Da Black Rio à prisão na ditadura, Dom Filó quer criar a ‘Netflix negra’

FONTEEcoa, por Eduardo Carvalho
Asfilófio de Oliveira Filho, o Dom Filó, aos 73 anos. (Imagem: Zô Guimarães/UOL)

De engenheiro civil, DJ, MC, produtor cultural, jornalista, apresentador e documentarista. “Tudo isso me define”, conta Asfilófio de Oliveira Filho, o Dom Filó, aos 73 anos. Sem evitar momentos angustiantes, como a prisão na ditadura militar (1964-1985), a carreira eclética, baseada na estética, música e comportamento negro, produziu um legado imponente. Dom Filó participou do movimento político-cultural da Black Rio e criou a Cultne. Dona do maior acervo audiovisual negro do país, a produtora está prestes a se tornar a “Netflix negra” brasileira.

Bem relacionado nos mais de 40 anos de carreira, Dom Filó teve ao seu lado cantores como Gerson King Combo (1943-2020), conhecido pelo hit “Mandamentos Black”, e Tony Tornado, a voz de “Sou Negro”, que criticou o racismo no Brasil em pleno regime militar. Ainda que tenha trabalhado com estrelas como Gilberto Gil, Lázaro Ramos e Babu Santana, ele prefere distância dos holofotes.


Sempre fui e sou low profile. Mas tive que ir pra frente das câmeras ao lado de alguns deles. Sou quem faz a ponte para a galera cruzar o rio

Asfilófio de Oliveira Filho, o Dom Filó

Onde está o US$ 1 milhão?

Em 1976, Dom Filó foi encapuzado e jogado em um carro enquanto saía de um baile no Rio de Janeiro. “Algumas pessoas vinham e falavam: ‘se liga, estão te monitorando, toma cuidado’. Quando me pegam, me colocam num camburão e fiquei dando voltas. Na saída, estava em um lugar totalmente escuro, sem janelas”, lembra.

Passou a madrugada sendo interrogado em um lugar desconhecido. “No universo negro, só tinham três ou quatro visados [pela ditadura] e nós sabíamos quem eram: Tony Tornado, Gerson King, eu e Paulão da Black Power”, conta.

O motivo da prisão foi o rebuliço causado pelos bailes soul que, por meio da música e da identidade negra, debatiam política e a questão racial em um conturbado momento da história do país: a década de 1970, em pleno regime militar. À época, Dom Filó foi acusado de influenciar conflitos locais, ser comunista e ter ligação com movimentos antirracistas norte-americanos, como o Panteras Negras.

Reconheceu depois que estava no Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna). Apesar de recear pela vida, algumas perguntas sem nexo o fizeram ironizar o regime autoritário. “Perguntavam sobre US$ 1 milhão, falavam sobre a CIA [Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos]. Blefei. Disse: ‘se eu sumir, vão invadir isso aqui. Já estão me procurando. Acham que vai ser assim?’ Toquei o terror”, relembra.

Sem sofrer violência nem dar informações substanciais, afinal não estava envolvido com nenhuma organização, Dom Filó foi liberado após poucas horas. “Quando me soltaram, pensei: ‘agora estou marcado de vez'”.

A noite preta no Renascença Clube

O multiartista e empreendedor chamou a atenção do regime militar ao se firmar no bairro Andaraí, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e criar a Noite do Shaft no Clube Renascença. O lugar já era cultuado por bambas e apreciadores de samba, mas, a partir dali, passou a ser a casa da soul music. “A gente ficava dançando na pista sem saber, mas sentia que tudo aquilo podia ser hino de luta, de identidades”, relembra.

Dom Filó costumava ver até nas capas dos discos que chegavam de fora do país, além das revistas Ebony e Jet, um posicionamento que o fez mudar e remexer as estruturas e ampliar seus conhecimentos sobre o debate racial no Brasil.

