendo o professor Cloves Saraiva, depois que li a imoralidade que ele escreveu e ainda teve coragem de chamar de carta de retratação, graças a isso, me convenci de que a questão se tratou mesmo de racismo . Leiam a perfídia boçal cometida contra a Língua Portuguesa e depois me digam se eu não tenho razão em defender a prisão desse cidadão de terceira categoria, seja por racismo ou por apologia ao analfabetismo:

RETRATAÇÃO PÚBLICA

José Cloves Verde Saraiva, professor associado III da UFMA, vem mui respeitosamente pedir desculpas públicas à interpretação, certamente dúbia, do aluno nigeriano NUHU AYUBA, que durante as aulas de Cálculo Vetorial, no curso de Engenharia Química da UFMA, sentiu-se ofendido, e vem esclarecer este engano nos três itens seguintes:

1. Ao perguntar o seu nome não houve qualquer sentido jocoso, visto que sua pronúncia no seu idioma induz isto no nosso e que foi esclarecida por ele mesmo como o equivalente deste a NOÉ JOSUÉ.

2. Em conversa particular, referir-me ao Prêmio Nobel Nigeriano W.Soyinka sobre a frase “UM TIGRE NÃO DEFINE TIGRITUDE. UM TIGRE SALTA!” Quando me referi aos LEÕES AFRICANOS, que nas dificuldades de todo estrangeiro para o entendimento subjetivo de acusações preconceituais, esta não induz isso, pois sou também de cor parda, assim como os meus familiares, e durante toda minha existência jamais proferiria tal insulto, principalmente para aluno.

3. Já referir-me em classe que “ser universitário é muita responsabilidade” e é costume dos alunos novatos (calouros) usarem as dependências da universidade para outros fins fora do contexto educacional. Reclamei a você e aos outros colegas que não compareciam às aulas, nem fizeram os exercícios e, principalmente você, não compareceu ao PRÉ-TESTE e nem fez a sua 1ª Avaliação, além disso, não fez o PRÉ-TESTE da 2ª Avaliação, nem as suas notas de aula no caderno desta disciplina foram escritas e apresentadas até hoje. É lamentável! Faço o meu dever de professor cobrando o bom entendimento da disciplina, tendo formado excelentes alunos durante todo esse tempo, veja que a maioria dos seus colegas de classe cumpriram seus deveres e a turma passada não teve problemas deste tipo. Embora sabendo que você tem suas dificuldades naturais, como qualquer estrangeiro, deveria pelo menos se explicar, evitando interpretações errôneas sobre o seu atual comportamento como estudante da UFMA.

Firmo-me nestes termos públicos e receptivo a quaisquer outros esclarecimentos.

O que dizer?

Além de não ater-se a nenhum dos termos que o acusam de racismo, descritos na carta abaixo assinado dos estudantes, Cloves Saraiva  ainda usa subterfúgios para confundir a opinião pública e sem falar alhos com bugalhos, inventa umas coisas incongruentes como citar frases de ganhador do prêmio nobel da Nigéria. Para piorar, não há retratação alguma na carta de retratação de Cloves Saraiva, ao contrário. Logo no primeiro item do “texto” o professor reafirma que no nosso idioma a pronúncia do nome do aluno de fato remete à palavra “cu”. Pode? Ao dizer que é pardo e tem familiares igualmente pardos, o professor usa o mesmo recurso que a deputada Myriam Rios usou para discriminar homossexuais, quando ela, após igualar homossexualidade e pedofilia, disse que o fato de ter parentes gays por si só, inviabilizavam a possibilidade dela ser preconceituosa. Desde quando reconhecer-se como pardo significa que  há impossibilidade de discriminar o outro em função da cor da pele? É cada uma !

Reconheço que não sou nenhuma super conhecedora da Língua Portuguesa e que cometo pecadilhos no uso de determinadas palavras e expressões, mas o atentado cometido por Cloves Saraiva, é uma afronta a toda Universidade Federal do Maranhão. É esse tipo de professor desqualificado, o responsável pela transmissão de conhecimento às novas gerações?

E não adianta usar a desculpa de que o professor não consegue escrever um texto básico porque leciona na área de exatas, o mínimo que se pode esperar de um professor é conhecer ainda que minimamente, o próprio idioma.

Levei a carta do digníssimo professor a uma amiga, que por sua vez a entregou à mãe, uma professora de Língua Portuguesa. A intensão original era analisar o texto para verificar se o professor Cloves Saraiva havia cometido o recorde  de analfabetismo funcional, mas diante do nível de truncagem do texto e da revolta que a professora sentiu ao ler o crime cometido por Saraiva, recebi como resposta,  e-mail em forma de cartinha, dirigida ao professor da UFMA:

Caro professor, sua próxima retratação será com o idioma vernáculo. Aquele mesmo, que o senhor ofendeu com suas frases truncadas sintaticamente e com seus erros absurdos de regência. O respeito à língua pátria é, antes de tudo, um dever, um requisito para que se ocupe um cargo de tamanha responsabilidade, como o de docente.

Dúbio está seu texto. Dúbias são suas intenções. Retratar-se é corrigir o que se disse por engano, é pedir desculpas por um erro cometido, mas seu texto acusa, numa tentativa vã de justificar suas intolerâncias. Seu texto traduz sua insipiência a respeito da Declaração dos Direitos Humanos, que, em seu artigo 5°, afirma: “Todos são iguais perante a lei, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade.

Não está em questão o comportamento do aluno (as provas que ele fez ou deixou de fazer), mas o seu comportamento, as suas atitudes discriminatórias. Em alguns fragmentos de seu texto, incabíveis no contexto, o senhor corrobora as acusações que lhe foram atribuídas – “nas dificuldades de todo estrangeiro para o entendimento subjetivo de acusações preconceituais” ou “sabendo que você tem suas dificuldades naturais, como qualquer estrangeiro” –, evidenciando um sentimento de xenofobia.

Caro professor, “ser docente é muita responsabilidade”!!!

O pior é que a ignorância está sendo perpetuada pela maioria dos blogues do Maranhão, que repetem títulos de posts sobre essa tal carta, afirmando que o professor se desculpou.

É como sempre digo:  Eita Maranhão!!

Fonte: Marrapá

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