quarta-feira, julho 6, 2022

Eu, racista

O que segue é o texto de um “sermão” que fiz como uma “reflexão da congregação” para uma plateia toda branca na Bethel Congregational United Church of Christ, no domingo 28 de junho. O sermão começou com a leitura da história do bom samaritano e essa maravilhosa citação de Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie.

por  no Brasil Post

Há um par de semanas, debatia sobre o que falar neste sermão. Disse ao pastor Kelly Ryan que tinha reservas em relação ao tópico em que penso todos os dias.

Aí, um terrorista massacrou nove inocentes numa igreja que já frequentei, em uma cidade que ainda chamo de minha. Naquele momento, sabia que, apesar de qualquer ressalva, tinha de falar de raça.

Não falo de raça com brancos. Para ilustrar o porquê, vou contar uma história.

Faz mais ou menos 15 anos que minha tia, que é branca e mora no Estado de Nova York, teve uma conversa com minha irmã, que é negra e vive na Carolina do Norte. Essa conversa pode ser destilada em uma única frase, dita por minha irmã:

“A única diferença entre as pessoas do Norte e as pessoas do Sul é que, pelo menos aqui, as pessoas são sinceras a respeito do seu racismo.”

A conversa foi muito maior, obviamente, mas eu sugiro que ela possa ser resumida nessa frase porque foi isso o que minha tia fez. Mas de dez anos depois, é dessa frase que ela fala. Ela se tornou de longe o aspecto mais importante da relação da minha tia com minha família negra. Ela ainda se sente magoada com a sugestão de que as pessoas de Nova York, de que ela, uma branca do norte, liberal, uma boa pessoa, que tem parentes negros, são racistas.

Isso ilustra perfeitamente por que não falo sobre raça com brancos. Nem mesmo – na verdade, especialmente – com a minha família.

Amo minha tia. Ela é minha tia favorita, de verdade, e acredite: tenho muitas tias Mas dessa vez os fatos estão a favor da minha irmã.

O Estado de Nova York é um dos mais segregados do país.A cidade de Buffalo, onde minha tia mora, tem um dos sistemas escolares mais segregados do país. A desigualdade racial da região onde ela mora é tão ruim que foi tema de relatórios da Civil Rights Action Network e da NACCP.

Mas minha tia não precisa saber desses fatos. Ela não precisa viver com a segregação racial e a opressão de sua cidade. Como uma branca com mobilidade social, ela continua melhorando de vida. Saiu da área em que cresci e mudou-se para uma área com escolas melhores. Minha tia não precisa vivenciar o racismo, então ele não é real para ela.

Ela também não percebe que o fato de se mudar de um bairro cada vez mais negro para um subúrbio branco pode por si só ser um aspecto do racismo. Ela não precisa perceber que “escolas melhores” significa exclusivamente “escolas mais brancas”.

Não falo de raça com brancos porque sei que a conversa não vai a lugar algum. Quando era mais novo, achei que isso acontecia porque todos os brancos são racistas. Recentemente, comecei a entender que existem mais nuances.

Para entender, você precisa saber que os negros pensam em termos de população negra. Não vemos a morte a tiros de uma criança negra de outro Estado como algo isolado, pois sabemos visceralmente que aquela criança poderia ser nosso filho, nosso pai, nós mesmos.

O assassinato de Walter Scott em Charleston me marcou porque Walter Scott foi retratado na mídia como caloteiro e criminoso – mas, quando você olha para os fatos sobre o homem, ele era praticamente indistinguível do meu pai.

O racismo nos afeta diretamente porque o fato de algo ter acontecido longe ou com outro negro é só uma coincidência, um acidente. Poderia muito bem acontecer conosco – aqui e agora.

Negros dizem “nós” porque vivemos numa sociedade em que as estruturas sociais e políticas interagem conosco como negros.

Brancos não pensam em termos de “nós”. Brancos têm o privilégio de interagir como indivíduos com as estruturas sociais e políticas da nossa sociedade. Você é “você”, eu sou “um deles”. Brancos não costumam ser afetados diretamente pela opressão racial em suas comunidades, portanto o que não os afeta localmente tem poucas chances de afetá-los regional ou nacionalmente. Eles não precisam, nem desejam, pensar em termos de um grupo. São apoiados pelo sistema e portanto não são afetados por ele.

O que os afeta são ataques a seu caráter. Para minha tia, a sugestão de que “as pessoas do Norte são racistas” é um ataque pessoal. Ela é incapaz de diferenciar sua participação em um sistema racista (mobilidade social, subúrbios brancos, poucos problemas com a polícia etc.) da acusação de que ela, individualmente, é racista. Incapazes de fazer essa diferenciação, os brancos em geral decidem defender vigorosamente seu não-racismo pessoal, ou afirmar que o racismo não existe porque não conseguem enxergá-lo.

