quinta-feira, setembro 23, 2021
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Fratura do ar: as minhas memórias do São João

Nasci em Pouso Alegre, no estado de Minas Gerais, em 1989. Saí ainda novo de lá e a lembrança que permanece comigo —dessa cidade a que voltei tantas vezes— é a do bairro periférico do São João, conhecido no passado como “Vendinha”. Lembro da descida íngreme e infinita na entrada do bairro, onde ficava a casa da minha avó Amélia. Eu e a molecada escorregávamos nessa vertigem com skates, bicicletas, tábuas, caixas e qualquer coisa em que os nossos corpos pudessem se encaixar e deslizar.

Nesses tempos puros, a nossa visão vê as coisas, mas não as compreende.

O bairro do São João significava uma espécie de paraíso, um local onde eu e meus pais íamos várias vezes durante o ano para visitar a família da minha mãe e, de tabela, celebrar o meu aniversário. Diversão sem fim. “Parabéns pro Bruninho!”, gritava a criançada do bairro. Depois do bolo, íamos ao quintal da minha avó e colocávamos a nossa energia pra fora. Desse quintal, lembro-me da árvore enorme que ali habitava. Árvore plantada pela minha mãe em que eu subi e brinquei até os meus vinte e poucos anos, quando tivemos que derrubá-la por estar doente e velha. A queda dessa árvore representou o momento em que eu comecei a compreender o São João de verdade.

Mudamo-nos para longe de Minas Gerais. O meu pai trabalhava em uma empresa grande e de renome e havia um status financeiro e mítico por trás da gente. Então quando chegávamos de viagem era como se a comitiva do presidente estivesse pousando no São João. Inclusive, alguns moleques me apelidaram de Bill Clinton. Por ser negro, nunca entendi o apelido —nunca fui pego em nenhum escândalo, relaxem—, mas hoje o compreendo. Éramos o lado chique dos Ribeiro.

“Cês vem de avião?”, perguntavam. “Viajar de avião é coisa de rico”, diziam. Pra mim nunca foi, mas quem sou eu pra dizer alguma coisa? Esses detalhes da vida real e de como as pessoas nos enxergam só ficaram claros quando a árvore do quintal partiu. Foi quando percebi que aquele paraíso, assim como todos os paraísos, tinha seus curtos-circuitos.

As fraturas do ar são as mais difíceis de percebermos, mas elas estavam lá no São João através da desigualdade social, da violência, das drogas, das sirenes, das batidas, da prostituição e da perda da infância. Quando me tornei adulto, as histórias do bairro ficaram mais próximas: amigo tal foi preso, irmão de fulano foi baleado, não sei quem é da igreja agora, outro tá no comando e sei lá quem é traficante. Claro que nem tudo é tristeza, mas no fundo sabemos que muita coisa ali poderia ser melhor se houvesse oportunidades. A vida cobra pesado e as tentações estão na porta. É uma bola de neve.

Essas verdades que fui entendendo com o tempo foram aprofundadas com o Alzheimer da minha avó. Eu chegava em Pouso Alegre e ela dizia: “Olha que príncipe lindo!”. Depois falava que as meninas do bairro estavam loucas pra me ver. Ela ainda me reconhecia, as meninas não. Com o tempo, ela foi deixando de me reconhecer também. Um dia, eu estava deitado no sofá da sala e ela ficou parada, me olhando, coçando a cabeça. Eu ri e perguntei: “o que foi, minha preta?”. Ela respondeu virando as costas. Não demorou muito pra minha avó nos deixar e virar as costas para sempre. A morte dela representou o fim do São João pra mim. Ainda visito os outros familiares, mas a casa dela está abandonada. Uma casa que foi se tornando mais uma entre as outras, com a diferença de que ela é um fantasma em ruínas. E o tal príncipe do São João foi percebendo que aquele bairro não era o seu playground: era a vida real fantasiada de algodão doce.

Os sinais estavam na minha frente: eu pensava ser diferente daquela molecada, quase todos negros, mas não era tão diferente assim. Passei por muitos casos de racismo na adolescência, mas abaixava a cabeça e fingia ser outra coisa. Dizia que só a minha mãe era negra e que o meu pai era branco. Eu me tornei um kamizake de mim mesmo e não sabia lidar com o que eu era. Só com o tempo, após a queda da infância e a morte da minha avó, que despertei para a última lição. Ok, eu não sou diferente deles, porém ser igual não quer dizer ser a mesma coisa. Aprendi isso na pele, em um belo dia lá no São João.

Eu devia ter uns 10 anos na época. Um moleque negro e pequeno me chamou para um canto. “Ei, Bruninho, cola aí.” Todo bobo, fui até ele. O menino se ajoelhou e disse que tinha algo legal pra me mostrar. Assim que eu me abaixei vi a fumaça atrás dele e não tive tempo de reagir; quando menos percebi, ele esfregou um cigarro aceso nas costas da minha mão direita.

“Ai, véio”, gritei.

“Isso é só pra tu se ligar, Bill Clinton”, ele disse e saiu correndo, rindo sem parar.

Na época, eu não sabia o que ele queria dizer com “se ligar”. Depois que a árvore caiu, eu também não soube. Após a morte da minha avó, soube mais ou menos. Hoje em dia, olho para a costa da minha mão direita e sussurro para o que restou das cinzas: “agora eu tô ligado.”

Bruno Ribeiro

Mineiro radicado em Campina Grande (PB). Mestre em Escrita Criativa pela Universidad Nacional de Tres de Febrero (Argentina). Autor do livro de contos Arranhando Paredes (2014), traduzido para o espanhol. Venceu o Prêmio Todavia de Não Ficção.

PerifaConnection

PerifaConnection, uma plataforma de disputa de narrativa das periferias, é feito por Raull Santiago, Wesley Teixeira, Salvino Oliveira, Jefferson Barbosa e Thuane Nascimento

Fonte: Por Bruno Ribeiro, da PerifaConnection, na Folha de São Paulo 
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