Em Bonn, Geledés articula agenda por justiça racial e climática rumo à COP31

17/06/26
Por Kátia Mello [email protected]
Durante evento paralelo na Conferência de Bonn (SB64), lideranças negras, indígenas, quilombolas, representantes governamentais e negociadores internacionais defendem a incorporação da justiça racial nas políticas climáticas globais

A emergência climática tem evidenciado uma realidade para além do aumento das temperaturas globais, da intensificação de eventos extremos e da degradação dos ecossistemas. Em diferentes regiões do planeta, os impactos da crise recaem de maneira desigual sobre os grupos historicamente marginalizados, revelando como raça, território, gênero e condição socioeconômica seguem impactando o acesso à proteção, à infraestrutura e às oportunidades de adaptação. Foi a partir dessa perspectiva que representantes governamentais, lideranças negras, indígenas, quilombolas e negociadores internacionais participaram do evento “Racismo Ambiental e Justiça Climática: desigualdades estruturais na governança e na implementação climática”, promovido no dia 12 de junho por Geledés – Instituto da Mulher Negra, Engajamundo e Instituto de Estudos da Religião, com o apoio do Instituto Socioambiental e a Conectas Direitos Humanos, durante a Conferência de Bonn 2026 (SB64), realizada entre 8 e 18 de junho no World Conference Center Bonn, na Alemanha.

A reunião dos Órgãos Subsidiários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) é considerada uma das etapas mais relevantes do calendário climático internacional. Responsável por avançar discussões técnicas e políticas que orientam as negociações multilaterais, o encontro deste ano esteve voltado à implementação dos compromissos já assumidos pelos países e à definição dos caminhos que deverão conduzir as discussões rumo à COP31. Inserido nessa agenda, o evento organizado por Geledés trouxe o debate sobre a necessidade de incorporar a racismo ambiental como um elemento estruturante das respostas à crise climática.

Estiveram neste encontro Carolina von der Weid, diretora do Departamento de Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores do Brasil; Thaynah Gutierrez, assessora de Clima e Racismo Ambiental de Geledés; Kátia Penha, coordenadora da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq); Taily Terena, antropóloga, cientista social e ativista climática indígena do povo Terena; e Sarah Pima, representante do Grupo de Negociadores Africanos (AGN) e diretora-executiva da Human Dignity and Environmental Care Foundation (HUDEFO). A mediação ficou a cargo de Lígia Cerqueira, assessora de Relações Internacionais do Instituto de Estudos da Religião (ISER).

Em sua fala de abertura, Lígia Cerqueira apresentou resultados de duas pesquisas que ajudam a dimensionar a invisibilidade das populações afrodescendentes nos debates ambientais globais. O primeiro estudo foi “Cristianismos e Narrativas Climáticas”, realizado pelo ISER em 2024, que ouviu 663 moradores de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, majoritariamente negros e residentes de regiões periféricas, identificando amplo apoio à discussão de temas socioambientais em espaços religiosos. Cerqueira mencionou também a pesquisa “A raça e o gênero da justiça climática: mapeando desigualdades na normativa global”, desenvolvida por Geledés em parceria com o Centro de Pesquisa Aplicada em Direito e Justiça Racial da FGV Direito (SP), que analisou 125 documentos produzidos por organismos multilaterais entre 1992 e 2025, incluindo a ONU, a UNFCCC, o IPCC, o Conselho de Direitos Humanos, o G20 e o BRICS. Como bem explicou, este último levantamento revelou que apenas 23% desses instrumentos fazem referência explícita às populações afrodescendentes. Para a mediadora, esses dados revelam que a agenda climática permanece incompleta quando não incorpora a dimensão racial como elemento central da formulação de políticas públicas e da governança internacional.

Representando o governo brasileiro, Carolina von der Weid destacou que a posição do Brasil nesse debate decorre de características históricas e demográficas singulares. Além de abrigar a maior diáspora africana do mundo, o país reúne centenas de povos indígenas e uma diversidade de comunidades tradicionais cujas experiências revelam os múltiplos impactos das transformações ambientais. “O Brasil tem uma posição bastante única nesse debate internacional, porque a gente abriga a maior diáspora africana mundial. Ao mesmo tempo, o Brasil tem mais de 400 povos indígenas e uma quantidade de comunidades locais com suas especificidades que é sem paralelo em termos internacionais”, afirmou.

