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Critérios de periferia

Critérios de periferia

A tarefa de levar o modelo de organização dos movimentos sociais para a periferia teve esse resultado imprevisível: nossa organização veio trazer respostas para a periferia, mas é a favela que está colocando nossos movimentos em questão. O texto que se segue pretende contribuir com um recomeço de conversa, que trate das novas oportunidades reveladas e encobertas por nossa estrutura organizativa.  

Por Carolina Malê

O que foi radical ontem se encontra paralisado hoje. Os movimentos sociais sobreviventes de duas décadas de reação neoliberal vivem agora seu último fôlego, sufocados por fora e deformados por dentro. A falta de rumo não é estática: ela se aprofunda e, pior, se naturaliza. Estamos virando caricaturas de nós mesmos: mística [cerimoniais colectivos] mecanicamente comovente, formação dogmaticamente questionadora, lutas previamente ajustadas ao limite da negociação. A resistência tem limite e os movimentos existentes não podem mais se superar em seus próprios termos.

Não podemos nos contentar com meras análises de conjuntura, quando é a própria lógica de funcionamento dos movimentos sociais que está perdendo fundamento material. O diagnóstico necessário – estrutural – passa, por exemplo, pelos princípios organizativos, que vêm sendo abalados pela história recente, um por um. Como falar em Autonomia, quando estamos quase totalmente dependentes de convênios com o Estado? Em Ação Direta Massiva, quando as bases se esvaziam, já que o povo percebe que as conquistas não saem e assim deixam de ver os movimentos como alternativas viáveis? Em Vínculo Orgânico, quando a relação entre base e militância não é mediada pela luta efetiva? Em Direção Coletiva, quando o isolamento agrava a precariedade organizativa que impede uma verdadeira formação de lideranças? Na ausência de um processo formativo politicamente orientado, a mais simples Crítica e Autocrítica se reduz a avaliação pessoal e a Divisão de Tarefas perde o caráter de distribuição de poder. Não se trata de idealizar o passado, como se antes tivéssemos coerência perfeita, mas sim de perceber que nossos princípios vão se tornando vazios de prática.

Ainda assim, não estamos num fim de linha vermelha. Os movimentos não se rebaixaram – ainda – à adesão descarada realizada pelos grandes partidos eleitorais e grandes centrais sindicais. Os movimentos contam com uma estrutura física e organizativa flexível o bastante para ainda não se dobrar por completo. Os movimentos ainda multiplicam militantes que dominam regras complexas de organização e, de norte a sul do país, temos muita gente experimentada em ocupações e ações ousadas contra o latifúndio, o Estado e, às vezes, contra grandes empresas. Além disso, os problemas contra os quais lutar não param de crescer. E, nunca esqueçamos, a nossa atual paralisia diz mais sobre a capacidade de articulação, ofensiva e cooptação da elite do que sobre a incompetência ou incoerência das direções dos movimentos sociais.

O detalhamento de nossas escleroses poderia seguir longamente, assim como a análise de nosso potencial remanescente. Mas, neste instante, cabe ressaltar que um dos traços mais graves dos movimentos sociais é que não fazemos o diagnóstico radical de nossos impasses nem percebemos bem as novas oportunidades que se colocam. Nosso corporativismo, nossa fragilidade material e os interesses particulares estreitam a autocrítica. Nossa experiência acumulada, nossas heranças e referências limitam a percepção sobre as mudanças na estrutura da sociedade. Giramos em círculo debatendo novos alvos e novas formas de luta, que não escapam de recolocar nossa prática convencional. Há dez anos atrás podíamos elaborar uma Nova Organicidade e sentir que ela era resposta ousada e adequada aos novos desafios. Hoje, nossa estrutura está cada vez mais entravando nosso entendimento sobre a realidade. Nossas organizações possuem grandes virtudes, às vezes tão grandes que nem deixam ver além. O texto que se segue pretende justamente contribuir com um recomeço de conversa, que trate das novas oportunidades reveladas e encobertas por nossa estrutura organizativa.

Entramos no assunto colocando em primeiro plano a aproximação entre os movimentos sociais e a periferia. Há uma década ou mais se espalham pelo país as tentativas de criar ocupações urbanas, assentamentos próximos de cidades, grupos de base em bairros de periferia. As direções perceberam o esvaziamento de suas bases e o inchaço urbano. O futuro passa pela periferia, concluíram. A militância foi então encarregada de levar para os bairros os métodos acumulados no campo. As experiências foram as mais diversas em diferentes regiões metropolitanas. Alguns bons frutos pareciam não compensar os fracassos e as frustrações, que se avolumavam. As avaliações eram recorrentes: a pobreza extrema dificultando a disciplina, o estranhamento com o trabalho agrícola, a juventude distante dos objetivos políticos, a veloz rotatividade fazendo a formação sempre recomeçar do zero. É um diálogo de surdos, dizia um dirigente. Não podemos admitir que nossas mobilizações virem clínicas de recuperação, dizia outro. A percepção geral é de que se trata de um povo degenerado – quase incapacitado para a organização social.

Ora, é essa a avaliação feita pelas direções nascidas e criadas no campo, nas pastorais, nos sindicatos, nas universidades, nos partidos políticos – enfim, é o ponto de vista dos movimentos progressistas dos anos 1980. Alheios à realidade da periferia, esses dirigentes necessariamente enxergam o problema pelo ângulo no qual se formaram. Acontece que existe uma militância que está se formando justamente a partir dessa divergência entre método e periferia e que necessariamente começa a avaliar o problema também pelo ângulo da periferia e não só de suas organizações. E que se recusa em ver ali uma simples degeneração.