O resultado disso é um argumento repetido incessantemente, segundo o qual os negros dizem que “o racismo ainda existe, é real”, e os brancos, “Você está errado. Não sou racista, de jeito nenhum. Não consigo enxergar o racismo”. A resposta imediata da minha tia não é “isso está errado, precisamos melhorar”. Não. A resposta dela é autoproteção: “Não é minha culpa, não fiz nada. Você está errado”.

Racismo não é escravidão. Como disse o presidente Obama, não é evitar o uso da palavra nigger (termo depreciativo usado para designar negros). Racismo não é bebedouro segregado ou o fundo do ônibus. Martin Luther King não acabou com o racismo. Racismo é um policial quebrando a espinha de um homem inocente. É uma criança de 12 anos ser baleada por brincar com um revólver de brinquedo em um Estado que permite o porte de armas em público.

Mas o racismo é ainda mais sutil. Tem mais nuances. Racismo é o fato de que “branco” significa “normal” e que todo o resto é diferente. Racismo é nossa aceitação de um elenco inteiramente branco para O Senhor do Anéis em nome da precisão histórica, ignorando o fato de que esse universo é ficcional.

Mesmo quando inventamos as coisas, queremos que elas sejam brancas.

E racismo é o fato de que todo nós aceitamos que essas coisas sejam brancas. Benedict Cumberbatch no papel de Khan, em Jornada nas Estrelas. Khan, que vem da Índia. Existe alguém mais branco que Benedict Cumberbatch? Eles precisavam de um elenco “menos racial” porque já tinham o Black Uhura? Isso é racismo. Quando você se permite enxergá-lo, ele está em todos os lugares.

As crianças negras aprendem isso quando têm “A Conversa” com seus pais. Quando, aos cinco ou seis anos, elas descobrem que o pai do melhor amigo delas não está doente nem de mau humor, ele só não quer seu filho brincando com você. Crianças negras entram cedo na Matriz. Não temos a escolha entre o comprimido branco ou azul. A maioria dos brancos, como minha tia, nunca precisam escolher. O sistema foi feito para os brancos, então os brancos nem precisam pensar para viver nele.

Mas não podemos falar disso.

É cansativo viver diariamente com o racismo institucionalizado e ter de argumentar que ele existe. É triste e dá raiva. Mas, se expressarmos emoções ao falar dele, somos vítimas da patrulha do tom. Na verdade, um elemento chave em qualquer discussão sobre raça nos Estados Unidos é o Negro Nervoso, e as discussões terminam quando ele se manifesta. O Negro Nervoso invalida qualquer argumento sobre racismo porque é “sensível demais”, ou “muito emotivo”, ou sempre recorre ao tema do racismo. Ou, pior ainda, dizem que nós estamos sendo racistas (será que uma pessoa inteligente realmente acredita que uma população sistematicamente oprimida tem a capacidade de oprimir quem está no poder?).

Mas eis a ironia, eis o que todos os negros nervosos sabem e o que nenhum debatedor branco e calmo quer admitir: toda a discussão sobre raça nos Estados Unidos gira em torno de não magoar os sentimentos dos brancos.

Pergunte a qualquer negro, e ele vai te dizer o mesmo. A realidade de milhares de inocentes estuprados, baleados, presos e sistematicamente privados de direitos são menos importantes que a sugestão de que um único branco seja cúmplice de um sistema racista.

Esse é o país em que vivemos. Milhões de vidas negras têm menos valor que a mágoa de um único branco.

Brancos e negros não estão discutindo raça. Os negros, pensando como grupo, falam de viver em um sistema racista. Os brancos, pensando como indivíduos, se recusam a falar sobre o “Eu, racista” e em vez disso protegem sua “bondade”. Fazendo isso, eles rejeitam a existência do racismo.

Mas discutir o não-racismo pessoal é desviar do assunto.

Apesar do que sugere o massacre de Charleston, as pessoas não estão morrendo porque os indivíduos são racistas, mas porque os indivíduos estão ajudando a apoiar um sistema racista, protegendo suas crenças não-racistas.

As pessoas estão morrendo porque estamos apoiando um sistema racista que justifica que brancos matem negros.

Vemos isso quando um muçulmano assassino é símbolo do terror islâmico; quando um ladrão mexicano indica a importância do controle de fronteiras; quando um negro inocente e desarmado é baleado pelas costas pela polícia e depois tem sua reputação manchada na imprensa: um gângster, um criminoso.

E quando um racista branco num Estado que ainda hasteia a bandeira confederada é tido como “problemático” e “preocupante”. Quando as pessoas “não conseguem entender por que ele faria uma coisa dessas”.

