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Festas, oficinas, feiras: a cultura negra está em todas

Roda de umbigada na Gamboa. Baile black na Praça Quinze. Soundsystem de dub em Bangu. Feira de estética afro na Lapa. Disputa de passinho na Maré. Festival de Cinema Negro na Cinelândia. A cultura negra está com tudo e está prosa. É o orgulho negro que move uma galera que está tocando uma série de eventos de temática afro que vem dando o que falar por aí. Uma galera que quer valorizar a consciência negra, exaltando respeito, otimismo, resistência cultural e, claro, diversão, que ninguém é de ferro.

por Gilberto Porcidonio no Globo

Fazendo a ponte entre esses novos (alguns, nem tanto) projetos, a dança é um dos principais motivos que ditam o ritmo desses “movimentos negros” no sentido literal. Com o Dia da África logo ali, a ser comemorado na próxima segunda-feira, rolam um bocado de atividades ligadas ao tema a partir deste fim de semana.

— Existem artistas produzindo há muito tempo, e o que se vê hoje é o fruto de ideias como a do projeto África Livre, o trabalho da Cia Étnica de Dança e outras iniciativas — avalia o coreógrafo André Bern, coordenador do projeto Dança Carioca na Rede, que levará a coreógrafa guineana Mariama Camara para o evento África Livre desta sexta-feira (22.05) até domingo (24.05), no Vidigal.

Além das festas e eventos que percorrerão a cidade da Zona Norte à Zona Sul, a “festa da raça” será bem ampla. E muitos seguem feitos na raça mesmo, de forma independente, reunindo iniciativas que promovem tanto a já aclamada animação da noite da cidade, como as festas Digitaldubs, o Baile Black Bom, o do Viaduto de Madureira e o Amaréfunk, quanto o aprendizado, como o Encontro de Cinema Negro, o Bazar Odarah e a feira gastronômica Paladares da África. Citando o bloco Ilê Aiyê, é mundo negro da cidade que viemos mostrar para vocês.

De corpo aberto

Com um ousado trabalho corporal que pode desafiar os mais ortodoxos das danças tradicionais, a proposta da Cia Babalakina é celebrar um “ritual afro contemporâneo”, abusando de referências pop e modernas, como as cores fortes e as pinturas faciais que ganharam a moda. Este ano, a companhia criou o Bonde Babalakina que, depois de passar pelo Arpoador, chega neste sábado (23.05, a partir das 14h) em Bangu. O projeto celebra os dez anos de trabalho da líder do grupo, a dançarina Aline Valentim, e terá oficinas de dança, amarrações de moda (como turbantes) com Vall Neves e bate-papo, além da discotecagem do DJ Bieta na base da “música preta para dançar”, MPB carregada na percussão.

Aline, que também é professora do Rio Maracatu e pesquisadora de danças afro-brasileiras, realiza um trabalho inspirado em danças sagradas de matriz yorubá, populares brasileiras e de países africanos como Guiné, Moçambique e Cabo Verde. No evento, a ideia é “abalar Bangu” mostrando um pouco de todo esse trabalho para quem chegar e quiser aprender.

— O bonde foi uma forma que eu achei de celebrar todos esses anos de trabalho. A dança afro contemporânea é uma forma de recriar a tradição com um tom autoral, o que garante a continuidade dela para as próximas gerações. E qualquer pessoa pode participar das minhas oficinas, sem restrição alguma. A ideia do evento é ser o mais aberto possível e atrair quem estiver por lá — diz Aline.

Muito mais que reggae

Misto de equipe de som e banda, o coletivo Digitaldubs é um incansável militante da cena reggae e de outros ritmos jamaicanos. Desde sua criação, há 13 anos, pelo “seletor” (como os DJs são chamados na tradição jamaicana) Marcus MPC, o sistema de som promove festas-shows concorridas, já lançou diversos discos e com convidados especiais como BNegão, Black Alien, Otto, Tommy Far East, Ranking Joe e Mad Professor, ajudando a reforçar o lugar do Rio no circuito internacional.

EM VÍDEOS, veja o novo clipe do Digitaldubs.

Recentemente, a trupe, que tem vários álbuns capitaneados pelo seu próprio selo independente, lançou o clipe da música “Nos porcos não crescerão asas”, no qual o vocalista Jeru Banto percorre a cidade colando cartazes. E eles realmente gostam de dar recados: nas picapes, nada de músicas que exaltam qualquer segregação ou violência. ANeste sábado (23.05), o baile chega a Bangu.

— Nós temos essa preocupação desde sempre porque agregamos pessoas independentemente de raça, cor e sexo — diz Jeru.

Nas rodas de umbigada

Nunca antes na história deste país tantas rodas de umbigada foram vistas por aí. Tradicionais na dança afro, elas viraram modinha e rolam, nos finais de semana, em lugares como Rua do Lavradio e Zona Portuária. Para quem nunca viu: as pessoas ficam numa roda e, como na capoeira, embaladas pela percussão, entram para dançar, tomando o lugar do outro com uma umbigada.

