Eu e o Outro: o perigo da história única, por Juliana Sada

Quando criança, a escritora nigeriana Chimamanda Adichie convivia com Fide, um menino que trabalhava para sua família. Tudo o que ela sabia sobre ele é que sua família era muito pobre. Diante de qualquer desperdício, a mãe de Chimamanda chamava sua atenção: “termine sua comida! Você não sabe que pessoas como a família de Fide não tem nada?”. Ela só conseguia sentir pena dele.

Por Juliana Sada, do Centro de Referências em Educação Integral

Getty Images

Um dia, Chimamanda e sua família foram visitar a aldeia de Fide. A pequena garota ficou surpresa ao ver um cesto que o irmão do garoto havia feito. “Nunca havia pensado que alguém em sua família pudesse realmente criar alguma coisa”, relata. “Tudo o que eu tinha ouvido sobre eles era como eram pobres, assim havia se tornado impossível para mim vê-los como alguma coisa além de pobres. Sua pobreza era minha história única sobre eles.”

 

Pegar toda a complexidade de uma pessoa e de seu contexto e reduzi-los a um só aspecto é o que Chimamanda chama de o perigo da história única. Como uma estudante nigeriana em uma universidade nos Estados Unidos, ela vivenciou com frequência isso. A imagem do continente africano como lugar de guerras e fome se refletiu na imagem que tinham dela. De sua colega de quarto, Chimamanda escutou questionamentos sobre sua capacidade de falar inglês ou de operar um fogão e dúvidas sobre a “música tribal” que ela escutava. “Nessa única história não havia possibilidade de os africanos serem iguais a ela, de jeito nenhum.”

A história única também recaiu sobre seu trabalho literário, criticado por não ser “autenticamente africano” já que seus personagens dirigiam carros, não passavam fome e tinham coisas em comum com os americanos. Esta diferenciação entre o eu e o Outro, segundo a autora, é uma das graves consequências da história única. “Ela rouba das pessoas sua dignidade. Faz o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada difícil. Enfatiza como nós somos diferentes, ao invés de como somos semelhantes.”

Chimamanda também aponta a história única como fonte dos estereótipos: “mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que eles se tornarão”. Para a escritora, “poder é a habilidade de não só contar a história de uma outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa”.

Povos ou indivíduos são complexos e formados por múltiplos aspectos; dar conta de perceber e compreender essa diversidade é tarefa árdua. Para a educação, especialmente na concepção de educação integral, o desafio é desenvolvimento da capacidade de olhar para o outro e tentar compreendê-lo, para além de ideias pré-concebidas. Para o professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, Miguel Arroyo, o desafio da educação é desenvolver as múltiplas dimensões do indivíduo. “O ser humano é um sujeito integral, enquanto sujeito de conhecimento, de cultura, de valores, de ética, de identidade, de memória e de imaginação e a educação integral tem que dar conta de todas essas dimensões do ser humano.”Se Chimamanda traz tanta atenção aos perigos da história única, ela ressalta o poder das histórias. “Histórias tem sido usadas para expropriar e tornar malígno. Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar”, pondera. “Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida.”

Clique aqui para ver o video do workshop.

 

 

Leia Também: Chimamanda Adichie – Os perigos de uma história única

 

Fonte: GGN

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