Cidinha da Silva – Sueli Carneiro

29/01/26
Pupila juntou 40 anos de aprendizados em 81 lições do “Método Sueli Carneiro”

A realização de tribunais populares sem validade jurídica, voltados a jogar luz sobre pontos importantes da sociedade brasileira, tem certa tradição no Brasil. Nos anos 1980 o “Tribunal Tiradentes” teve várias sessões visando questionar a Lei de Segurança Nacional, um instrumento da ditadura. Nesse contexto aconteceu, em 1988, o “Tribunal Winnie Mandela”, gestado no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher do Governo Federal. O CNDM tinha uma Comissão da Mulher Negra, e dali saiu a iniciativa de criar um evento para denunciar o racismo no centenário da Lei Áurea. Cidinha da Silva era estudante universitária em Belo Horizonte e veio a São Paulo acompanhar as sessões do “tribunal”, que aconteciam na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. O pasta da Comissão da Mulher Negra era coordenada por Sueli Carneiro, então o tribunal era uma cria sua. As duas se conheceram ali. “Fui convidada a ir à casa dela, depois eu tinha um projeto para a universidade que ela foi discutir comigo. Era um domingo de manhã e ela saiu da casa dela e foi me encontrar onde eu estava para discutir o projeto. Desde que a conheci passei a vir a São Paulo. Eu ficava em Geledés e acompanhava a Sueli”, lembra Cidinha da Silva.

Formada em filosofia e com doutorado em educação na USP, Sueli Carneiro deixaria o governo federal e se dedicaria em tempo integral ao ativismo, e talvez seja o nome mais conhecido quando se faz referência aos avanços da sociedade civil na luta contra o racismo. Vamos lembrar que na época da Constituinte de 1988 racismo não era crime tipificado em lei, não existiam cotas para universidades ou empresas e vingava a ideia de que o Brasil era uma “democracia racial”. Quando se avalia esses avanços o nome de Sueli Carneiro sempre aparece, e seus textos são referência também nas áreas da pedagogia, do direito e do feminismo. Em 2023 sua participação no podcast “Mano a Mano”, onde ela deu uns puxões de orelha em Mano Brown, lhe garantiu visibilidade para fora da militância, onde ela caminha rapidamente para tornar-se uma lenda.

Em 1990 Sueli Carneiro estava em Belo Horizonte e Cidinha da Silva foi encontrá-la. Havia concluído a graduação e buscava emprego em São Paulo. Sueli Carneiro pediu seu currículo: “Posso ouvir o barulho da impressora matricial imprimindo meu futuro em páginas levemente coloridas”, lembra Cidinha da Silva. Alguns meses depois Sueli Carneiro a convidaria para integrar Geledés – Instituto da Mulher Negra, onde Cidinha da Silva trabalharia por 13 anos ocupando várias posições, incluindo a presidência.

Geledés havia aparecido em 1988 como iniciativa de um grupo de mulheres negras unidas em torno do feminismo e do antirracismo, e nesse momento era dirigido por Sueli Carneiro. Numa época em que muita gente progressista acreditava que racismo não existia no país, e o próprio conceito de ONG estava engatinhando, o grupo teve uma série de dificuldades, financeiras inclusive, mas aos poucos enfileirou conquistas. Talvez a primeira vez que Geledés ganhou visibilidade maior foi com o Projeto Rappers, surgido no início dos anos 1990 a partir da demanda de bandas de hip-hop que sofriam assédio da polícia. A organização abraçou a causa, abrigou cantores e cantoras, ofereceu uma formação política e profissional e até uma carteira de trabalho assinada, com intuito expresso de funcionar como salvo-conduto em entreveros com a polícia. Os ganhos foram se multiplicando: surgiu uma revista para registrar o momento – “Pode Crê” – um festival de hip-hop na estação São Bento do metrô em São Paulo e encontros de esclarecimento com a polícia militar. A trégua aconteceu e foi celebrada. O próprio Mano Brown frequentou Geledés e, no episódio do seu podcast com Sueli Carneiro, agradeceu pelos aprendizados da época.

Em 2004 Cidinha da Silva deixou Geledés e hoje tem uma carreira literária que compreende duas dezenas de títulos de contos, crônicas, poesia e obras infanto-juvenis lançadas em várias línguas e que já ultrapassaram os 350 mil exemplares vendidos mundialmente. Ela deixou Geledés, mas não o movimento feminista e antirracista, nem a convivência com Sueli Carneiro, e em 2025 ela lançou “Só Bato em Cachorro Grande, do Meu Tamanho ou Maior”, volume onde resume os ensinamentos de 40 anos de convivência em 81 lições formativas, que ela chama de “Método Sueli Carneiro”.

