Congoleses no Rio: Entre a fome, o desemprego e o desejo de partir

O GLOBO reencontrou refugiados do Congo entrevistados antes da Olimpíada para saber o que mudou na vida deles um ano depois. O sonho brasileiro acabou

Por Caio Barretto Briso O Globo

Chadrac Kembilu Nkusu desembarcou cansado na Rodoviária Novo Rio, na primeira quarta-feira de agosto, após dois dias de estradas que separam Fortaleza e Rio de Janeiro. Antes, dormiu sete noites no chão do Aeroporto Internacional Pinto Martins, na capital do Ceará, até ser levado para um abrigo da Igreja Católica. Sobre a ponte que leva ao estacionamento do terminal, olhando no horizonte modernos edifícios comerciais da Zona Portuária, Chadrac se emociona ao falar sobre o fim do sonho brasileiro e a tentativa frustrada de deixar o país.

Trabalhei como garçom bilíngue na Vila Olímpica, mas, depois dos Jogos, não consegui mais nada, só bicos, carregando e descarregando caminhão. Juntei dinheiro com dificuldade e comprei passagens para Paris, onde vivem dois irmãos. Na conexão em Lisboa, os policiais da imigração me prenderam — conta Chadrac, de 20 anos, que fugiu do Congo para o Rio pouco antes da Copa do Mundo. — Fiquei cinco dias trancado em uma cela até me deportarem, mesmo eu tendo visto e todos os documentos. Em vez de me mandarem para o Rio, entrei num avião para Fortaleza. Meus irmãos fizeram uma “vaquinha” para comprar uma passagem de ônibus. Eu não queria voltar.

Rio, a capital do Congo no Brasil

Chadrac foi personagem de uma reportagem do GLOBO, publicada há um ano, sobre a situação dos refugiados da República Democrática do Congo no Rio. Voltamos a encontrá-lo, assim como o contador Andre Michel Kitambala e o jogador de futebol Luta Espoir Babou, para saber o que aconteceu com eles depois de um ano. Do total de 7.289 refugiados no Rio, os congoleses formam a segunda maior comunidade, com 927 pessoas — em primeiro lugar, estão os angolanos, que são 2.345. Mas entre os novos solicitantes de refúgio, o Congo lidera a estatística, com 622 pessoas aguardando aprovação. Cerca de 40% dos atendidos pela Cáritas RJ, ONG mantida com recursos da ONU, não têm qualquer renda. Os congoleses são os mais necessitados: dos 76 refugiados que receberam ajuda financeira da organização este ano (R$ 300 durante três meses), 90% são do país africano.

O Rio é a capital do Congo no Brasil, como mostram dados do Ministério do Trabalho e Emprego. Das 1.305 carteiras de trabalho já emitidas para congoleses no país, mais da metade (686) foi destinada aos “cariocas”. Aqui, eles se concentram no bairro de Brás de Pina, quase todos nas ruas estreitas da favela Cinco Bocas. A maioria nunca foi à praia. A comunidade se encontra nos cultos em lingala, da Assembleia de Deus Betesda Internacional, onde o pastor é conterrâneo.

É lá que Andre Michel Kitambala encontra força. Chegou ao Rio há dois anos no porão de um navio, e logo aprendeu português. Vive em um quarto e sala com sua mulher, também congolesa, no coração da Cinco Bocas. Enquanto ela trabalha como empregada doméstica, Andre corta cabelos em uma barbearia de Brás de Pina: a mesma rotina de um ano atrás. Ganha muito pouco e vive frustrado por não conseguir exercer sua profissão de contador.

— Faço o mesmo trabalho de antes. Já entreguei centenas de currículos, mas nunca me chamam. Agradeço a Deus mesmo assim. Se está difícil para brasileiros, imagine para congoleses — afirma Andre, que depende de doações de igrejas evangélicas para se alimentar.

