Discurso da Sra. Ministra de Estado da Cultura, Ana Buarque de Hollanda, no Terreiro do Axé do Opô Afonjá

Minhas amigas, meus amigos…

Quero dizer, antes de qualquer coisa, que é com emoção que estou pisando no chão desta casa.

Sinto-me honrada em ser recebida aqui, neste espaço sagrado do povo da Bahia.

E me sinto também muito feliz por estar inaugurando obras necessárias, nesta comunidade de santo, do povo de santo de Salvador, do povo de santo do Brasil.

Mas quero ser breve na minha fala. Mesmo porque este é o Centro Cruz Santa do Axé do Opô Afonjá. Esta é a casa de Xangô.

E Xangô, como todos vocês sabem, além de ser o orixá do trovão e da justiça, é também o deus da eloquência. Aprendemos, em seus orikis, que ele é o senhor do axé da palavra.

E não estaríamos reunidos aqui, hoje, se a força de Xangô não tivesse atravessado o Atlântico. Não tivesse vindo da África, das terras dos iorubás, do seu reino de Oió, para ser cultuada, cultivada e reinventada no Brasil.

Fala-se muito do caráter de resistência cultural que as religiões negras assumiram no Novo Mundo. E é mais do que certo.

Apesar de todas as proibições e de todas as perseguições, estas religiões sobreviveram. Sobreviveram e se afirmaram não apenas no terreno especificamente religioso. Mas no plano mais amplo da vida social e cultural de nossa gente.

Hoje, essas religiões já transcendem todas as barreiras. Todas as linhas cruéis que separam as pessoas. São religiões do povo brasileiro.

A própria configuração do terreiro de candomblé, como vocês sabem, é uma grande invenção brasileira.

Na África, os orixás eram cultuados separadamente, em suas terras de origem. Como Xangô, em Oió. Oxóssi, em Ketu. Iemanjá, em Abeokutá.

No Brasil, sob a pressão do escravismo, os diversos grupos iorubanos foram reunidos, agrupados. E, em resposta a isso, agruparam também os seus deuses, dando a forma do terreiro.

Como se costuma dizer, o terreiro é uma África em miniatura. Com a sua reserva vegetal, que representa a floresta. Com suas casas de santo, que remetem a antigas cidades e reinos do continente africano.

Hoje, perseguições policiais já não atormentam os terreiros. O processo de afirmação cultural foi vitorioso. Templos são tombados como jóias preciosas da memória brasileira. Iemanjá tomou conta de nossos litorais, reinando na festa do Ano Novo. Mães de santo são respeitadas e celebradas no país inteiro.

Mas, se as perseguições policiais acabaram, surgiram, também, outras ameaças. Entre elas, o crescimento caótico das cidades, que foi cercando os espaços sagrados e suprimindo as áreas verdes, onde se encontravam plantas indispensáveis ao culto religioso.

A expansão urbana desordenada e a especulação imobiliária são, hoje, grandes ameaças à integridade física das nossas casas de culto. E é por isso mesmo que elas precisam ser cuidadas, protegidas e defendidas.

Nesse sentido, o Ministério da Cultura está fazendo a sua parte, através do Iphan. Já são sete os terreiros hoje tombados no país. Estamos, aqui, para inaugurar obras nas casas de Oxalá e Iemanjá. Ao tempo em que estamos realizando obras, também, no Terreiro do Gantois. E isso é apenas o começo, porque há muitas coisas a serem feitas, no sentido da proteção e manutenção de nossos templos.

Mas existe, ainda, uma coisa mais recente e muito triste, que estamos todos na obrigação de combater e superar. É a intolerância religiosa. Não devemos permitir que ninguém, em lugar algum, em nome do que quer que seja, abra a boca para insultar e caluniar o candomblé.

Mas há ainda uma outra coisa, que nem sempre recebe o realce que merece. É que os terreiros, os templos religiosos de origem africana, constituem um capítulo fundamental e pouco estudado da história da afirmação da mulher no Brasil.

Costuma-se dizer que – nos tempos coloniais, imperiais e mesmo nos primeiros dias republicanos – as mulheres brasileiras foram as grandes ausentes. Mulheres pálidas, omissas e submissas, vivendo trancadas nos sobrados.

Mas esta é apenas uma meia verdade, aplicável somente a mulheres da elite. Porque as mulheres do povo levavam vidas bem diferentes. Estavam nas ruas, ao ar livre, na batalha cotidiana da sobrevivência.

Chegaram a se envolver em revoltas e conspirações, como Luíza Mahin. E tomaram a frente de iniciativas de altíssima importância cultural, como no exemplo das ialorixás que criaram terreiros de candomblé.

E aqui eu faço a minha mais profunda homenagem pessoal a Eugênia Ana dos Santos, Mãe Aninha, Obá Biyi, a fundadora desta casa. Como rendo minha homenagem a Senhora, Mãe Senhora. E àquela que, com brilho e força, assumiu toda esta herança histórica e cultural: Stella de Oxóssi, Odé Kayodé.

Muito obrigada.

Salvador, 11 de Fevereiro de 2011.

http://www.cultura.gov.br/site/2011/03/10/terreiro-do-axe-do-opo-afonja/

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