Todos nós vivemos relacionamentos importantes, mas só algumas pessoas têm a sorte de vivenciar um encontro definidor, a partir do qual tudo mudou. Este é o caso, e Cidinha da Silva não deixa nenhuma dúvida a respeito: “Este ‘Cachorro Grande’ é uma declaração pública de amor a Sueli Carneiro. Nele, realizei uma leitura detida e sistematizada da sua generosidade em me acolher, abrir portas e proteger as minhas costas para me tornar o que sou; também é sobre sua atitude constante de ser forja e seta para almas perdidas, desterritorializadas ou destroçadas, como fui um dia”. Menos comum ainda é a discípula de detalhar cuidadosamente a maneira como recebeu os ensinamentos, e ainda organizá-los de forma didática para que outros possam se beneficiar.

O Método Sueli Carneiro, forjado na guerra travada no dia a dia pela população negra nas periferias das cidades brasileiras é, antes de tudo, um método humano. Cada indivíduo é visto e valorizado, merece investimento, e sobretudo paciência, uma vez que pode se encontrar e mostrar seu potencial agora ou no futuro. Várias lições tratam desse tema:

Lição 19: “Invista nas pessoas, aposte. Não importa que elas deem errado”

Lição 31: “Respeite e reverencie a estatura de uma pessoa”

Lição 8: “Acredite no sonho das pessoas”

Lição 44: “Mesmo as pessoas muito difíceis merecem uma chance”

Lição 7: “Compartilhe seu sucesso. Nem todo mundo alcançará os lugares que você alcançar. Leve-os com você”

O respeito pelo valor de cada pessoa precisa vir acompanhado de uma atuação ética antes de tudo:

Lição 5: “Não blefe”

Lição 12: “Deslealdade é algo imperdoável, seja leal”

Lição 18: “Não chute cachorro morto”

Não se trata da vitória pela vitória, impessoal, impiedosa e, se necessário, antiética, como tantos volumes encontrados enfeitando as estantes dos aeroportos. Investir nas pessoas – cada uma delas, inclusive as difíceis -, tratá-las com generosidade, respeitá-las, reconhecer a sua estatura, acreditar nos seus sonhos e compartilhar com elas o seu sucesso são marcas de uma atuação onde o respeito humano vem em primeiro lugar.

O Método Sueli Carneiro propõe uma liderança corajosa, que está na linha de frente, não foge da responsabilidade de tomar as decisões difíceis e de ser vidraça para os ataques. Quem usa o conceito de liderança servidora para não assumir o papel impopular quando preciso, ou defende uma tomada de decisão horizontal só para não dividir a responsabilidade por uma decisão difícil, não se cria no Método SC. “No fim das contas, é tudo no seu nome”, ensina a lição 73, sobre como líderes não podem se furtar da responsabilidade. “Siga a líder”, diz a lição 22, deixando bem claro o que a liderança espera quando a decisão está tomada. A proposta é elaborada de forma mais detalhada na lição 65, “Centralismo democrático enterreirado”. A expressão “centralismo democrático”, foi cunhada pela esquerda tradicional (aquela dos partidos comunistas do século 20), que de democrática não tinha nada. As decisões eram tomadas por um pequeno núcleo central, aos outros cabia obedecer cegamente. Ao adjetivar o conceito com a expressão “enterreirado” a lição defende uma liderança assumindo a responsabilidade e aguentando o tranco, mas sem abrir mão do respeito por todas as pessoas, da lealdade, da generosidade e da atitude ética acima de tudo.

Ter uma entrega de alto nível, garantir a qualidade do que colocamos no mundo, é um conceito presente em várias lições, apesar de ter uma dedicada a ela, a lição 10: “É preciso produzir com excelência”. Não se trata de defender a perfeição pela perfeição, como se todos fossem autômatos, ou apenas instrumentos para o atingimento de um fim nobre. É preciso o olhar humano paciente, caridoso, leal e ético, mas isso não se confunde com mediocridade, que não constrói nada. Como avisa a lição 11, “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”.

O que lembrar: encontrar quem esteja disposto a compartilhar o que aprendeu num encontro transformador é mais difícil do que deveria ser. Não só pela generosidade, mas também pela humildade, de mostrar que o que sabemos não veio do além, veio de um aprendizado muito específico, e que buscar um encontro transformador para crescer está ao alcance de todos.

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