sábado, fevereiro 4, 2023
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Escondidinho gaúcho – Por Fernanda Pompeu

O clichê – imagem repetida até dar náusea – acaba roubando a alma do objeto ou do sujeito que quer mostrar. Assim, o Rio de Janeiro é Copacabana, Ipanema, Arcos da Lapa. Já os bairros Realengo, Tijuca, Todos os Santos ficam nos bastidores. São trancafiados numa espécie de reserva técnica de imagens.

Com Sampa ocorre igual. Seu clichê é a Avenida Paulista, as marginais, a Praça da Sé. Outros encantos e desencantos raramente aparecem. Será que a culpa pela reprodução de clichês é da preguiça? Ou existe alguma lógica em mostrar sempre o de sempre?
Faz alguns anos viajei a Porto Alegre. Fui entrevistar Elaine Soares, ativista do movimento de mulheres negras. Ela me contou que a população gaúcha tem mais negros do que o clichê contabiliza. Daí recordei que Luiza Bairros, titular da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, é gaúcha.

Bem como o gaúcho Oliveira Silveira (1941-2009), poeta e um dos criadores do 20 de Novembro – Dia Nacional da Consciência Negra. Dois exemplos que desafiam a representação da sulista e do sulista tão branquinhos.

Também sou filha de uma gaúcha. Apesar de minha mãe ter se mudado para o Rio de Janeiro com cinco anos – portanto uma carioca de criação – até hoje ela morre de orgulho da origem. Antes de eu viajar, ela escreveu num guardanapo o endereço da rua da sua infância.
Rua Botafogo. Coincidentemente o nome do bairro carioca onde nasci. Lá fui eu atrás da memória materna no bairro Menino de Deus. Fiquei admirando as casas e, claro, imaginando minha mãe criancinha pedalando um velocípede.

Foi então que tive mais uma surpresa fora do clichê. Li numa placa pregada num poste a biografia do Botafogo. Até então acreditava ser o nome comum de um bairro e de um time de futebol, no qual brilharam Garrincha e Heleno de Freitas. E quem foi o Botafogo?
Um português de nome João Pereira de Sousa. Recrutado por Estácio de Sá para pilhar o Rio de Janeiro dos índios e dos franceses. O luso era artilheiro de canhão. De tanto fogo que cuspiu, ganhou o apelido de Botafogo. Divertido saber disso em Porto Alegre.

 

 

Fonte: Yahoo 

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