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Cristãos transgêneros lutam para conciliar fé e mudança de gênero no ‘evangelho inclusivo’

G1 conta a história de três pessoas que cresceram na igreja, mudaram de sexo e encontraram em novas igrejas a resposta para desfazer o que por muito tempo foi um insuportável conflito interno – e externo.

Foi só depois de se afastar da igreja, conhecer e se apaixonar por um homem e decidir se casar, que Alexya chegou a uma igreja inclusiva, buscando na internet. “Quando eu encontro a igreja e venho conhecer essa igreja, eu chego e encontro travestis, encontro drag queens, encontro gays, lésbicas, encontro famílias. E eu vou me reconhecer dentro desse cenário”, afirma.

E já nesse contexto ela tomou coragem para fazer sua transição para o sexo feminino, contando com o amparo do marido e da igreja. “A ICM fez com que eu me percebesse como pessoa humana, quem eu era de fato no mundo. E que era possível, sim, e era natural, acima de tudo, conciliar a minha identidade de gênero, a minha sexualidade, com a fé, com o Cristianismo.”

A adoção dos dois filhos, primeiro um menino com necessidades especiais e depois uma menina trans, trouxe a responsabilidade de criá-los em meio a adversidades.

“Desde pequenos eles já aprendem os reais valores do Evangelho, que é a luta pela construção de uma sociedade justa, igualitária; que o reino de Deus é aqui, é agora; que a nossa preferência é o excluído, é o marginalizado. (…) É isso que eu e o pai procuramos mostrar para eles desde pequenos. Não é só ir à igreja, é fazer parte da construção da civilização do amor”, diz Alexya.

Henrique beija a esposa, Ive, ao chegar em casa após o trabalho. O potiguar abandonou a igreja ao se mudar para São Paulo, mas voltou após conhecer uma igreja inclusiva – e hoje é casado com uma pastora (Foto: Fábio Tito/G1)

‘Convertendo’ a futura esposa

“Quando eu o conheci, ele disse: ‘Olha, eu sou trans’. Foi muito complicado pra mim. Porque quando você é lésbica, você procura uma mulher lésbica, né. E eu nunca entendia esse mundo trans. Eu falava assim: ‘Ai, mas se nasceu uma mulher, pra que que quer ser homem?'”, recorda Ive Lucy Bergamo ao falar do marido.

Henrique Júnior Alves, de 32 anos, cresceu em um lar católico assim como Alexya, em Natal (RN); converteu-se evangélico aos 14 anos e abandonou a igreja ao se mudar para São Paulo, aos 18.

“Aqui em São Paulo eu não quis frequentar igreja nenhuma, porque as igrejas não aceitavam muito a homossexualidade e a transexualidade em si. Eu ia a algumas igrejas visitar, mas me sentia confrontado com aquilo. Então, parei de ir, fiquei um bom tempo sem frequentar igreja nenhuma. Mais ou menos uns 9 anos sem frequentar”, conta.

Chegar a uma igreja inclusiva, segundo Henrique, foi “resposta de oração”. “Eu pedia muito a Deus, que eu queria muito, eu tinha muita vontade de buscar”, afirma. E diz que sua esposa, Ive, entrou em sua vida do mesmo jeito, através de um grupo de Whatsapp da igreja.

O casal transafetivo Henrique Júnior Alves e Ive Lucy Bergamo. À direita, Ive durante pregação, e Henrique no dia em que foi ungido missionário (Foto: Arquivo pessoal)

Um leve desentendimento quanto a uma reflexão bíblica proposta no grupo por Henrique foi a fagulha para aproximar os dois. Mas Ive explica que foi necessária uma “conversão” diferente para engatar o namoro.

“Deus foi trabalhando no meu coração, e ele foi me ensinando. Que era o jeito dele. Como ele nasceu. Ele estava no corpo de uma mulher, mas se sente um homem. Não é isso? Então, Deus e ele foram me ensinando a entender”, completa Ive.

O casal ainda lembra com fascínio da noite em que foram ungidos para a obra, que é quando um pastor faz uma oração reconhecendo o propósito de Deus na vida de uma pessoa para que ela trabalhe disseminando o Evangelho. Ive foi ungida para ser pastora; ele, para ser missionário. A surpresa, contam, foi porque se tratava de “um pastor hétero, de uma igreja tradicional”.

