terça-feira, outubro 4, 2022
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Diário de bordo: Minha experiência com a droga da Crackolândia

No início da semana prometemos apresentar uma série de artigos com o diário de bordo das minhas férias. O primeiro segue na íntegra com a abordagem da nossa triste realidade envolvendo as drogas.

Quando deixei Mossoró no dia 2 de novembro, Dia de Finados, a cidade contabilizava cerca de 170 homicídios, em sua maioria, motivados por alguma ligação com o uso ou tráfico de drogas. Distante de Mossoró, seria inevitável querer buscar parâmetros de comparação além dos nossos limites. Pelo noticiário regional e nacional a impressão que fica é a de que a difusão de drogas como o crack se configura como algo irreversível, mas infelizmente estamos bem à frente de muitas cidades situadas no Centro-Sul do país. Em Mossoró, nos deparamos com a figura do drogado como peça comum no nosso cenário urbano.

No “subúrbio do país”, eles circulam livremente nos mais diversificados ambientes travestidos de figuras bem familiares do nosso dia a dia. Sem limites, sem barreiras, sem distinções socioculturais. No Rio de Janeiro tive passagens diversificadas pelas zonas leste e sul.

Na zona sul é praticamente impossível localizar algum suspeito do uso de drogas. A estrutura dos metrôs conta com meios específicos para controle de pedintes e suspeitos. Nos pontos turísticos e imediações, o policiamento ostensivo e as equipes de ação social realizam varreduras que impedem a formação de qualquer cenário de maior risco. No Rio, os únicos sinais de vício e tráfico foram identificados na periferia. Em Turiaçu, me deparei com uma cena explícita de comercialização em plena via pública.

Assustado, indaguei a minha anfitriã se a cena era comum. Com ar de tranquilidade ela destacou ser algo atípico, apontou para o morro e destacou. “O mundo das drogas no Rio é sinônimo de morro. Eles não costumam “invadir” as comunidades. Apesar de não parecer, existem regras e elas são cumpridas”. As regras destacadas por Vaninha, negra de origem e residente na comunidade de Turiaçu há mais de 40 anos, se voltam para as leis impostas pelos chefes do tráfico. Roubar para consumir drogas é permitido desde que não quebre a tranquilidade das comunidades. Este cenário desperta a atenção da polícia que se configura como tormento nas duas ocasiões possíveis: combater o crime ou cobrar propina.

Para impedir este desencadeamento, os chefes do tráfico são rigorosos com as regras. A lei para quem gera problemas no morro ou comunidades vizinhas determina que o preço a ser pago pelo erro é a própria vida. É evidente que nem todos seguem à risca, mas os poucos que desobedecem movidos pela insana busca do prazer, assinam uma sentença de morte de fácil execução. Em meio a este cenário a população encontra-se dividida e muito desconfiada.

Durante minha passagem pelo Rio a polícia localizou o chefe do tráfico na Rocinha, o traficante Nem. As opiniões eram uníssonas na condenação do traficante. Nem mesmo a história de que entrou no crime para garantir um transplante de órgãos para o filho sensibilizou os cariocas. Em meio a uma desconfiança sem tamanho, sobravam críticas as seguidas exposições de policiais que reforçavam a tese de que a PM trabalhava com seriedade e não afeita ao suborno do tráfico.

 

Leia também – A Cracolândia em São Paulo: Ensaio sobre a barbárie

 

Pura balela. Este era o sentimento flagrante. Do Rio para Curitiba são apenas 70 minutos de avião. Mas a distância é suficiente para gerar uma grande lacuna com relação ao tema tráfico/consumo de drogas. Seu Gerôncio, taxista com mais de 20 anos de praça, deu a definição mais curta e objetiva. “Tem esse treco aqui, mas é mais na região metropolitana. Lá eles matam, roubam e morrem por droga”.

Em Curitiba, a realidade se assemelha a Mossoró. Quem não conhece a bela capital paranaense, a cidade mantém característica de grande centro. Marcada por uma rica arquitetura prioritariamente alemã e italiana a cidade parece limitada a áreas nobres, mas com um ar social tipicamente interiorano. A cidade passa um sentimento de desenvolvimento em contraste com o rústico e realmente fica difícil visualizar um cenário de guerra civil motivado pelas drogas em praticamente 90% da área urbana da grande capital. A experiência mais forte e chocante ficou para o final do artigo, mas ocorreu logo no terceiro dia de viagem.