Segundo a diretora do Departamento de Meio Ambiente do Itamaraty, o enfrentamento da emergência climática exige reconhecer que seus efeitos não se distribuem de maneira uniforme. Por essa razão, as políticas concebidas a partir de abordagens genéricas tendem a reproduzir desigualdades já existentes. “Se a crise climática é, sim, uma crise de emergência, ela atinge de forma diferenciada as populações. Para que você consiga desenhar políticas públicas e regras internacionais de forma eficiente, você não pode ter uma regra única, porque já parte de uma premissa de assimetrias”, observou ela.

Von der Weid ressaltou ainda que o governo brasileiro tem buscado aproximar a agenda climática das discussões sobre igualdade racial, destacando iniciativas recentes como a incorporação do ODS 18 — voltado à igualdade étnico-racial — e a formulação da Declaração de Belém sobre Combate ao Racismo Ambiental. Em sua avaliação, a construção de respostas efetivas à crise climática depende do reconhecimento dos processos históricos que produziram exclusão, vulnerabilidade e desigualdade. “Justiça climática só existe no momento em que você tem justiça racial”, disse.

A assessora de Clima e Racismo Ambiental de Geledés, Thaynah Gutierrez, durante sua fala- Foto: Mariana Belmont

A intervenção de Thaynah Gutierrez situou o debate sobre racismo ambiental dentro de uma trajetória histórica mais ampla de enfrentamento às desigualdades raciais. A assessora de Clima e Racismo Ambiental de Geledés argumentou que a emergência climática não pode ser dissociada dos legados do colonialismo e da escravização, que moldaram a distribuição desigual de direitos, recursos e oportunidades em diferentes partes do mundo. Ao recuperar a herança política da Conferência Mundial contra o Racismo, realizada em Durban em 2001, ela defendeu que os compromissos internacionais assumidos no combate à discriminação racial precisam ser incorporados às agendas ambientais e climáticas. “A minha geração, que hoje tem a oportunidade de estar nesses espaços continuando a luta, tem como missão aproveitar o legado do Plano de Ação de Durban garantindo que ele seja visto em todas as suas dimensões, inclusive a partir das agendas ambientais e climáticas.”

Para Gutierrez, a crise climática atua como um fator que aprofunda as vulnerabilidades já existentes, atingindo de maneira mais severa as populações historicamente excluídas dos processos de desenvolvimento e dos espaços de decisão. Nesse sentido, ela rejeitou a ideia de que os impactos ambientais sejam neutros ou universais, frisando que raça, gênero, território e condição socioeconômica impactam mais quem está mais exposto aos riscos climáticos e quem tem menos acesso aos mecanismos de proteção. “A crise climática não é neutra, ela tem cor, raça, etnia, gênero e território.”

A representante de Geledés destacou ainda que essa leitura não é recente. Segundo ela, organizações de mulheres negras vêm há décadas denunciando a relação entre racismo, desigualdade territorial e degradação ambiental, muito antes de esses temas obterem espaço nas negociações multilaterais. Para ela, iniciativas como as Marchas das Mulheres Negras contribuíram para ampliar a visibilidade internacional de pautas que articulam justiça climática, soberania alimentar, direitos coletivos e bem viver. Ao mesmo tempo, Gutierrez reconheceu que houve avanços relevantes nos últimos anos, como o reconhecimento das populações afrodescendentes na COP16 da Biodiversidade, a crescente presença do tema nas negociações climáticas e a incorporação da justiça climática e do combate ao racismo em instrumentos normativos brasileiros.

Apesar desse cenário mais favorável, Gutierrez alertou que o reconhecimento político, por si só, não é suficiente para alterar as desigualdades estruturais. Em sua avaliação, o enfrentamento do racismo ambiental exige que essa perspectiva passe a orientar efetivamente a formulação de políticas públicas, os mecanismos de adaptação e a distribuição de recursos climáticos. “Primeiro, integrar o racismo ambiental como lente analítica nos Planos Nacionais de Adaptação, nas NDCs e nas estratégias de longo prazo, não como cláusula de preâmbulo, mas como critério de priorização e alocação de recursos.” A assessora de Geledés também defendeu a ampliação da participação de grupos marginalizados nos espaços de governança climática. “É preciso garantir que as vozes de mulheres afrodescendentes e lideranças tradicionais e locais sejam incluídas estruturalmente nos órgãos técnicos, delegações nacionais e mecanismos de mitigação, adaptação, transição justa e perdas e danos.”

