quarta-feira, outubro 27, 2021
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É agora, José! A fé da pedagoga Dagmar Garroux

Pedagoga completa três décadas de atividades em casa na periferia paulistana que se tornou referência de educação não formal

por Ieda Estergilda de Abreu, do  Rede Brasil Atual

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JESUS CARLOS/IMAGEMGLOBAL

Ela chega nos lugares já dizendo que gosta de contar histórias, e tem muitas, histórias da mais pura, dura e valiosa vida. São três décadas atuando como educadora na zona sul de São Paulo, entre os bairros Capão Redondo, Parque Santo Antônio e Jardim Ângela. Diz também que não cumpre missão. “Sou uma felizarda, adoro o que faço, vivo uma troca constante com crianças e jovens, o dia a dia é minha maior recompensa.”

Dagmar Rivieri Garroux é pedagoga, paulistana de Santo Amaro, 60 anos, fundadora da Casa do Zezinho, referência no Brasil de educação não formal, engajamento coletivo e perseverança. É mais conhecida como tia Dag. É calça jeans, tênis, camiseta. Em vez do espelho, o olhar procura o outro, sua vaidade é a busca pela educação. Sorriso e gestos largos de quem sabe por que e por quem está no mundo.

Os primeiros atendimentos a crianças foram feitos em 1993, mas a casa existe oficialmente desde março de 1994, quando foi fundada por Dagmar e o marido, o artista plástico Saulo Garroux, mais quatro amigas de faculdade da Universidade de São Paulo (USP), onde se formou. Inspirados nas lutas políticas da década de 1970, o grupo se dispôs “a trabalhar indignadamente para mudar o país pela educação”.  No primeiro dia, eram sete crianças. No segundo, 12. Hoje, 1.500.

Quando o marido voltou do exílio, juntamente com as colegas – também presas e exiladas –, eles resolveram comprar uma casa que pudesse ser um centro de educação, diversão e cultura. Foi aí que começou a Casa do Zezinho. Os imóveis onde a CZ funciona hoje têm 4 mil metros quadrados de área construída para atender crianças e jovens em situação de vulnerabilidade, risco social e baixa renda.

A história começa ainda em 1988, quando Dagmar e Saulo compraram uma casa no Capão Redondo, ainda um bairro tranquilo. “Começaram a roubar dentro da comunidade, vieram os grupos de extermínio (organizações clandestinas de policiais que matavam supostos bandidos), colavam nos postes o nome de quem ia morrer se não saísse da favela em sete dias”, conta Dagmar. “Matavam meninos que tinham roubado canetinhas! Não teve como não me envolver, passei a esconder crianças na minha casa, enfrentei denúncia de formação de quadrilha e visitas da polícia.”

d704fd6d-63a6-429e-99cc-5389e4ad4c95No início, todos eram voluntários e colocavam no projeto parte do que ganhavam em outras atividades. “Fazíamos bingo, rifa, bazares e oficinas de arte integrando a comunidade”, conta Dagmar. Com foco na cultura, mapearam a região para saber o que havia de bom, que o ruim já era notório. E foram descobrindo pessoas, como uma avó que tinha vindo do ­Ceará e ainda trabalhava com argila. Descobriram que todos queriam aprender datilografia, escrever, fazer pão. Um menino foi contando para outro o que acontecia no local, o espaço foi ficando pequeno. E toca a fazer puxadinho. “Fiz questão que essa casa fosse construída igual a uma favela, um labirinto de puxadinhos, um espaço muito parecido com o que eles têm como referência.”

Atualmente, a casa tem 80 funcionários e 32 voluntários, atende cerca de 1.500 crianças e jovens de 6 a 21 anos, que frequentam 67 escolas públicas da região. Quem consegue uma vaga (2 mil estão na fila de espera) desfruta de 17 oficinas como de música, teatro, informática, foto e vídeo, esportes, complementação escolar e até de gastronomia, além de quadra poliesportiva, piscina, refeitório, horta, atendimento de saúde.

O nome Zezinho tem como inspiração um dos mais conhecidos poemas de Carlos Drummond de Andrade, José. “José, o cara que construiu São Paulo, que não teve direito de entrar no prédio que construiu, um Zé mané, um Zé ninguém”, diz Dagmar. “Mudei a pergunta pra exclamação: É agora, José! E fizemos um rap legal: ‘É agora, José,  a noite apareceu, a festa começou, o povo esquentou…’  Mudamos a poesia do Drummond, ele deve estar se revirando… Mas feliz”.