Um branco fumando maconha é um “hippie”. Um negro, criminoso. É evidente no caminho da escola à cadeia e no fato de que há quase 20 negros para cada branco nas penitenciárias.

Eis uma manchete do The Independent que resume as coisas muito bem: “Atentado em Charleston: assassinos negros e muçulmanos são ‘terroristas’ e ‘gângsteres’. Por que os atiradores brancos são chamados de ‘doentes mentais’?”

Vou ler mais uma vez: “Assassinos negros e muçulmanos são ‘terroristas’ e ‘gângsteres’. Por que os assassinos brancos são chamados de ‘doentes mentais’?”

Pegaram? É lindamente sutil. O artigo fala especificamente dos tratamentos diferentes que damos às pessoas de cor nesse país, e até mesmo na manchete os brancos são “atiradores”, e os negros e muçulmanos, “assassinos”.

Até mesmo quando estamos falando de racismo, estamos usando linguagem racista para fazer as pessoas de cor parecerem perigosas, e os brancos, não tão maus assim.

Deixe a ficha cair, e depois se pergunte por que os negros ficam nervosos quando falam de raça.

A realidade dos Estados Unidos é que os brancos são fundamentalmente bons, e quando um branco comete um crime, é sinal de que eles, como indivíduos, são maus. Suas ações como pessoa são dizem nada em termos sociais mais amplos. Nem sequer o fato de que os Estados Unidos têm grupos de ódio violentos, em geral compostos por homens brancos, e que quase *todos* os assassinos em série são brancos podem colocar em dúvida a verdade fundamental da bondade do homem branco. Na verdade, gostamos tanto de assassinos em série brancos que fazemos minisséries sobre eles.

Brancos são bons como um todo, e só se comportam mal como indivíduos.

Pessoas de cor, especialmente os negros (mas bem que poderíamos estar falando dos mexicanos nessa comunidade), são vistos como fundamentalmente maus. Pode haver um ou outro bom – e sempre o apontamos para nossos amigos, nosso Oscar de “Melhor Não-Racista num Papel de Branco” -, mas, quando vemos um mau, é só a prova de que o resto, como regra, também é mau.

Isso, tudo isso, as expectativas, o tratamento, os pensamentos, o sistema social subjacente que coloca os brancos na posição de normais e bons e os negros na de “outros” e “maus”, tudo isso é racismo.

E, brancos, todos vocês, são cúmplices nesse racismo, pois vocês se beneficiam diretamente dele.

É por isso que não gosto da história do bom samaritano. Todo mundo gosta de pensar de si mesmo como a pessoa que vê alguém machucado e oferece ajuda.

Isso é fácil demais.

Se pudesse reescrever essa história, usaria a perspectiva da América negra. E se a pessoa não estivesse machucada e ensanguentada? E se não fosse tão óbvio? E se eles só enfrentassem desafios sistemático, milhares de pequenos desafios, dificultando o sucesso na vida?

Você correria para ajudar ou, como a maioria dos brancos, ficaria quieto e deixaria acontecer?

Eis o que quero dizer para vocês: o racismo está tão profundamente enraizado nesse país não por causa dos radicais de extrema direita que o praticam abertamente. Ele existe por causa do silêncio e da mágoa dos liberais.

É o que eu realmente quero dizer, mas não posso. Não posso dizer isso porque passei minha vida toda sem falar de raça com os brancos. A culpa é minha. O racismo existe porque eu, como negro, não faço vocês olharem para o problema.

O racismo existe porque eu fico em silêncio, não vocês.

Mas não tenho saída, porque, quando começo a falar de racismo, viro o Negro Nervoso, a discussão termina.

Todas as vozes negras do mundo, falando de racismo o tempo todo, não conseguem fazer os brancos pensarem no assunto – mas um Jon Stewart branco falando de Charleston faz muitos brancos falarem do assunto. Esse é o mundo em que vivemos. Os negros não conseguem mudá-lo enquanto os brancos ficam em silêncio e não dão ouvidos às nossas palavras.

Os brancos detêm o poder nesse país por causa do racismo. A pergunta é: será que eles têm coragem de usar esse poder para denunciar o sistema que lhes deu esse poder?

Peço a ajuda de vocês. Prestem atenção. Falem. Não deixem passar. Não fiquem observando em silêncio. Ajudem a criar um mundo em que o samaritano encontre alguém machucado e ensanguentado.

Da minha parte, não vou mais ficar em silêncio. Vou tentar ser gentil ao falar, mas não será fácil. Porque está ficando cada vez mais difícil pensar em não magoar os sentimentos dos brancos quando eles não parecem se importar com a perda de tantas vidas negras.

Blog publicado originalmente no Medium.com.

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