EUA assumem uma liderança no desarmamento nuclear que nenhum outro país poderia exercer, diz especialista

Por: Thiago Chaves-Scarelli

 

Será concluída nesta terça-feira (13) a Cúpula de Segurança Nuclear organizada pelos Estados Unidos para discutir como assegurar que componentes de armas nucleares não caiam em mãos de terroristas. A expectativa é que após a reunião, os líderes dos 47 países presentes concordem em um plano de trabalho a ser colocado em prática nos próximos anos, de acordo com o especialista Daryl G. Kimball.

Na segunda parte da entrevista com o UOL Notícias, o diretor-executivo da Associação de Controle de Armas, Daryl G. Kimball, destaca a importância da liderança de Barack Obama no processo de desarmamento nuclear.

 

“Obama recebeu o prêmio [Nobel da Paz] em parte por sua visão e por seu plano de reduzir as armas nucleares no mundo e caminhar para um mundo sem elas. Agora nós podemos ver parte do plano de Obama se concretizando”, afirma o especialista.

 

Kimball também destaca que não é impossível imaginar o fim das armas nucleares no futuro: “É cada vez mais evidente que armas nucleares simplesmente não servem para nenhuma missão militar, só foi utilizada uma vez, em 1945. Elas só servem para desestimular que outro país use armas nucleares contra você. Se esse é o único propósito das armas nucleares, o mundo pode perfeitamente ficar sem elas.”

 

Confira aqui a segunda e última parte da entrevista.

 

UOL Notícias: O que podemos esperar após esses dois dias de encontro?

Daryl G. Kimball: Os líderes reunidos vão emitir um comunicado com seus objetivos comuns e os pontos acordados e um plano de trabalho de sete páginas. Os governos vão continuar a discutir essas questões uns com os outros em diferentes fóruns, diferentes encontros, e cada país vai perseguir seus objetivos acordados. Os governos se reunião novamente em 2012 para avaliar os progressos e discutir uma atualização nos termos de segurança de material nuclear.

 

UOL Notícias: O Irã não foi convidado. Israel foi convidado, mas o premiê israelense Benjamin Netanyahu desistiu de comparecer pessoalmente. Essas ausências não comprometem a eficiência do diálogo para a região do Oriente Médio?

Kimball: Uma coisa que precisamos lembrar é que essa cúpula nuclear não foi pensada para ser uma conversa sobre cada um dos temas nucleares pendentes. Não é sobre fortalecer o TNP (Tratado de Não Proliferação). Não é sobre obrigar o Irã a cumprir com suas obrigações. Não é sobre pressionar Israel a se juntar ao TNP. É sobre garantir a segurança de material nuclear, onde quer que ele esteja, e os esforços necessários para evitar que ele seja perdido, vendido, roubado para terroristas. Se o Irã tivesse sido convidado, essa reunião teria sido sobre o programa nuclear iraniano e acho que isso teria interferido na discussão principal. O que é digno de nota é que, apesar das diferenças particulares entre os participantes dessa discussão, eles estão juntos para focar na questão da segurança dos materiais nucleares. Nesse sentido, é uma conquista memorável, apesar da ausência de alguns países.

 

UOL Notícias: Um republicano poderia argumentar que há mais motivos para desconfiar da segurança de material nuclear no Irã do que do urânio da França ou do Brasil, que estão presentes.

Kimball: A reunião se preocupa com o urânio enriquecido que existe, que sabemos onde está e quando existe, se preocupa com a segurança dos locais onde ele está armazenado. A França tem urânio enriquecido. Mesmo que não tenha a intenção de permitir que alguém consiga pegá-lo, ela tem uma grande quantidade desse material, e tem uma grande responsabilidade. O Irã não tem plutônio, não tem urânio altamente enriquecido, apesar do programa de enriquecimento. E eu argumentaria ainda que o Irã não tem interesse em vender ou dar urânio enriquecido para terroristas, porque esse não é o interesse de nenhum país. É por isso que França e Israel foram convidados, e o Irã não.

 

UOL Notícias: Já existe uma Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que deveria estimular o uso pacífico e impedir o uso militar de energia atômica. Essa cúpula não estaria tomando um vazio de poder que essa agência falhou em ocupar?

