terça-feira, agosto 16, 2022
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Filhos recebem estímulo em casa para estudar mais

Quando pisou pela primeira vez na universidade, nem ela própria acreditou. Negra, Ester Rufino, de 33 anos, saiu da casa da patroa, onde trabalhou por seis anos como empregada doméstica, e foi direto para as aulas do curso de Direito na Unicastelo em Itaquera, zona leste de São Paulo. Por meio da ONG Educafro, conseguiu uma bolsa de estudos e decidiu que teria capacidade. “Não foi fácil, eu tinha dificuldade para ler e interpretar os textos, mas estou vencendo”, diz.

Ester, que cursa o 8.º semestre da faculdade, é a segunda dos dez filhos do porteiro Sergio Rufino e da dona de casa Marcia Helena Rufino. Os dois têm apenas o fundamental incompleto e hoje, além de Ester, têm outros quatro filhos em curso superior. Um feito que eles não imaginavam – e reflete o quadro retratado pela pesquisa sobre cor e raça feita pelo IBGE, segundo a qual os negros estão deixando para trás a herança de poucos anos de estudos de seus pais.

“Quando eu era adolescente, meu pai me pagou um curso de datilografia sonhando que eu conseguisse ser, um dia, auxiliar de escritório”, lembra Ester.

Por um tempo, enquanto Ester trabalhou como diarista, o pai tinha perdido a esperança. Agora, não se cansa de contar sobre o novo trabalho da filha. Ester conseguiu um estágio no Fórum de Itaquera. Trabalha na sala do juiz. “Fui a primeira negra a conseguir um emprego lá e tenho muito orgulho disso.”

Em Porto Alegre, uma outra família negra simboliza o esforço que cada geração faz para que a seguinte fique mais tempo nos bancos escolares. Os pais do motorista Jesus Paulo Silveira, 60 anos, já falecidos, frequentaram aulas, mas não chegaram a quatro anos de aprendizado formal, como ele e a mulher, Jussara Rosa da Silva, 64 anos. O filho único do casal, Cristiano, 38 anos, completou o ensino médio e, além disso, um curso de técnico em telefonia. Os netos, de 16 e 14 anos, estão na sétima série do ensino fundamental e, se depender da vontade dos pais e avós, não vão parar antes da faculdade.

Mais velho e único homem entre sete irmãs, Jesus interrompeu os estudos depois de concluir o quarto ano do antigo primário para ajudar a criar as irmãs, “lá no Alegrete”, onde a família morava à época. A trajetória é semelhante à de toda uma geração que morava no interior do Rio Grande do Sul por volta de 1960. “Alguns de meus colegas foram além, mas muitos desistiram para ajudar os pais”, diz.

O filho Cristiano reforça a convicção de que novas gerações estudam mais do que as anteriores, quase sempre sob incentivo dos pais, porque esses percebem a necessidade de preparação para um mercado de trabalho cada vez mais complexo e exigente. “Quem não tem qualificação fica no meio do caminho”, acredita.

Diploma. Na casa do paulistano Augusto Shintani, de 22 anos – descendente de uma família de japoneses -, diploma é o que não falta. Pai, mãe e quatro dos seis filhos (um decidiu abrir um negócio e a caçula ainda está no ensino médio) chegaram à universidade.

Os Shintani são um retrato de outra constatação da pesquisa do IBGE – a de que os pais dos que se autodenominam amarelos são os que têm mais anos de escolaridade.

A mãe, Juliana, é economista e o pai, Jorge, engenheiro. O irmão Alberto cursou História no Japão. Já Augusto e duas de suas irmãs, Cristina e Luciana, seguiram os passos do pai. Mais de duas décadas após Jorge formar-se na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), eles também escolheram estudar engenharia. E no mesmo lugar. No fim deste ano, é a vez de Augusto receber o diploma de engenheiro de produção.

“Meus pais deixavam de trocar de carro para investir em bons colégios que nos preparassem para o vestibular e pagar cursos extras, como o de inglês”, conta Augusto, que ainda pretende fazer um MBA.

Fonte: Media Max

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