Era madrugada do dia 5 de novembro. No retorno do show com o grupo Exaltasamba no Credicard Hall deixei fluir uma curiosidade alimentada há anos. Direcionei-me ao taxista Heleno, conterrâneo da cidade de Marcelino Vieira (RN) radicado há décadas na pauliceia desvairada e perguntei se ele sabia como funcionava a Crackolândia. Com aspecto de homem religioso, Heleno se mostrou indignado e definiu o local como um inferno na terra. “É um local onde eles se reúnem para fumar aquelas pedras. É de fazer pena. Em meio a eles têm aqueles que fingem ser iguais a eles, mas que na verdade estão lá apenas para lucrar”.

A explicação do taxista não foi suficiente para elucidar a curiosidade e então veio o “convite”. “Quer ir até lá? É perto daqui”. Não pensei duas vezes. Certifiquei-me sobre a segurança e ao receber a resposta de que não havia risco dei o aceno para seguir. A área da Crackolândia é bem próxima do Centro e está situada há poucos minutos da Avenida Paulista. É uma área de prédios antigos, alguns abandonados e outros em processo de revitalização a partir de um programa destinado a extinguir a Crackolândia. Conhecedor da área, o taxista começou a narrar detalhes da proximidade. “Eles sempre ficam por aqui. Sempre aos bandos.

Tomam a rua. Fica impossível seguir”. De repente passa um senhor com passos estranhos. Andar desarticulado. “Este é um deles. Eles se drogam até a morte”, destacou o taxista que seguia em meio às ruas na busca pela localização exata do grupo. “Às vezes a polícia aparece e dá um espalhada neles. Mas eles nunca somem, apenas se espalham”. Em meio às palavras do taxista era crescente a tensão gerada pela expectativa. De repente o silêncio é quebrado com apenas uma palavra “Achei”. Ao fundo de uma rua paralela o cenário se agigantava com a aproximação do veículo. Eram dezenas, centenas, milhares de pessoas maltrapilhas se debatendo.

Sem rumo, chocando-se contra as paredes. Uns contra os outros, dividindo cachimbos. Apalpando o solo na busca por resquícios invisíveis da droga, realidade que por mais detalhada que seja se torna impossível de ser descrita. Mais difícil do que descrever a cena sem maior dúvida o de externar o sentimento gerado pela cena. A princípio surge o natural medo ao se deparar em meio a milhares de zumbis. A cena mais fiel rememora o clip do clássico “Thriller”, de Michael Jackson. Ao perceber a tensão gerada pela cena o taxista Heleno fez questão de acalmar. “Não precisa ter medo. Eles não mexem. São uns pobres coitados”.

Com o medo controlado surgiram dois novos sentimentos integrados: vergonha e revolta. Como um ser humano consegue dormir após alimentar sua ganância com um cenário de degradação extrema daquelas pobres almas? Homens, mulheres, idosos, crianças, todos degradados ao limite de um vício que não se sacia nem tem fim. De repente um século de reflexão passa em poucos segundos. Inevitavelmente chocado, é hora de partir.

O carro desvia a rua ocupada pelos zumbis da Crackolândia. Uma mulher totalmente sem roupa conversa acocorada ao lado de um grupo que se protege contra o frio de 13 graus. Crianças circulam pelo grande pátio e parecem se esconder do veículo que se aproxima. Dois quarteirões após eis, que surge uma viatura da polícia e com ela o primeiro risco. “Se eles nos pararem falem que é turismo”. Veículos na Crackolândia pela madrugada é sinônimo de que o tráfico não dorme.

O sentimento de impunidade e injustiça é natural. Os policiais conversavam com uma tranquilidade de impressionar. Mas o que fazer? Após somar novas experiências e vivenciar novas realidades com relação ao tema foi possível obter uma única certeza. Estamos em meio a uma grande guerra com vítimas de toda ordem. A solução para o problema das drogas vai além da prisão, do policiamento, do controle social. A solução para este mal está aquém dos nossos limites racionais. Somente uma ação integrada, tendo como ponto de partida o seio familiar, a educação e o amor ao próximo, será capaz de garantir ao aparelho governamental uma chance mínima de nos livrar deste mal que transformará a terra numa sucursal personalizada do inferno. Que o conhecimento, a tecnologia e o amor possam gerar um antídoto para anular o efeito da ganância que avança sem limites sobre nós. Na próxima semana abordaremos a xenofobia, o Nordeste e a relação com o Centro-Sul.


Fonte: Jornal Omossorense

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