“Fome”, de Roxane Gay, é um grito de liberdade feminista

Novo livro da autora de “Má feminista” fala sobre a gordofobia e o corpo feminino na sociedade patriarcal

Por Clarissa Wolff , da Carta Capital 

Roxane Gay em Montreal, em 2015 (Eva Blue / Flickr)

Roxane Gay tem dois roupeiros.

Em um, ela guarda as roupas que usa: peças largas e escuras, que escondem seu corpo. Em outro, as roupas que gostaria de usar: coloridas, estampadas, expressivas.

São roupeiros, mas poderiam ser vidas. Eu poderia falar: Roxane Gay tem duas vidas. A que ela vive, e a que ela sonha. Porque a vida de Roxane Gay foi interrompida quando ela tinha 12 anos. Até esse momento, ela era uma criança normal, inocente, feliz, brincalhona. Magra. Mas, aos 12 anos, ela foi estuprada pelo menino por quem ela era apaixonada e por vários amigos dele.

Como criança criada no catolicismo, acreditando que sexo pré-marital era errado, toda culpa se voltou contra ela. Na escola, os apelidos de “puta” que ela recebeu pelas fofocas de que tinha feito isso porque quis não ajudaram. E o estupro coletivo definiu quase tudo que veio depois, porque definiu uma atitude: agora, Roxane Gay iria engordar tudo o que pudesse e usaria o próprio peso como escudo contra homens.

É essa a história e seu desenrolar que a autora consagrada pelo livro Má Feminista conta em seu lançamento, que tem o título incrível de Fome. Em Fome, Roxane nos coloca na pele de uma pessoa muito gorda e tenta mostrar, muito mais que explicar, o quanto o acesso de cidadão é debilitado nesses casos. Da compra de roupas até a viagem de avião (em que companhias aéreas sugerem que pessoas obesas comprem dois lugares para si, o que é um absurdo), Roxane nos coloca em seus sapatos e nos mostra como é vivenciar o mundo e a cidade se você não é o que é considerado “normal”.

Mas Fome não é apenas um manual de empatia. Fome tem uma grande ambição já denunciada no subtítulo, “uma auto-biografia do (meu) corpo”. Pensar o corpo, próprio ou do outro, é uma reflexão complexa e quase inexistente. Poucas vezes pensamos em nosso próprio corpo, que durante a maior parte da vida permanece como um acessório de moda: o quanto devemos diminui-lo ou aumentá-lo, o quanto devemos interferir através de cirurgias estéticas, o quanto ele merece ser amado ou odiado baseado no único mérito de sua aparência.

FOME, Roxane Gay Globo Livros Tradução: Alice Klesck 272 páginas R$39,90

 

Dissociamos a noção do corpo do que há dentro dele: um problema no fígado é apenas lá. O fígado é um órgão. O corpo, como um todo, segue como um componente de um cartão de visitas que, como a tipografia ou o tipo do papel, deve ser alterado dependendo da impressão que se espera dele.

Pensar o corpo como organismo é um pouco mais raro. Como organismo, ele se transforma em uma engrenagem de carne que faz a máquina da nossa existência funcionar. O quão louca e estranha e mágica é essa coisa quase invisível na nossa memória que nos faz andar, sorrir, falar, respirar. Viver. O quanto a função estética do corpo parece inútil quando se coloca isso em questão.

E a própria fome, que estampa a capa do livro em caixa alta, é outro ponto a se falar. A gente usa a palavra fome para falar de sexo, de trabalho, de lazer. Parece que todas as nossas vontades realmente importantes têm esse nome – faz sentido, a fome original, pela comida, é a responsável pela nossa existência física. A existência da alma também precisaria de alimentos. E a fome, em todos os seus sentidos, é, no fim das contas, o que nos leva adiante, o que nos faz ir pra frente, o que nos faz acordar de manhã e viver a vida. Só que quando o peso importa, o que essa fome significa? Como controlar a própria fome? Parece algo tão errado de se fazer.

Roxane também nos convida a sair do nosso casulo individual e mergulhar na fome feminina, pra sempre reprimida por corpos impossíveis. Toda nossa relação com nossos corpos, como mulheres, é atravessada por essas verdades. Em “O mito da beleza”, Naomi Wolf fala que “Uma cultura focada na magreza feminina não revela uma obsessão com a beleza feminina. É uma obsessão sobre a obediência feminina. Fazer dietas é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana pode ser controlada.”

No fim das contas, Fome é um grito de liberdade feminista. Que todo mundo deveria parar para ouvir.

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