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Com a dor, enegreci

NÁDIA MARIA RODRIGUES, 42 anos, professora da rede pública do DF, solteira, nascida em Caxias, Maranhão. Está em Brasília há 39 anos, mora em Águas Claras. Em 2008, ganhou o prêmio Professores do Brasil, do Ministério da Educação.

Quando eu tinha 3 anos, meu pai se separou da minha mãe e veio para Brasília com os cinco filhos. Meu pai é negro. Não me lembro de minha mãe, mas dizem que ela não é completamente negra. Deve ser mestiça. Morei na Ceilândia quase a vida toda. Em casa eu era chamada de cabelo de bombril. Sou a única da família que nasceu com o cabelo tão crespo. Minhas colegas, de brincadeira, também me chamavam de neguinha do cabelo de bombril, de cabelo de retrós. Isso doía muito. Era uma coisa que eu não tinha como mudar. Eu não tinha dinheiro pra alisar o cabelo.

Quando eu era pequena, era eu quem catava meus piolhos. Amarrava um pano na cabeça, punha o cabelo pra frente e passava o pente-fino. Doía o braço para desembaraçar. Eu passava óleo de cozinha porque não tinha dinheiro para comprar cremes, xampus, essas coisas. Fui eu que alisei meu cabelo a primeira vez. Devia ter uns 12 pra 13 anos, fui trabalhar na feira do Guará, vendendo roupa. Me lembro que comprei uma pasta de abacate. Passei aqui [mostra a testa] e ficou um buraco. Foi muito sofrido. Fui melhorando a grana, e daí pra frente usei química a vida toda. Quando entrei na Secretaria de Educação, comecei a alisar o cabelo no salão de beleza. Na verdade, eu queria esconder o cabelo de bombril para amenizar o sofrimento. Meu cabelo era a raiz do sofrimento.

Em meados de 2007, passei por momentos muito difíceis. Havia perdido uma gravidez e um irmão meu estava enfrentando grave problema. Estava muito sofrida. Aí uma amiga me convidou para participar de um grupo de estudos chamado Neafro da Católica [Universidade Católica de Brasília]. Fui à reunião. Daquele dia em diante minha vida mudou. Quando cheguei, eles estavam discutindo um texto que falava sobre mulheres que alisam o cabelo. De uma escritora negra chamada Bell Hooks, Alisando os nossos cabelos. Doeu muito em mim, chorei muito quando li aquele texto. Ele fala da importância de a mãe trançar o cabelo da filha. Eu alisava o cabelo para seguir o modelo-padrão. Quando entendi isso, foi tão forte que falei: ‘Vou deixar meu cabelo ficar crespo’.

“Que cabelo é esse?”

Foi uma pressão muito grande lá em casa. Meu irmão falou assim: ‘Que cabelo é esse?’. E meu pai: ‘Ela agora aprendeu a fazer essas tranças e a botar esse fuá pra trás’. A essa altura eu já estava mais fortalecida. ‘Vem cá’. Expliquei pra ele o racismo, falei como foi a chegada dos escravos, como eles foram tratados, de que isso se perpetuou, de como a gente é excluído. Falei, falei, falei. Ele parou, pensou e disse: ‘Ô, rapaz, eu não sabia disso’. Por isso que eu digo: mudei algumas pessoas na minha vida. Lá na escola, ninguém mais fala perto de mim ‘cabelo ruim’. Não é cabelo ruim, é cabelo crespo. Uso meu cabelo blecão mesmo, presinho, ponho faixa, turbante.

Como não me ensinaram isso? Como não me falaram que eu era negra? Como a escola nunca tocou nesse assunto? Fiquei revoltada com tudo o que havia descoberto, com o que a sociedade havia feito comigo e com minha família. Não culpo meu pai; ele estava reproduzindo uma coisa que aprendeu. Através da dor, enegreci.

A partir daí minhas aulas de história e cultura afro-brasileiras passaram a ficar mais ricas. Foi uma consequência natural das minhas transformações. Eu estava nesse processo quando encontrei um escrito no quadro da minha sala: ‘Negra burra’. Era uma letra bem grande, no meio do quadro. Não era letra de criança. Apaguei. Na mesma época, começaram a sumir materiais que eu produzia com as crianças. Até que um dia sumiu um mural enorme. Fizemos na sexta-feira, coloquei do lado de fora da sala e na segunda não estava mais. Os das outras professoras continuavam lá, menos o meu. Foi aí que me lembrei do ‘negra burra’. Só podia ser a mesma pessoa, alguém estava querendo me agredir de alguma forma. Contei pra minha irmã, que é policial civil, e ela me perguntou por que eu não havia fotografado, que aquilo era crime. E me perguntei: ‘Por que apaguei aquele escrito? Por que não fotografei? Estou estudando essas coisas, vendo essas questões, não posso deixar passar’.

Um dia, no horário do recreio, pedi pra falar com a diretora, os professores, os servidores. Foi a primeira vez que me pronunciei publicamente a respeito. Estava chorando pra caramba. Falei que eu tinha visto aquela escrita, mas não havia me dado conta do que aquilo significava, que não ia aceitar mais aquilo. Depois, escrevi uma carta, coloquei no mural e em alguns pontos estratégicos da escola e mandei para o sindicato. Você não sabe como essa minha atitude me fortaleceu, me deu mais força pra trabalhar.

Pouco tempo depois, uma colega me falou de um concurso do Ministério da Educação para professores de todo o país. Vi que preenchia todos os pré-requisitos e me inscrevi. Em 2008, ganhei o Prêmio Professores do Brasil, por conta de minhas atividades em sala de aula. Depois disso, passei a ser mais respeitada.No primeiro dia de aula do ano passado, pedi para as crianças fazerem um desenho do rosto delas pra pôr no crachá. Vi crianças negras se desenhando louras dos olhos azuis. Na aula seguinte, levei um espelho pra sala de aula, me sentei numa rodinha com eles, e pedi pra quem eles olhassem pro crachá. E que eles dissessem como é que se desenharam e como é que eles eram. Foi a primeira reflexão de identidade. Depois, pedi que eles fizessem o crachá novamente do jeito que eles eram. Mas antes pedi para eles olharem no espelho. O formato do rosto, o cabelo, o tamanho, a textura, a cor. Como o crachá ficou diferente! Aí falei para eles que a gente tem de gostar da gente do jeito que a gente é.

“Só namoro homens negros”

Sempre atraí homens brancos. Nunca havia namorado um cara negro.Tem essa coisa do homem branco querer namorar mulher negra por causa do mito de que são boas de cama, mas sei identificar isso e botar pra correr, se for o caso [risos]. Tive namoros esporádicos com caras brancos e os dois mais duradouros também eram brancos. Lembro que quando meu primeiro namorado me levou à casa dele, a mãe dele, cearense, não escondeu o estranhamento: ‘Você é que é a Nádia??’. Deixou claro, claríssimo, o seu desagrado. Hoje ela me ama. Eu não me sentia merecedora de um namorado que me valorizasse, que me respeitasse, que me amasse. Vivia relações ruins.

Depois que fui para o grupo de estudos discutir gênero e raça, me valorizo, me respeito, me imponho, vou para o embate, se for preciso. Depois que passei a me perceber negra, que me acho bonita do jeito que eu sou e o homem que quiser ficar comigo vai ter que me valorizar e me respeitar. Depois de minha transformação, só namoro homens negros. Me sinto à vontade com um negro. Ele sabe que vai pegar no meu cabelo e vai sentir uma coisa dura, que não é um cabelo liso.

 

Fonte: Correio Braziliense

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