“Ele (o pastor que nos ungiu) é da Assembleia de Deus. A gente jamais iria imaginar. (…) E estamos aqui pra fazer a obra d’Ele. Pra ganhar mais transexuais, para eles saberem que podem sim adorar a Deus, que podem sim encontrar uma esposa ou um esposo no meio evangélico”, afirma Henrique.

Jacqueline Chanel durante reunião com temática cristã da ONG Séforas, que ela promove semanalmente convidando travestis e pessoas em situação de rua (Foto: Fábio Tito/G1)

De ‘seita’ à nova casa

Entre diversas transições por que passou na vida, incluindo a do endereço (de Belém do Pará a São Paulo) e a do gênero (do masculino para o feminino), Jacqueline Chanel também passou de braço direito do pastor de uma igreja evangélica pentecostal a diaconisa de uma igreja inclusiva. Isso depois de viver vários anos enxergando esse tipo de igreja como “seita”.

Cabeleireira de profissão, ela conta que percorreu um longo caminho até completar sua transição. Depois de muito bullying por começar a se ver como menina, aos 13 anos foi entregue pela mãe a um pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular, para focar a vida entre estudos e trabalho na igreja e ver se isso possibilitaria uma “cura”. Não funcionou.

“O pastor tinha muito carinho por mim, muito respeito por mim, mas eu era uma pessoa que ele trazia ‘escondida’. Até chegar uma situação muito constrangedora, em que chamaram o coral pra participar, mas eu como líder do coral não fui chamada a participar. E aquilo me magoou tanto que foi o motivo da minha saída, aos 20 anos, da igreja.”

Assim como Henrique, foi só depois de se mudar para São Paulo que Jacqueline conseguiu ver cenário mais adequado para sua transição. Mas mesmo na cidade nova, ela insistiu em procurar outras denominações evangélicas, recusando-se a abandonar sua fé. A história se repetiu, o que acabou “empurrando-a” aos últimos bancos para tentar passar despercebida pelos irmãos.

Reuniões da ONG Séforas são realizadas no Centro de Referência da Diversidade, órgão da Prefeitura localizado na Rua Major Sertório. Ao final, um jantar é oferecido aos participantes (Foto: Fábio Tito/G1)

Após o convite de um pastor para visitar uma igreja que pregava o evangelho inclusivo, ela decidiu ver com os próprios olhos o que ocorria dentro da suposta “seita”.

“Quando eu entrei e começou esse culto, um dos gays que estava na entrada, muito afeminado, ele foi pro púlpito. E quando ele abriu a boca, eu senti ali o poder de Deus através dele. E eu pude sentir ali o poder de Deus novamente, o fogo do Espírito Santo, a unção que tinha sobre aquela igreja e sobre aquelas pessoas. E independentemente da questão sexual. E eu via ali pessoas semelhantes a mim, que faziam parte da mesma comunidade que eu.”

Cinco anos depois, ela é diaconisa da Comunidade Cristã Nova Esperança da Vila Mariana e presidente da ONG Séforas, que trabalha temáticas cristãs com travestis, transexuais e moradores de rua da região da República, na Zona Central de São Paulo.

“O nosso trabalho é de acolhimento, para que elas possam conhecer a palavra. Para que elas tenham conhecimento de que esse Evangelho Inclusivo as aceita. De que elas podem começar uma vida cristã”, diz Jacqueline.

“Para depois se trabalhar essa questão de sair da prostituição ou não sair. Assim como as drogas, que caminham junto com a prostituição. O mais importante disso tudo é que elas tenham conhecimento de Deus, é que elas sintam esse amor de Deus, e que isso possa fazer uma diferença na vida delas”, completa.

Fiéis erguem as mãos durante culto de domingo na ICM São Paulo (Foto: Fábio Tito/G1)

Aceitação e inclusão

Entre padres e pastores, é comum o discurso que defende a aceitação indiscriminada de fiéis LGBT e faz crítica ao uso do termo “inclusivo” para identificar essas novas igrejas, por entenderem que o Evangelho, por definição, foi enviado para todos e já é inclusivo.

“Nós não estamos excluindo, mas nós não podemos equiparar a exceção com a regra. O que se quer é um discurso onde tudo seja natural. Eu acho que isso é nivelar por baixo. Sou contra toda e qualquer discriminação, bullying, toda e qualquer forma de violência, de qualquer forma. Mas nós não podemos querer fazer uma equiparação, simplesmente querer descartar o que Deus pensou para o ser humano”, diz o padre e cantor Reginaldo Manzotti, do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe.