Ao concluir, Gutierrez argumentou que a próxima etapa da agenda climática internacional precisa ser marcada pela implementação concreta dos compromissos já assumidos pelos governos e organismos multilaterais. Nesse contexto, atribuiu papel estratégico à Declaração de Belém sobre Combate ao Racismo Ambiental, defendendo que ela seja tratada como um instrumento orientador das futuras políticas climáticas. “Tratar a Declaração de Belém não como encerramento simbólico, mas como mandato político, traduzindo seus compromissos em ações concretas e articuladas com outras convenções internacionais.” Para a representante de Geledés, o êxito desse processo dependerá da capacidade de transformar reconhecimento em reparação e participação em poder efetivo. “O próximo passo é transformar o conteúdo político da Declaração de Belém em ações que posicionem o racismo ambiental como eixo central de uma agenda efetivamente mais justa, inclusiva e transformadora. Mais do que nunca é tempo de reparação.”

A realidade enfrentada pelas comunidades quilombolas foi desenhada por Kátia Penha. A coordenadora da Conaq descreveu como as secas prolongadas, as mudanças nos regimes de chuva, a insegurança alimentar e as dificuldades de acesso à água impactam o cotidiano de inúmeros territórios tradicionais em diferentes regiões do Brasil. Para ela, esses impactos são ainda mais severos quando associados à ausência de regularização fundiária e à insuficiência de políticas públicas voltadas à proteção das comunidades quilombolas.

Penha argumentou que a adaptação climática não pode estar dissociada da garantia dos direitos territoriais. Segundo a coordenadora da Conaq, proteger os territórios quilombolas significa fortalecer formas históricas de manejo sustentável dos recursos naturais e preservar conhecimentos fundamentais para a construção de respostas mais eficazes diante da emergência ambiental.

A necessidade de democratizar os processos decisórios foi retomada por Taily Terena. A antropóloga e ativista climática indígena destacou que a crescente presença de povos indígenas, jovens periféricos e representantes de comunidades tradicionais em espaços multilaterais ainda não se traduz, necessariamente, em influência efetiva sobre as decisões adotadas pelos governos. “Não estejam presentes apenas nos espaços da sociedade civil, mas estejam incluídas estruturalmente e formalmente nos órgãos técnicos, nas delegações nacionais e na formulação dos mecanismos de mitigação, transição justa, adaptação, perdas e danos.”

Para Terena, superar a participação meramente simbólica exige remover barreiras financeiras, institucionais e políticas que dificultam a presença desses grupos nos processos de negociação internacional. A ativista climática indígena também alertou para a necessidade de serem reconhecidos os saberes dos povos originários e comunidades tradicionais como contribuições indispensáveis para a formulação de políticas climáticas. “Mais do que nunca, o contexto geopolítico pede estratégia e priorização. E é justamente por essa razão que escolhemos priorizar as vidas de quem sempre esteve colocado de maneira descartável pelas políticas públicas e pelos impactos socioambientais e climáticos.”

A perspectiva internacional do debate foi apresentada por Sarah Pima. A representante do Grupo de Negociadores Africanos observou que os desafios enfrentados pelos países africanos evidenciam as desigualdades que ainda caracterizam a governança climática global. Embora contribuam relativamente pouco para as emissões históricas de gases de efeito estufa, muitos desses países enfrentam impactos particularmente severos e continuam enfrentando obstáculos para acessar financiamento, tecnologia e apoio institucional. “A mudança climática não é apenas uma crise ambiental, mas também uma crise de justiça”, afirmou.

De acordo com Pima, a persistência dessas assimetrias demonstra que os mecanismos internacionais ainda reproduzem relações históricas de poder entre Norte e Sul Global. “Precisamos de poder, precisamos de espaço na decisão, precisamos de espaço de engajamento e precisamos de financiamento.” Para a diretora-executiva da HUDEFO, uma transformação efetiva da governança climática internacional depende não apenas da redução das emissões, mas também da diminuição das desigualdades que condicionam a capacidade de resposta dos países e das populações mais vulneráveis. “O sucesso não pode ser medido apenas por emissões reduzidas, mas por desigualdades reduzidas.”

Ao longo do encontro, houve uma convergência de avaliação: a crise climática representa um teste para a capacidade das instituições nacionais e internacionais de enfrentar estruturas de exclusão profundamente enraizadas. Nesse sentido, a construção de uma governança climática verdadeiramente democrática dependerá da incorporação da justiça racial como elemento central das decisões que definirão o futuro do planeta.

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