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Violência de gênero e transexualidade
Créditos da foto Corbin Smith

Violência de gênero e transexualidade

O que o caso do espancamento contra a transexual do Ceará nos diz sobre violência de gênero?

Por Itallon lourenço enviado para o Portal Geledés 

Foto Corbin Smith

Antes de tudo, inicio minha fala identificando meu local de fala. Acredito que assumir os privilégios e o local de fala é um passo importante para prosseguirmos um debate. Sou um homem cisgênero, negro e gay, assumindo meus privilégios enquanto homem e cisgênero em uma sociedade machista, patriarcal, misógina e transfóbica.

Vivemos em uma sociedade binarista de gênero. Ou seja, as categorias homem e mulher são aceitos como representantes de gênero. Segundo essa concepção, pra ser homem, uma pessoa precisa externalizar a masculinidade, estar de acordo com o órgão genital anatômico pênis e exercer determinados comportamentos preestabelecidos (como gostar de mulher); e para ser mulher, externalizar a feminilidade, estar de acordo com o órgão genital vagina e exercer determinados comportamentos preestabelecidos pela sociedade (como gostar de homem). Tudo que foge disso está em desconformidade com as normas preestabelecidas de gênero e, por conta disso, está sujeito à violência, ou melhor, às diferentes formas de violência.

Travestis, Transexuais e transgêneros são pessoas que, ao nascer, são designadas a determinado gênero (homem ou mulher), de acordo com seus órgãos genitais anatômicos. Se tiver pênis, homem; se tiver vagina, mulher. (se tiver os dois, ou ainda, se um externalizar primeiro que o outro, será definida de acordo com os pressupostos médicos – intersexo). Mas que, no desenvolver de suas identidades, ou seja, no processo de percepção de si como sujeitos no mundo entram em desacordo, não de forma consciente ou opcional, com as normas preestabelecidas e impostas de gênero. Elas conscientemente decidem externalizar suas reais identidades, de acordo com as possibilidades de vivência de gênero. Pessoas cisgêneras passam pelo mesmo processo de identificação, mas se estabelecem, também inconscientemente, com as normas impostas de gênero. Esse processo costuma se dar na infância, mas pode se desenvolver na adolescência, fase adulta ou estar em constante mudança no decorrer da vida. Pessoas Transexuais e Travestis podem ou não ter algum incômodo por conta de seu órgão genital, assim como pessoas cisgêneras podem também ter desconforto com seus órgãos genitais. Não é isso que irá defini-las como homens ou mulheres, mas sim suas percepções de si no e com o mundo em relação ao gênero.

A violência contra homens e mulheres trans, transexuais e travestis é baseada na violência de gênero. Lembrando, vivemos em uma sociedade patriarcal e misógina, onde o masculino é venerado e o feminino é odiado. Mulheres Trans, mulheres Transexuais e travestis sofrem Transfobia (ódio à transexualidade e travestilidade) e Transmisoginia, violência caracterizada pelo ódio à transfeminilidade. Elas são violentadas porque, no imaginário social, negam o papel de homem, macho, viril e dominador dado aos homens e assumem papel de passividade, fragilidade, submissão e servidão atribuído às mulheres. Elas passam, então, a serem violentadas como mulheres. Trans, importante pontuar. Essa violência se dá de múltiplas formas, com ofensas, apontamentos, comentários, piadas, negações de direitos fundamentais a qualquer cidadão, como educação, saúde, moradia, emprego formal. A violência física se dá geralmente de forma brutal com espancamentos, dilacerações, amputações, e geralmente são midializados. São verdadeiros linchamentos. Angela Davis diz que linchamentos são a resposta da sociedade à tudo aquilo que ela não aceita como possibilidade de existência, onde a vítima torna-se inimigo individual de um inimigo que é coletivo. A midialização desse linchamento, a propagação por meio de viralização de vídeos e fotos na internet, apresenta-se como o produto final produzida pela sociedade e dado a ela mesma sobre o ódio contra travestis e transexuais, que recai diretamente sobre os olhares das mesmas, para mostrar a elas seus lugares na sociedade transfobica. Homens Trans, quando assassinados, geralmente são estuprados e espancados. Espancados por assumirem a posição da masculinidade, portanto, que devem apanhar como homens, e pela negação do papel do falo, atribuído aos homens cisgêneros. Estuprados, para reforçar o lugar de submissão e servidão à violência sexual imposta às mulheres, por terem vagina.

A violência de gênero é sistêmica. Gays afeminados são violentados de forma análoga às mulheres trans e travestis e às mulheres cis por externalizar a feminilidade, e assumir o imaginário social de submissão e servidão. Logo, por recusar o papel de masculinidade imposta pela sociedade. Mulheres cisgêneras são desrespeitadas, deslegitimadas, estupradas, assassinadas, violentadas diariamente por conta da misoginia (ódio ao feminino), pelo machismo e patriarcado (concepção ideológica baseada na dominação masculina).

O machismo, o patriarcado, influenciam diretamente nas ações cotidianas de todos os indivíduos inseridos na sociedade, principalmente sobre os homens, que usam intencionalmente a estrutura à seu favor. Quebrar essa cultura/corrente exige constante auto análise e auto crítica, percepção política e conscientização sobre as relações de dominação. Em tempos de naturalização do ódio contra minorias e da aceitação social sobre a violência de gênero, é importante assumir privilégios e lutar para que sejam direitos garantidos de todos. E de todas.

***Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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