Era piada? A dançarina negra que não gostou de ouvir que tem “cabelo vassoura de bruxa”

por : Marcos Sacramento

Em seu programa, o apresentador Fausto Silva soltou um comentário racista ao falar de uma das dançarinas da cantora Anitta. Ele relembrava uma declaração que a dançarina Arielle Macedo fez durante o quadro Arquivo Confidencial, no ano passado, quando disse “Arielle com cabelo vassoura de bruxa”.

O comentário de Faustão é típico do racismo predominante no Brasil: travestido de piada e dentro de um contexto cordial, bem humorado. Não causaria comoção algumas décadas atrás, quando Luiz Caldas lançava a sua “Fricote”, dos versos “nega do cabelo duro, que não gosta de pentear”, e negros na TV só apareciam nos clipes da recém-nascida axé music ou em papéis de bandidos ou escravos.

Só que o mundo está mudando e o Brasil, lentamente, também. Entre o lançamento de “Fricote” e a fala do Faustão, os Estados Unidos elegeram Obama, Lewis Hamilton foi campeão mundial de Fórmula 1, a atriz Lupita Nyong’o emprestou sua beleza para divulgar os produtos da Lancôme e, bem ou mal, Joaquim Barbosa virou presidente do STF.

Bailarina e coreógrafa, Arielle é negra e usa seus cabelos naturalmente crespos. Em um episódio da websérie “Faça: dança”, produzida pelo Multishow, Arielle conta que o estilo do cabelo foi influência da mãe.

Na sua página do facebook, a dançarina disse ter se ofendido e que é normal ouvir comentários parecidos com o do Faustão.

“Sobre o episódio do Faustão de ontem… fico muito feliz pelo carinho e por de alguma forma vcs me defenderem! Se me ofendi… claro, na hora sim! Mas apelidos é o q mais recebo por aí na rua. Só que eu tenho a minha forma de me manifestar quanto a isso. O cabelo é meu, a vida é minha e me acho linda, e isso é o mais importante! Não me deixo oprimir por nada e nem opinião de ninguém! E se vc se sente bem com isso é assim q deve agir. Enquanto isso estou andando por aí com meu “cabelo de vassoura de bruxa” que eu amo. E que me desculpem as pessoas normais oprimidas pela sociedade. É, eu não sou normal! O racismo sempre vai existir ele se fortifica quando nos sentimos ofendidos . Se estou bem e certa de que eu sou, dana-se a opinião dos outros! Apenas intensificarei minha água oxigenada! Aceita que dói menos!”

O desabafo foi retirado da página algumas horas depois.

Se Arielle, que é linda e está conquistando fama e sucesso na carreira artística ouve críticas por se recusar a aderir à estética eurocêntrica, imagine como é o dia-a-dia das negras anônimas que só querem poder usar o cabelo que a natureza lhes deu?

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Sobre o Autor

Marcos Sacramento, capixaba de Vitória, é jornalista. Goleiro mediano no tempo da faculdade, só piorou desde então. Orgulha-se de não saber bater pandeiro nem palmas para programas de TV ruins.

 

Fonte: DCM 

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