EM VÍDEOS, veja uma das rodas do Tambor de Cumba.

Pois a dançarina Aninha Catão tem parte do crédito nessa mania. Trabalhando com cultura afro há dez anos, ela começou a dar aulas de dança a partir de 2013, quando fundou o Tambor de Cumba, que se apresenta todo mês na Praça da Harmonia. Neste sábado (23.05), ela comanda uma oficina na Casa Gira Mundo, na Lapa, e toda quinta está no Instituto Pretos Novos, na Gamboa:

— Existe, sim, esse movimento de o afro estar na moda, mas uma coisa é ter visibilidade com uma festa, e outra na parte profissional. Não é comum dança afro em academia, e esse profissional é tão bailarino quanto o de balé clássico — defende.

Consciência negra

O Baile Black Bom veio para provar, há dois anos, que nem só de samba vive a Pedra do Sal. Ironicamente, a festa tem, no sentido figurado, é dado samba. A cada edição, ela bate recorde de público ao produzir uma versão 2.0 dos “bailes da pesada” que agitavam a cidade nos décadas de 1970. Quem produz o bailão que agora é itinerante — já teve versões na Praça Quinze e na Praça Merck, na Taquara, e hoje aporta no Arco do Teles — é a banda Consciência Tranquila, que, depois de 13 anos de estrada, está participando do programa “Superstars”, da Rede Globo. O grupo tem garantido a permanência na competição de bandas graças à formula que executa na festa: mesclar músicas próprias com sucessos repaginados à sua maneira.

EM VÍDEOS, veja um clipe da banda.

Um dos vocalistas, Antônio Consciência, já mandou a letra: a edição desta sexta-feira (22.05) no Arco do Teles reunirá os DJs Flash, Jaílson e Tamy para 12 horas de discotecagem (!), além de projeções e feira de afro-empreendedores com moda, bijuterias, acessórios e artesanato. Se a festa vai ter sal? A palavra é do próprio Antônio:

— Acho que, depois da nossa apresentação no programa, aquilo lá vai é explodir de gente, mas vai ficar bem interessante.

Está dando repercussão

Fundado em em 2005, o Maracutaia é um bloco especializado em maracatu de baque virado. Após um processo de pesquisa, o grupo criou, em 2011, o Bailijesá, um “baile-show” que mescla composições religiosas com músicas de Paulo César Pinheiro, Toninho Geraes, Filhos de Gandhi e de Gilberto Gil e Caetano Veloso. O primeiro CD do grupo, “Boca de nego”, está em fase final de captação no site Catarse e se encerra no próximo dia 30 com festa gratuita na Praça Quinze, entre as ruas do Ouvidor e do Mercado. A percussionista Lina Miguel explica melhor o processo:
— No Bailijesá, a gente junta diversos afoxés. A instrumentalização é bem diferente da do nosso bloco e reúne uma combinação de mais de 50 músicas da MPB. Foi a partir deste trabalho que nós tivemos uma base para fazer nossas próprias composições.

EM VÍDEOS, veja uma apresentação.

Nesta sexta (22.05), o Bailijsesá participa da festa CoCo DubOn com o grupo pernambucano Bongar, que tem como influência religiões como a Nação Xambá. Detalhe curioso: o DJ da festa será Rocco Deejay, o “Omolu” da banda Gangrena Gasosa.

Mulheres no poder

Com a proposta de unir arte, discussão racial e feminismo, o Grupo Cultural Balé das Iyabás promove a conscientização através de dinâmicas de interação que envolvem a mitologia das orixás femininas, as iabás. Criado em 2012, o grupo é bem engajado e aborda diversos temas, tratando de assuntos como a violência contra a mulher e o protagonismo feminino na sociedade.
— O nosso principal objetivo é contribuir para o fortalecimento das mulheres, realizando oficinas, narrativas de histórias e trabalhando com o corpo através da dança afro e da gestualidade — explica a instrutora de arte e cultura do grupo, Sinara Rúbia.

EM VÍDEOS, veja um dos trabalhos do grupo.

Neste sábado (22.05), o Balé das Iyabás promove o evento Vivências do Balé, em Santa Teresa que promete, literalmente, dar o que falar. Nesta edição, estarão presentes a escritora mineira Conceição Evaristo e as empreendedoras Tenka Dara, a criadora da grife de de roupas e acessórios Baobá Brasil — presente em diversas feiras e que já vestiu os músicos Criolo e Alpha Blondy —, e Safira Moreira, da marca Joias dos Orixás.

Outros eventos:

África Livre
Amaréfunk
Baile do Viaduto de Madureira
Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul
Feira Crespa
Odarah
Paladares da África
Soul de Santa

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