Do medo

“Não fica com medo não que o bicho sente!”, frase tão ouvida quando era menina e morria de medo de cachorro. Eu imaginava o medo saindo de mim como uma onda, se desprendendo como se fosse uma aura, quase visível, quase palpável, e o cachorro poderia tocá-la, entenderia meu pavor e se aproveitaria dele, avançaria em mim. Então eu fazia aquele esforço imenso para não demonstrar meu medo, pra não sair correndo. O medo continuava lá. Não sei como ele passou, afinal.

Medo é um dos sentimentos que move o mundo, que provoca mudanças em indivíduos e grupos inteiros. O medo determina tendências de consumo e de comportamento. O medo é negócio e é fonte de lucro. O mundo é cheio de gente que se alimenta de medo, em migalhas, colheradas, tonéis, barris, oceanos.

Aquele sujeito que mantém a esposa e as filhas reclusas em casa pode parecer muito corajoso, muito senhor de si, mas tem medo, sabe? Medo de que aquelas pessoas, exercendo sua individualidade e sua liberdade, saiam de debaixo de suas asas, ameacem sua posição de superioridade doméstica, coloquem-no em situação vexatória perante seus pares. O mesmo acontece com as pessoas que subjugam mulheres utilizando argumentos morais e religiosos: eles têm medo de não poder comandar, de não liderar, têm medo da contestação. A pessoa que estabelece uma relação abusiva tem medo não de perder aquela pessoa em si, mas de perder aquilo que a sujeição dela representa.

A pessoa que regula sua linguagem e seu comportamento sabe que cercear gestos e palavras é apagar a subjetividade e tolher liberdade e faz isso por ter medo de que, sendo livre, você a sobrepuje, a conteste, de que você a enfrente, a questione, de que a apague. A pessoa que critica sua roupa tem medo de que você chame atenção, de que você seja uma pessoa mais atrativa, de que você seja modelo e outros te sigam.

Quem critica sua liberdade sexual tem medo de que a onda da “liberação” e da “vulgaridade” modifique sua realidade, atinja as pessoas ao seu redor e as cative. Quem critica seu riso aberto ou seu sorriso fácil tem medo de sorrir, tem medo de deixar os demais sorrirem e teme comparações, teme uma possível desvantagem.

Os que criticam qualquer decisão sua relacionada ao uso do seu corpo temem o fato de que existem coisas nesse mundo que estão além de seu controle e de sua compreensão, mas que estão perfeitamente ao alcance de sua empatia, de seu respeito – e empatia e respeito exigem humildade. E o medo de abaixar o topete, como lidar?

Quem contesta sua liberdade de amar quem quiser e se unir a quem você quiser perto de si teme não o fato de que “os nossos filhos vão começar a ficar igual a essa gente e a família vai acabar”, mas teme na verdade ver seu mundo pré-construído, ancestral e confortável ser abalado, tem medo das mudanças, tem medo de não ter qualquer controle sobre as coisas dali em diante. E não sabe que controle é ilusão.

freedom

Declarações abertas de medo já foram motivo de estarrecimento e de piada porque escancaravam um temor que até então era expresso na tentativa desesperada de domínio e de controle de algumas pessoas por outras. Porque vocês sabem: não é sexo, não é dinheiro, é tudo sobre poder. O poder que se perde, o domínio que se esfacela, sobre pessoas, sobre corpos, sobre ideias, sobre atitudes.

Neste final de semana começaram a acontecer pelo país as Marchas das Vadias. Nesse terceiro ano renova-se a esperança de que o movimento todo angarie cada vez mais simpatia do que rejeição, e os comentários de sempre já estão esparramados por aí, exprimindo desconforto (opa, isso é muito bom!), incompreensão e nosso velho conhecido, o temor.

Vamos seguir em frente. Como me diziam os adultos, tentando me confortar na presença dos cães que me apavoravam, “calma, eles têm mais medo de você do que você dele”. Adiante todos os dias, vadi@s!

Por: Deh Capella

 

Fonte: Blogueiras Feministas

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