Uma fala comumente repetida em igrejas conservadoras a respeito do acolhimento de transgêneros (e de pessoas do espectro LGBT em geral) busca dissociar o sujeito de sua maneira de ser, no sentido de “não odiar o pecador, mas odiar o pecado”. Mas nem todos abraçam esse ponto de vista.

“É um clichê religioso para dizer: ‘Olha, nós somos bonzinhos, sim, aceitamos você, só não gostamos da maneira como você vive’. ‘Bom, então se você não gosta da maneira como eu vivo, você não gosta de mim, você não vai me aceitar aí dentro do seu ambiente ou junto de você’. E, na verdade, é isso que acontece”, afirma o reverendo Ed René, da Igreja Batista da Água Branca.

“Todo discurso que sataniza um tipo de pessoa e um tipo de comportamento vai gerar violência, sim. A igreja deveria estar mais preocupada em promover paz, conciliação, respeito, preservação de direitos humanos… Mais do que ficar discutindo moral sexual. Isso é importante, mas existe uma agenda muito mais importante, na minha opinião”, considera René.

G1 questionou entrevistados a respeito de passagens bíblicas que podem ser destacadas quando o assunto é sexualidade e mudança de gêner

Pastor durante celebração de um culto inclusivo em São Paulo (Foto: Fábio Tito/G1)

Inclusiva até que ponto?

Mesmo entre igrejas que se identificam como inclusivas, no entanto, pode não haver consenso quanto à aceitação dos transgêneros, segundo relatos ouvidos pelo G1.

“Eu sei de igrejas que excluem, realmente. Tipo assim, eles aceitam os gays e as lésbicas, mas não aceitam as travestis e nem as transexuais. Há uma incoerência, uma divisão interna. Esse evangelho que as pessoas tentam vender, ele não é real, porque ele não inclui todas as pessoas”, afirma Jacqueline Chanel.

Já Alexya Salvador recorda duras críticas que sofreu vindas de outros cristãos LGBT após dar uma entrevista dizendo que “Jesus foi o primeiro transgênero”. Ela justifica a afirmação sugerindo que Cristo transicionou do gênero divino ao gênero humano ao surgir como o Messias.

“Eu sei que eu sou a contradição cristã no Brasil. E as pessoas preferem me atacar, os próprios LGBTs inclusivos preferem me atacar, dizendo que eu estou fazendo blasfêmia com a palavra de Deus. Não é blasfêmia. Se reconhecer em Deus é lindo. (…) E eu sou a imagem e semelhança de Deus, e não preciso pedir permissão de ninguém para isso, para ser. Eu sou e pronto”, diz ela.

A diretora da peça ‘O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu’, Natália Mallo (esq.), e a atriz Renata Carvalho, posam para foto após entrevista ao G1 (Foto: Fábio Tito/G1)

Jesus, travesti

Uma peça de teatro teve destaque ao longo de 2017 por motivar protestos e tentativas de barrar sua apresentação em diferentes cidades do Brasil. Trata-se da adaptação “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, da diretora Natália Mallo. O monólogo retrata a segunda vinda de Jesus Cristo como uma travesti.

“Na verdade, foi por isso que a autora (Jo Clifford) fez a peça. Porque ela não pôde mais entrar na igreja que ela frequentava, quando ela fez a transição de gênero. Ela escreveu esse texto, onde ela diz: ‘Onde está escrito que eu, uma mulher trans, não posso frequentar a igreja? Não tenho direito à minha fé?'”, conta Natália, que assistiu ao espetáculo original em Edimburgo, na Escócia, e conheceu a autora.

A resposta à indagação sai da boca da atriz trans Renata Carvalho, que encarna Jesus na adaptação: “Eu nunca disse isso”.

“A intolerância religiosa está muito forte, né. Muito forte mesmo. Em tempos onde Trump é eleito, onde essa extrema direita vem tão forte. Até o desfile da supremacia branca, isso é assustador. E isso no fundo, no fundo… a religião foi o alicerce para tudo isso”, diz Renata.

Natália lista os obstáculos que já surgiram contra a apresentação, entre ataques, ameaças de censura, ameaças físicas, difamação, notas de repúdio e exigências de cancelamento com os festivais ou com as organizações contratantes.

“A gente sempre conseguiu manter, dar o recado. E aí o público, o público fala por si. A gente não precisa defender o espetáculo, é o público que defende. E isso é muito bonito”, diz a diretora.

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