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Eu, Leitora: “Fui barrada dentro da Assembleia Legislativa por racismo institucional”, diz deputada

Cientista social, ativista dos movimentos sociais e pastora evangélica, a carioca Mônica Francisco, 48 anos, foi eleita deputada estadual pelo Rio de Janeiro em 2018, com mais de 40 mil votos. Criada no Morro do Borel, na Tijuca, na Zona Norte do Rio, começou a atuar na área de direitos humanos aos 18, ao se mobilizar para ajudar as vítimas de uma enchente na comunidade. Em 2016, passou a integrar o gabinete da vereadora Marielle Franco — a quem conheceu dez anos antes, quando a amiga era assessora de Marcelo Freixo na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Ao lado das também deputadas Dani Monteiro e Renata Souza, é considerada uma das “sementes de Marielle”, já que as três trabalharam em seu mandato. Trabalhando em um ambiente dominado por homens brancos heterossexuais, ela conta que vivencia cotidiana de racismo, como ser barrada em locais restritos aos parlamentares

Por Mônica Francisco em departamento a Kamille Viola, Da Marie Cleire

Mônica Francisco, mulher negra de turbante e oculos vermelho, sorrindo
Mônica Francisco sofre preconceitos repetidas vezes (Foto: Divulgação/ Rithyele Dantas)

 

Como as várias casas parlamentares e, geralmente, as instituições públicas, a Alerj tem uma maioria branca, masculina. Então você percebe uma passabilidade, uma tranquilidade maior na circulação dos homens, mesmo não sendo parlamentares. A gente vai vendo essa dinâmica no dia a dia. Comigo, efetivamente, a primeira vez em que fui barrada foi no Tribunal de Justiça: em fevereiro, quando fui assistir à posse de um desembargador: fui encaminhada ao elevador de manutenção, mesmo usando o broche de identificação de deputada. Depois, aconteceu com a (também deputada estadual) Dani Monteiro, dentro do próprio interior da casa. E agora outro caso comigo.

No dia 11 de abril, me tornei a primeira mulher negra presidente da Comissão de Trabalho. Depois de presidir minha primeira audiência, fui à sala da presidência da Alerj. Um segurança me impediu de entrar: colocou a mão na frente e disse: ‘Quem é você?’. Mesmo eu estando identificada, com o pin de parlamentar. Mais do que isso: dois meses de mandato me parece tempo suficiente para que as pessoas conheçam os deputados da casa.

E esse é um processo que nos afeta a vida inteira. Nessas situações, nós estávamos acompanhadas de pessoas brancas. A reação é muito interessante, eu diria. Não sabem exatamente o que fazer, porque jamais passaram ou passariam por algo semelhante. Por exemplo, eu estava com um dos coordenadores do meu mandato, que é um homem e é branco, o auge do privilégio. Ele ficou completamente impassível. Porque é um cenário impensável para um homem branco: mesmo que ele não esteja tão bem vestido, dentro de um espaço desses ele é logo sinalizado como alguém que está ligado ao poder, então ele pode ser ligado a algum deputado, alguém poderoso da casa. Jamais passaria por um processo como esse. Então é algo que causa susto e estranheza, mesmo sendo pessoas que sabem, que são próximas, de esquerda, militantes, porque elas veem materializado ali o que a gente denuncia todo dia.

Em fevereiro, também estava usando o pin quando fui assistir à posse de um desembargador no Tribunal de Justiça. Fui pegar o elevador para autoridades e me direcionaram para o de manutenção. As pessoas me perguntam como me senti. Por incrível que pareça, é uma droga dizer isso, mas a gente sempre espera por isso. É quase uma naturalização desse processo, embora a gente brigue. Às vezes até ri: ‘Caramba, acontece, é real’. É muito real. Eu poderia dizer surreal.

Impressionante como esse processo é muito natural. Outra vez, eu estava sentada no Departamento de Recursos Humanos na Alerj, tinha ido levar uma documentação minha, junto da minha chefe de gabinete. Eu estava conversando, e o rapaz que estava me atendendo me sugeriu sentar um pouco enquanto aguardava ele terminar o atendimento. Sentei em uma das mesas. Entrou um homem de outro departamento, que estava levando mala-direta. Ele chegou e me entregou, botou os documentos na minha frente e disse: ‘Olha, isso aqui é não sei o quê…’. O atendente ficou tão constrangido e falou: ‘Não, ela é deputada.’ O rapaz saiu e nem se ligou no que tinha feito. Foi tão natural para ele achar que eu era a moça que trabalha ali e recebe os documentos… E eu não estava sentada como uma secretária, atrás da mesa. Estava na pontinha. Mas foi tão automático para ele. Se fosse alguém com outro tipo físico, como uma mulher branca, ele iria perguntar: ‘Para quem eu entrego isso aqui?’. Mas ele já foi direto. É muito natural. A gente fala exatamente para desnaturalizar o processo.