O nome também tem a ver com a proposta político-pedagógica da ONG, voltada para a assistência social. “O objetivo maior é fazê-los serem um Zé que é alguém na vida, que superem as limitações impostas pelo meio em que vivem, conquistando autonomia de pensamento e de ação.“

Já faz tempo que seu nome de batismo foi trocado pelo tratamento afetivo, é Tia Dag o dia inteiro e para todos, seja empresário, artista, criança, jovem ou velho. Ela já nem se importa com as críticas ao apelido. “Sou a favor do afeto, sou mãe, tia de todo mundo, a gente mora no mesmo planeta, somos todos parentes.” O filho Alessandro, 37 anos, desde pequeno compartilhou a mãe com muitas outras crianças. “Ele sempre esteve do meu lado, apoiando meu trabalho, com muito amor, hoje é um grande conselheiro.”
Dagmar usa a indignação e o questionamento como ferramentas. “O que está acontecendo com o mundo? Não olhamos mais pra ninguém, só pra nós mesmos!” Ela questiona escolas públicas que obrigam o aluno a colocar uma cinta dentro da mochila para lembrar que se aprontar vai levar uma surra quando chegar em casa. “Por que ele desiste da escola? Porque fica lá oito anos e sai semianalfabeto,  e porque nossas escolas são feias, têm grades, ainda se toca o sinal, todos sentam em fila, um olhando a nuca do outro.  Nós não tocamos sinal nem apito, trabalhamos em roda, brincando, pelo prazer de aprender e ensinar.”

Usa também a diversidade de cores, culturas e sonhos da periferia com que aprende sempre. Disso tudo extrai a Pedagogia do Arco-Íris, que se dá em sete estágios, cada um representando uma cor. A base é o desenvolvimento da autonomia de pensamento e ação a partir de quatro pilares da educação: ser (espiritualidade), conhecer (ciências), saber (filosofia) e fazer (arte). “Nossos educadores são convidados a usar os cinco sentidos, principalmente a audição. É preciso escutar esses meninos para depois tentar uma mediação.” O desafio é como tornar a escola interessante, “principalmente para crianças que já não sonham, que cedo precisam trabalhar, ganhar dinheiro, engravidam. É lembrá-las que já tiveram sonhos”.

Cicatrizes na alma

Seguidora de Paulo Freire, Dagmar busca colocar em prática os ideais do educador, que conheceu quando ele voltou do exílio, em 1980. Passou a acompanhar seus cursos e palestras e absorveu toda a paixão do mestre. O sucesso da pedagogia cabe 60% aos educadores, “ex Zezinhos” que conhecem na pele as dificuldades enfrentadas pelos jovens. “Eles chegam com cicatrizes na alma, falando quase nada, muitos verbos no imperativo e frases agressivas.”

Em apenas um momento, em 2002, Dagmar se ausentou da casa. “Um menino invadiu o sítio onde morávamos, em Itapecerica da Serra, meu pai reagiu e levou três tiros. Foi um baque. ‘Desaluguei’ o sítio e fiquei um mês sem aparecer na CZ. Um dia, uma criança me ligou: Tia Dag, você tá muito triste, né? Se a gente for lá na Febem e mandar matar o cara que matou seu pai, você volta? Deu um frio na barriga. Meu pai morreu defendendo aquilo em que acreditava, que era a família dele. Então, vou morrer em pé. Aí voltei como uma louca, como uma energia sem fim.”

A ONG está sempre em contato com a escola e as famílias dos alunos, visita, faz reuniões, monitora o desempenho em sala de aula. “A gente sabe que educar para o mundo, para a realidade, não é uma tarefa fácil, envolve uma porção de coisas que a escola não tem dado conta.”

Aos 60 anos, Dagmar, com uma lista de ideias e projetos, mostra que não pensa em parar tão cedo. Acredita que tudo pode ser feito, de verdade, por isso resolveu ser ponte para eliminar os guetos, cruzar os rios de São Paulo que viraram muros de Berlim separando pobres e ricos. “Ainda tenho muito o que fazer como educadora.” A princípio, ela gostaria que houvesse uma casa em cada esquina de São Paulo, do Brasil e do mundo. “Mas pensando bem, meu sonho mesmo é não precisar mais de Casa do Zezinho.”

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