Ao som de James Brown, Dom Filó ressignificou seu jeito de pensar ao ler sobre Martin Luther King, Malcolm X e James Baldwin, enquanto buscava compreender a luta dos Panteras Negras. O jeito de transmitir não podia ser outro. Espalhava a mensagem aos que fossem aos bailes espalhados pelos morros cariocas.

A Noite do Shaft foi uma espécie de ensaio para a criação das bandas Black Rio e Soul Grand Prix. Mais do que música, os conjuntos viraram movimentos de massa que refletiam a identidade negra através de roupas coloridas, sapatos, cortes de cabelo e criação artística.

A base veio forte

Filho de uma doméstica e de um mecânico, Dom Filó viu a vida mudar quando deixou o apartamento de um cômodo em Botafogo e foi morar no Jacarezinho, onde passou parte da infância e adolescência após o pai criar uma agência de automóveis.

Aos 18 anos, começou a cursar engenharia civil na Faculdade Gama Filho, a primeira opção de carreira para seguir com os desejos de melhorar a vida da família. O choque cultural foi uma constante durante os anos de graduação. Um dos três negros no ambiente universitário, ele era um corpo “diferente”.

Hippie, mas negro. De cabelos grandes, enrolados por barbantes. “Eu me dava bem com os brancos”, relembra, ao dizer que foi na presença deles que ouviu Beatles e Rolling Stones pela primeira vez. “Mas aquela não era a minha onda”, diz.

Na formatura, Dom Filó relembra o grito de liberdade ao pegar o canudo, tirar a beca e surgir trajado de branco, chapéu e punhos ao céu. “Radicalmente falando, estava preparado pela questão racial”, pontua.

Não tinha como deixar de estar na base. É o que cobro da juventude que hoje sai, adquire conhecimento, mas não volta”

Asfilófio de Oliveira Filho, o Dom Filó

Em campo para o jogo, seja ele qual for

Para fazer a amarração de tudo o que estava criando e ainda gostaria de criar, Dom Filó cursou marketing e administração no setor esportivo pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), no Rio, o que o levou a trabalhar em uma secretaria especial do Ministério do Esporte, comandada por Pelé entre 1995 e 1998.

Mas pode-se dizer que a cultura e o audiovisual foram o carro-chefe da sua jornada profissional. Na década de 1980, ele criou a Cultne, que hoje possui o maior acervo digital da cultura negra na América Latina, com imagens, documentos e áudios.

A realização da Cultne foi direcionada ancestralmente. Nos últimos 500 anos, ninguém havia se preocupado, enquanto comunidade, a contar a nossa história sem que fosse pela questão oral. A Cultne passa a ser quilombo digital, um griô que utiliza da tecnologia, não totalmente acessível a nós, a formar a tecnologia preta”

Asfilófio de Oliveira Filho, o Dom Filó

A plataforma já atua como produtora de TV e mantém um acervo, mas até o final deste ano será atualizada. A proposta é que seja um streaming, nos moldes de Netflix e a Amazom Prime, mas com produtos em que o negro esteja no centro. Cada produção da plataforma será associada a informações dos profissionais responsáveis por ela. A ideia é ampliar o conhecimento sobre a produção negra do país. “Na Cultne o protagonismo é negro, mas o conteúdo é diverso”, explica. “Aí o mercado entende que você fala a mesma língua que os [empresários] de fora.”

Enquanto busca formatos e jeitos para escrever o futuro, Dom Filó avalia os desafios do presente. “Nesse momento, enquanto falo com você, deve estar morrendo um jovem negro. É barra pesada”, diz. Ainda assim, acredita que é possível um mundo melhor. Lembra, por exemplo, que em sua infância os pais tinham medo de falar sobre racismo até mesmo dentro de casa.

Hoje as crianças acabam vivendo e discutindo [racismo] dentro das escolas. Meu neto de dez anos tem o discurso racial na ponta da língua”

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