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Vejamos alguns exemplos básicos, porém contundentes, de como o trabalho de base foi adensando esse outro ângulo. Em primeiro lugar, o mais óbvio, uma vez que a militância em geral não tem grandes espaços de poder a preservar: o inquietante contraste entre base negra e líderes brancos. Em segundo lugar, aquilo que as recentes ações contra o agronegócio corajosamente trouxeram à tona: a desconcertante divergência entre luta radical de mulheres e direção cautelosa de homens. Esses dois desencontros gritantes são confirmados dia a dia, no trabalho de base.

Não temos palavras em nosso vocabulário, conceitos em nossas teorias, páginas em nossas cartilhas e espaço em nossas reuniões para assimilar a dilacerante realidade da periferia. A força de nossas ocupações não encontra meios de dialogar com a impressionante capacidade de sobrevivência da periferia. A militância que vem de movimentos sociais para trabalhar na periferia é levada, por suas próprias referências organizativas, a filtrar o que vê com expressões rasteiras – degenerados, degradados, lumpem, etc. “Esse povo não tem consciência nenhuma”, dizia um militante de movimento social. Mas esses rótulos são derrubados pela convivência, chave do trabalho de base. A força de vontade, o afeto e a inteligência do povo, quando é ouvido, rompem o preconceito e jogam dúvida sobre as referências organizativas. Então, algumas comparações muito elementares começam a ser feitas – e tem início a reflexão.

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Toda a nossa solidariedade é despertada quando um de nossos camaradas é preso e ao mesmo tempo não temos nem leitura nem propostas sobre o descalabro do sistema prisional brasileiro. Ficamos orgulhosos em colocar nomes de quilombos em nossos assentamentos e ficamos impassíveis perante o pesadelo da massa de homens, sobretudo negros, enjaulados e também perante o pesadelo das mulheres, sobretudo negras, sustentando famílias desestruturadas. Celebramos as revoltas escravas e vemos as rebeliões atuais como coisa de bandido.

Os vigorosos ideais de justiça semeados pelos movimentos empalidecem com seu próprio silêncio diante das humilhações e do assédio sofridos pelas militantes mulheres cotidianamente, assim como diante da violência permanente sofrida pelas mulheres da base. Fica hipócrita a nossa reação indignada aos informes e estudos sobre repressão policial, quando a violência doméstica está à solta em nossas próprias fileiras e à nossa volta. Nada mais flagrante do que os repetidos casos de maridos que espancam esposas em ocupações e são expulsos – com a família inteira!

Em todo o país, as mulheres, principalmente as negras, se agitam contra o extermínio da juventude, que atinge seus filhos, irmãos e jovens maridos, enquanto nos movimentos só conseguimos oferecer propostas a serem negociadas com o Estado – como uma comissão de judeus que fosse negociar com o nazismo uma redução razoável do número de pessoas tombando em câmaras de gás.

Certa vez, uma companheira, liderança de base, mulher negra, foi vítima de erro médico, que a deixou com seqüelas. A primeira leitura da militância foi de classe: o caso é produto do neoliberalismo que sucateia serviços públicos e do desemprego que cria dependência de serviços sucateados. Ora, ignoramos toda a história do povo negro como cobaia da medicina civilizada; desconhecemos o descalabro da mortalidade materna; desconsideramos o tratamento de médicos que não tocam os pacientes negros e reclamam de seu cheiro. A conseqüência, então, é uma visão limitada à exploração do trabalho, que existe, mas não é tudo.

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A grande surpresa, que vem passando desapercebida pelas direções, por mais que a militância insista nas reuniões, é que, no confronto entre os métodos dos movimentos e a realidade periférica, novas idéias e práticas começaram a ser demandadas. Por todos os ângulos, é gritante o desencontro entre a estrutura progressista dos movimentos sociais e a dinâmica assassina que impera na periferia. Nossa solidariedade tende ao formalismo e, sem diálogo com o povo, tendemos ao autoritarismo.

Já vivíamos há muitos anos o problema do limite dos movimentos sociais em termos de luta de classes. O caráter sindical, o corporativismo, o imediatismo das demandas segmentadas e econômicas sempre foram barreiras à radicalidade. É um impasse que permanece atual e que exige uma retomada dos clássicos da teoria da organização política formulada na Europa desde a Comuna até a Guerra Civil Espanhola – e além. Mas o que está sendo frisado neste texto é que a favela retoma essa exigência e a ela soma outras. Coloca-se a necessidade de que a dimensão de classe seja somada a outras duas dimensões, difíceis de nomear, mas que por enquanto atendem pelos nomes de racismo e patriarcado.

A tarefa de levar o modelo de organização dos movimentos sociais para a periferia teve esse resultado imprevisível: nossa organização veio trazer respostas para a periferia, mas é a favela que está colocando nossos movimentos em questão – para quem tenha disposição de perceber. Essa é uma de nossas relevantes oportunidades atuais. O filtro da periferia revela que os limites de nossas percepções se enraízam em algo que vai além de nosso corporativismo ou de nossas heranças. A história dos movimentos sociais no Brasil traz uma verdadeira inspiração para todos os povos e a contribuição de sindicatos, movimentos, pastorais e universidades é indispensável para a periferia. Não se quer renegar o muito já feito. Nossas referências em termos de luta de classes não são desqualificadas pela favela, que também não é berço da verdade. Tudo bem pesado, cabe atentar que racismo e o patriarcado desafiam nossos critérios de esquerda. O anti-racismo e o feminismo, bem combinados à luta de classes, podem carregar algumas das chaves de que carecemos hoje.

Fonte: Passa Palavra

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