Como devolver a decência à política. Por Jean Wyllys

As investigações do Ministério Público Federal envolvendo políticos de diversos partidos da base governista e da oposição de direita em esquemas de corrupção, financiamento ilegal de campanhas e lavagem de dinheiro mostram o quanto a gente precisa mudar o nosso sistema político. Independentemente das diferenças que possa haver entre um e outro caso (e da presunção de inocência, que deve ser respeitada para que exista um processo justo e transparente), não há como não se fazer uma avaliação política sobre a gravidade institucional da situação.

Por Jean Wyllys Do DCM

Entre os acusados de receber propinas e/ou fazer uso indevido de dinheiro público e de contratações públicas com empresas privadas estão, entre muitos outros, o presidente da Câmara dos Deputados, o presidente do Senado, o ex-presidente do PSDB, o ex-tesoureiro do PT e, de acordo com as últimas notícias, o ministro-chefe da Casa Civil do governo Dilma, um senador que foi candidato a vice-presidente pela chapa do Aécio e a principal liderança de uma central sindical localizada na oposição.

Todos eles estão sendo investigados junto aos principais diretivos das nove maiores empreiteiras do Brasil, que concentram quase toda a obra pública contratada pelo governo federal e por governadores e prefeitos de quase todos os partidos. Dos 513 deputados federais, 255 receberam doações de campanha das empreiteiras investigadas e de todos os partidos com representação no Congresso, apenas um, o PSOL, não aceitou dinheiro delas.

É o sistema político como um todo que está sendo investigado!

E há muita hipocrisia. Os governistas se vitimizam e não reconhecem que essa forma de financiamento da política e de construção da “governabilidade” sustentou os últimos 12 anos do PT no poder. Não só não reconhecem, como também mantém sua aliança com o PMDB e outros partidos diretamente envolvidos e principais articuladores dessa forma de governança. E os que saem da base do governo são recebidos pela oposição de direita sem questionamentos.

Ao mesmo tempo, os tucanos saem às ruas “contra a corrupção” sem dizer que a campanha de Aécio recebeu quase a mesma quantidade de dinheiro de “doações” das empreiteiras que a campanha da Dilma (e, diga-se de passagem, a campanha da Marina herdou parte da arrecadação da campanha de Eduardo Campos, com a mesma origem, além de ter o apoio do Itaú, que foi tão criticado pelo PT, que recebia o apoio do Bradesco).

E o Aloysio Nunes? E o Paulinho da Farsa (ops, da Força)? E qual governo das últimas décadas não foi aliado do PMDB, que hoje está com um pé em cada canoa, apostando a metade das fichas na defesa do governo e a outra metade num impeachment que leve Michel Temer à Presidência?

O buraco é muito mais profundo do que parece e não vamos resolver o problema fazendo politicagem. Todo o sistema político está podre, apesar dos esforços de muita gente honesta que, eu posso dizer com certeza, há em muitos (não em todos mas em muitos) partidos.

A única possibilidade que temos de resgatar a política da lata do lixo é apoiarmos reformas estruturais que vão além da distribuição de responsabilidade individuais. Precisamos mudar a forma em que se governa, a forma em que se financiam as campanhas e a forma em que se faz política nesse país. Esse presidencialismo de negociação que precisa articular maiorias parlamentares que se compram e se vendem não dá mais.

Essa forma de fazer campanha gastando milhões também não. Esse modelo econômico em que o grande capital manda e a política obedece é insustentável e antidemocrático. Ele produz corrupção, miséria, injustiça e desesperança. Ele afasta o povo da política e, assim, dá mais poder aos poderosos.

Precisamos encher a política de gente e mudar as regras do jogo, ou essa lava-jato passará e virão outras, num ciclo que nunca termina.

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