Maior país da África subsaariana, o Congo está mergulhado em uma das crises humanitárias mais graves do planeta, com cinco milhões de mortos em duas décadas de conflitos, segundo a ONU. No romance “Coração das Trevas”, publicado em 1902, Joseph Conrad faz um retrato parecido com o atual: uma elite rica em ouro e tântalo — metal usado por empresas como Apple e Sansung para produzir celulares e computadores — em um país mergulhado na miséria. O problema se agrava: em comunicado há duas semanas, a ONU informou que 251 pessoas foram assassinadas nos últimos três meses na região de Kasai, incluindo 62 crianças, após a morte de um líder local, contrário ao governo — segundo a Igreja Católica, o número é muito superior, mais de três mil pessoas.

Bebê nascido no Rio morreu

São mais de 500 mil refugiados congoleses espalhados pelo mundo, entre eles Luta Espoir Babou, de 21 anos. Ex-meia-atacante do Dragons, time de futebol congolês, Luta chegou ao Brasil há pouco mais de um ano. Veio com sua mulher, Joel Nzinga Mayala, um ano mais nova, carregando na mala um punhado de roupas e o álbum de fotos do casamento, meses antes da longa viagem de navio ao porto carioca, também no porão escuro e sem escotilha, onde nunca se sabia se era dia ou noite. Foram 45 dias vivendo à base de água e biscoitos. Joel viajou grávida e sentiu muitas dores em alto-mar. Pensou até que tivesse perdido o bebê, pois mal se alimentava. Quando descobriram em um hospital público que o bebê estava vivo, inventaram para o menino um nome em português: Vencedor.

Quando O GLOBO esteve na casa dos dois, no ano passado, Vencedor era um bebê forte e de sorriso encantador. Como Luta não estava trabalhando, devia quatro meses de aluguel e não havia muito o que comer em casa: era fufu — fubá, em lingala — todos os dias. Às vezes, Joel desmaiava de fraqueza ao amamentar. Luta respira fundo para contar a maior dor de sua vida.

— Na madrugada do dia 29 de dezembro, a gente levou ele ao hospital. Estava tossindo e vomitando muito. O médico disse que não era nada e passou um remédio, para dar de cinco em cinco horas. A gente voltou com ele para casa, mas sem a medicação, pois não tinha no hospital. Conseguimos dinheiro para comprar na manhã seguinte, mas à noite ele piorou muito. Voltamos ao médico e, desta vez, ele falou que precisava interná-lo. Passei o dia lá. Vencedor começou a perder ar, tentaram reanimá-lo, tivemos que sair.

Vencedor morreu naquela mesma tarde. Os médicos do Hospital Getulio Vargas não souberam diagnosticar a causa: disseram que, talvez, tenha sido pneumonia. Luta ficou um mês em silêncio. Não conseguia conversar com ninguém, só com a mulher, que passou três meses sem força nem para levantar da cama. Joel chora até hoje quando vê as roupas do bebê, por isso Luta as doou para outras pessoas na favela. Desde que conseguiu um emprego como frentista em um posto de gasolina, no ano passado, nunca faltou um dia. Nem mesmo quando seu filho morreu.

— Houve um agravamento da situação dos congoleses no Brasil por causa da crise. Os que estavam empregados estão sendo demitidos. Os que estão chegando agora não conseguem trabalho. Como o governo federal cortou o repasse que era feito à Cáritas, nosso poder de atuação diminuiu — afirma Aline Thuller, coordenadora da ONG. — Os congoleses estão muito assustados, pois mesmo vindo de um país em guerra não tinham presenciado uma violência diária como a do Rio. Aqui, pela falta de recursos, são obrigados a viver em lugares precários.

O destino dos congoleses entrevistados é imprevisível. De volta ao Rio, Chadrac já imprimiu cem currículos e planeja concentrar a entrega deles em hotéis, pois fala português, francês e um pouco de inglês, e já trabalhou no setor na capital do seu país, Kinshasa. Andre mantém a esperança de conseguir um trabalho de contador, e nunca mais precisar de doações para encher a barriga. Depois de perder Vencedor, o primeiro carioca da família, Luta e Joel estão à espera de gêmeos. O pai ainda alimenta o sonho de ser jogador no país do futebol.

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