ECA-USP adota cotas raciais

Enviado por / FonteNo Alma Preta

Cursos como jornalismo e editoração vão receber estudantes cotistas em 2017

Texto: Pedro Borges / Imagem: Moska Santana / Infográfico: Solon Neto

Os cursos de jornalismo e editoração terão cotas raciais para o vestibular de 2017 da Universidade de São Paulo (USP). A decisão foi tomada em reunião do Conselho do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicação e Artes (ECA) no dia 1 de junho.

A reitoria da universidade encaminhou às unidades e aos departamentos a possibilidade de até 30% das vagas serem preenchidas via Sistema de Seleção Unificada (SiSU). O mecanismo é o responsável por selecionar os concorrentes inscritos no ENEM.

O Departamento de Jornalismo e Editoração decidiu por adotar os 30% de vagas permitidas pela reitoria. 90% destas, ou seja, 27% dos ingressantes nos cursos em 2017 serão provenientes de escolas públicas. Pouco menos da metade dos 30%, o que representa 13,5% das vagas de cada uma das duas carreiras na USP, serão destinadas para negros e indígenas. As universidades estaduais paulistas têm uma meta estabelecida pelo governo estadual de chegarem até 2018 com 50% de alunos oriundos de escolas públicas e, destes, 35% de pretos, pardos e/ou indígenas.

Os cursos com provas de habilitação específica, como as carreiras de artes, não podem adotar o SiSU, segundo a reitoria. Isso era imposto à toda a ECA, o que impossibilitava a adoção pontual desses mecanismos inclusivos de seleção na área de comunicação. A oportunidade das decisões serem tomadas nos diferentes departamentos foi a possibilidade do jornalismo e a da editoração adotarem essa postura pioneira na USP. A tendência é que outros cursos tomem a mesma medida, como o de Educomunicação.

O professor Dennis de Oliveira, chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração e militante da Rede Quilombação, foi um dos responsáveis pela mudança e ressalta a sua importância no campo da comunicação. “Se nós partimos do pressuposto que vivemos em uma sociedade midiatizada, o racismo midiático tem um papel fundamental na cristalização do racismo estrutural. Nossas pesquisas mostram que o negro é invisibilizado, minorizado, difamado esteticamente e objetificado nas narrativas midiáticas”. Para ele, a medida também é necessária dentro da editoração. “É fundamental termos profissionais nesta área uma vez que a literatura negra que sobrevive heroicamente graças à tenacidade de escritores afrodescendentes terá um apoio muito maior”.

Dennis espera que outros cursos adotem a mesma postura e ressalta que a medida é apenas mais uma etapa para a maior inclusão de negros no ensino público superior. “A nossa luta é mais ampla, é para que as cotas raciais sejam instituídas em todo o sistema de seleção da USP e não apenas nas vagas do SiSU. Por isto, considero esta medida apenas um primeiro passo”.

Histórico de luta por cotas

O professor Dennis de Oliveira recorda o histórico de lutas para que a USP, assim como as demais universidades paulistas, adotasse a política de cotas. O enfrentamento que começou nos anos de 1990 com Fernando Conceição, um dos criadores do Núcleo de Consciência Negra da USP, ganhou corpo a partir dos anos 2000, quando o Brasil assinou tratados internacionais na conferência de Durban, África do Sul, comprometendo-se a adotar políticas de combate ao racismo.

Em 2003, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) adota o sistema de cotas, medida também incorporada na sequência pela Universidade de Brasília, UnB. Em 2012, o governo Dilma Rousseff adota as cotas como lei, fator que resulta na sua implementação nas universidades federais.

COTAS

Neste mesmo período, 2012, o governo Geraldo Alckmin lança o Programa de Inclusão por Mérito no Ensino Superior Público Paulista (PIMESP). A proposta era criar um curso preparatório de dois anos a distância para avaliar o desempenho de alunos cotistas e assim decidir ou não pelo seu ingresso em uma das universidades estaduais.

Dennis recorda que, apesar de parte do movimento negro da época aceitar dialogar sobre o tema, houve grande rejeição à proposta. “Fizemos um ato grande na Câmara Municipal de São Paulo em fevereiro de 2013 no mesmo dia em que o governo estadual chamou o movimento negro para negociar o Pimesp – poucas entidades apostaram na negociação”.

O professor destaca a dificuldade das cotas nas estaduais paulistas devido ao reconhecimento internacional de qualidade de pesquisa e inovação tecnológica. Para ele, além do fato do estado de São Paulo ser governado por forças conservadoras há décadas, o movimento negro não compreendeu a importância e as singularidades da luta pelas cotas raciais. “Não se trata apenas de abrir oportunidades para jovens negras e negros ingressarem em universidades de ponta, mas, fundamentalmente, de intervir em espaços que formam os quadros que ocupam os espaços de poder. Quase todos os principais editores e publishers dos grandes meios de comunicação brasileiros vieram da USP. As principais inovações tecnológicas, científicas, quadros das áreas de ciências exatas, humanas e da saúde saem destas universidades. Por isto, cotas na USP, Unicamp e Unesp são estratégicas. E não é a toa que a resistência é maior”.

As cotas são uma das principais pautas dos coletivos negros dentro das universidades. Mais do que atos e debates, a pressão das organizações estudantis negras foram fundamentais para colocar o debate na agenda do ensino superior no país. A UNESP foi a primeira a sair na frente com as cotas dentre as universidades paulistas, em 2014. Já a USP insistiu no seu sistema de bônus e de dois anos para cá tem implantado este sistema de reserva de vagas via SiSU. A USP ainda resiste em colocar cotas no sistema do vestibular da Fuvest.

+ sobre o tema

Programa Erasmus oferece bolsas integrais na Europa

O Erasmus, programa promovido pela União Europeia para fomento a...

Projeto SETA tem novo financiador e amplia trabalho aprofundando olhar interseccional

O Projeto SETA (Sistema de Educação por uma Transformação Antirracista),...

CNU: governo decide adiar ‘Enem dos Concursos’ em todo país por causa de chuvas no RS

O governo federal decidiu adiar a realização das provas...

Geledés participa do I Colóquio Iberoamericano sobre política e gestão educacional

O Colóquio constou da programação do XXXI Simpósio Brasileiro...

para lembrar

Fuvest divulga calendário para o vestibular 2023; veja datas e livros obrigatórios

A Fuvest anunciou nesta segunda-feira (25) o calendário de realização das...

Unicamp abre inscrições para Vestibular Indígena e na modalidade com 639 vagas diretas pelo Enem

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) abriu nesta terça-feira (1) as inscrições...
spot_imgspot_img

Inscrições para ingresso de pessoas acima de 60 anos na UnB segue até 15 de maio; saiba como participar

Estão abertas as inscrições do Processo Seletivo para Pessoas Idosas que desejam ingressar nos cursos de graduação da Universidade de Brasília (UnB) no período...

Programa Erasmus oferece bolsas integrais na Europa

O Erasmus, programa promovido pela União Europeia para fomento a educação, formação, apoio a juventude e esportes, está com inscrições abertas para a edição 2024/25...

Projeto SETA tem novo financiador e amplia trabalho aprofundando olhar interseccional

O Projeto SETA (Sistema de Educação por uma Transformação Antirracista), que atua em coalizão por meio da realização de pesquisas, incidência política, formações e campanhas...
-+=