Outra coisa que acontece é conversar com uma pessoa pelo telefone e, quando você chega, ela ficar desconcertadíssima, porque não esperava uma pessoa negra. É visível na pessoa eu não digo nem a surpresa, mas quase um susto mesmo. Só para outra pessoa negra é possível entender isso. Por isso a feminista Vilma Piedade cunhou o conceito de dororidade: só as mulheres negras entendem a dor das outras mulheres negras. Você pode, claro, ser uma aliada, ser alguém sensibilizado, que comece a trabalhar para desnaturalizar esse processo em você. A Angela Davis diz: não basta não ser racista, tem que ser antirracista. E o que é isso? É ser aliado nessa luta mesmo. É dizer gente: ‘Gente, eu tenho dificuldade, mas estou trabalhando isso, eu entendo o meu lugar de privilégio’. A questão é que as pessoas não querem assumir, e enquanto você não assume, não evidencia, a gente não resolve o problema.

Também acontece frequentemente na Alerj de confundirem as pessoas (negras) e chamarem uma pelo nome da outra. E aí eu digo: ‘Meu nome é Mônica Francisco, eu não sou Renata Souza, eu não sou Enfermeira Rejane, eu não Tia Ju, eu não sou Dani Monteiro’. Isso acontece, inclusive, com autoridades. Outro dia eu estava conduzindo uma audiência e uma alta autoridade falando com uma deputada negra pelo nome da outra, mesmo com uma placa na frente dela com o nome dela. Ela já estava visivelmente irritada, aí eu tive que interromper e corrigir: ‘Essa é a deputada tal, a outra nem está na sala’.

Ora, quando a gente fala da branca tem a morena, loura, ruiva, mas a gente é tudo igual?Não, espera aí. O cabelo é diferente, o corpo, o biotipo. As idades. O próprio presidente já me chamou de outros nomes. É muito complicado. Aborrece tremendamente. É um saco! É fogo, um choque de realidade.

Eu já estava construindo um projeto, para executar em parceria com o Tribunal de Justiça, para treinar os funcionários sobre racismo institucional. Com os ocorridos com a deputada Dani Monteiro, ela solicitou que nós fizéssemos uma ação mais ampliada e conjunta. Então nós, as deputadas negras do PSOL (Renata Souza, Dani Monteiro e Mônica), resolvemos protocolar um projeto de lei de formação para enfrentamento ao racismo voltado para servidores e terceirizados. E que inclusive os próprios parlamentares tenham esse processo de ter, pela escola do legislativo, essa formação antirracista. A gente também está produzindo um pacote de leis antirracistas e aproveitou para dizer que quer que se acelere o processo de votação desses projetos e a implementação.

Na quinta passada, fiz uma fala contando esse novo episódio de racismo comigo. O presidente da casa (André Ceciliano) disse: ‘Já está demais, é a terceira fez que isso acontece, nós vamos abrir um inquérito’. Mas nós não queremos que sejam efetuadas ações punitivas, individualizando a questão e excluindo a responsabilidade das casas e das instituições de formação. Não é uma pessoa. É uma ação em sociedade. Esse processo discriminatório, racista, ele não pode ser isolado, porque senão a gente cai no senso comum.

A primeira ação dos responsáveis da casa, tanto do tribunal como da Alerj, é punir a pessoa: ‘A gente manda o ascensorista embora.’ Não. Isso não resolve. O que resolve é que, cada vez mais, a gente desenvolva, projetos como, por exemplo, implementação e efetivação da Lei 10.639, que estabelece o ensino da cultura africana e afro-brasileira nas escolas — que depois foi mudada para o projeto 11.645, que estabelece também o ensino da cultura indígena. Que a gente possa, de fato, fazer uma construção que seja pedagógica, didática, no âmbito não só das relações interpessoais, mas das instituições. E, consequentemente, que a gente possa continuar efetuando e provocando o debate.

Porque isso está no nosso dia a dia: é alguém que está na esquina, no banco. Estamos falando que temos um problema em sociedade e que precisamos começar a discutir. Eu vim do mandato da Marielle Franco, uma outra mulher negra. E vivíamos essa situação de sermos barradas na Câmara dos Vereadores constantemente. A Marielle foi barradíssima lá, meu Deus. Tinha gente que não pegava elevador com a gente.Vamos ter um trabalho grande pela frente. Eu fico imaginando, como a Mari dizia, como era na época da Benedita de Silva (deputada federal e ex-governadora do Rio) e da Jurema Batista (ex-deputada federal), o que sofreram. Mas vamos seguir provocando a sociedade a fazer uma reflexão e uma mudança de comportamento. Dura, difícil, que vai levar tempo, mas que precisa ser feita.”

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