Kimball: A AIEA não foi pensada para almejar o desarmamento nuclear, mas para apoiar o uso civil de energia nuclear e para garantir que esse material pacífico não fosse desviado para fins militares. Ela continua servindo às duas funções. Eu acredito que os EUA, com essa cúpula, estão assumindo uma voz de liderança no tema de segurança nuclear – a AIEA tem um papel na segurança nuclear, mas é apenas um papel de aconselhamento. Ela fornece suporte na segurança de materiais nucleares quando solicitada pelos países. Então eu penso que os EUA estão assumindo uma posição de liderança que nenhum outro país ou agência poderia ocupar. O encontro está acontecendo a cinco quarteirões do meu escritório, é a maior reunião de líderes mundiais para um único tema em décadas. É uma ocasião que deve impulsionar ação real nos próximos meses e anos.

 

UOL Notícias: Obama recebeu o prêmio Nobel da Paz no ano passado, em parte pelas expectativas em torno de suas promessas. Agora ele lidera um processo de desarmamento. Estaria ele lutando para legitimar o prêmio que já recebeu?

Kimball: Ele recebeu o prêmio em parte por sua visão e por seu plano de reduzir as armas nucleares no mundo e caminhar para um mundo sem elas. Agora nós podemos ver parte do plano de Obama se concretizando. Vemos o plano com a Rússia, a política que reduz a participação de armas nucleares na defesa dos EUA, essa cúpula de segurança. Podemos ver o plano que Obama anunciou em Praga [em 5 de abril de 2009] em ação, e eu acho que o comitê do prêmio Nobel não premiou Obama pelo que ele tinha feito, mas pela visão e pelo projeto que ele proclamou, com o objetivo de demonstrar apoio e consideração por esses esforços.

UOL Notícias: É realista imaginar um mundo sem armas nucleares no longo prazo?

Kimball: Sim. Para algumas pessoas é difícil imaginar um mundo sem armas nucleares, mas é possível. Muitos países abriram mão de armas nucleares, África do Sul, Ucrânia, Cazaquistão, e outros que desistiram de programas nucleares. Eu acredito que a fantasia é imaginar que poderíamos continuar com o status quo, com o mundo composto por países com e países sem bombas atômicas, essa não é uma situação sustentável. É cada vez mais evidente que armas nucleares simplesmente não serve para nenhuma missão militar, só foi utilizada uma vez, em 1945. Elas só servem para desestimular que outro país use armas nucleares contra você. Se esse é o único propósito das armas nucleares, o mundo pode perfeitamente ficar sem elas.

 

 

Fonte: UOL

 

+ sobre o tema

Nova identidade tem CPF como número principal, QR code e abriga dados de outros documentos

O governo federal quer acelerar a corrida para digitalizar...

ONU pede que Brasil legalize aborto e denuncia ‘fundamentalismo religioso’

Alertando sobre o avanço do que chamou de "fundamentalismo...

Trump se torna 1º ex-presidente condenado em ação criminal na história dos EUA

Donald Trump se tornou o primeiro ex-presidente considerado culpado pela...

Um compromisso nacional

Alfabetizar todas as crianças foi colocado desde o início...

para lembrar

Comissão da Câmara aprova redução da Maioridade Penal

Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) aprovou nesta...

Agnelo diz ter encontrado Cachoeira uma vez, ‘em 2009 ou 2010’

Por: Patrícia Alencar Encontro foi em empresa farmacêutica em...

DECLARAÇÃO DE APOIO DE CATÓLICAS PELO DIREITO DE DECIDIR AO III PNDH

Com quem o governo dialoga? A quem o governo...

Mapa aponta que quase meio milhão de cariocas passam fome

A insegurança alimentar grave é realidade em 7,9% das casas na capital fluminense. Em números absolutos, são 489 mil pessoas que passam fome. Cerca de 2 milhões de cariocas convivem...

STF intima governo de SP a se manifestar em ação sobre edital de câmeras

O presidente do STF, Luís Roberto Barroso, intimou o governo de São Paulo a se manifestar em até 72 horas sobre ação que questiona edital que...

Alfabetização de crianças retoma nível pré-pandemia, mas quase metade de alunos no 2º ano ainda não sabe ler e escrever

O governo federal afirmou nesta terça-feira que 56% das crianças alcançaram em 2023 o patamar de alfabetização registrado no período pré-pandemia, em 2019. Com...
-+=