terça-feira, setembro 21, 2021
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Hoje na História, 1881, o Dragão do Mar”, lidera o movimento de jangadeiros no Ceará, impedindo o transporte de escravos nas jangadas

Em 30 de agosto de 1881, há precisos 130 anos, era deflagrada a Greve dos Jangadeiros, liderada pelo pescador Francisco José do Nascimento, então conhecido como Chico da Matilde. O jangadeiro de Aracati, alcunhado de Dragão do Mar, foi um dos responsáveis pela mitificação em torno do pioneirismo do processo abolicionista cearense que, até hoje, divide opinião de pesquisadores.

Desde então, muita literatura vem sendo produzida em torno de o movimento que fez do Ceará a primeira província da República Velha a abolir a escravidão. Para recordar esse momento histórico, o Caderno 3 conversou com o professor da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Gleudson Passos, doutor em História Social, e responsável pela pesquisa biográfica da vida do Dragão do Mar, para o Memorial da Cultura Cearense.

“Em 25 de março de 1884, o Ceará se torna a primeira província a abolir seus escravos e Chico da Matilde será bastante atuante no movimento abolicionista local. Mas é válido ressaltar que aqui tínhamos poucos cativos. Grande parte eram trabalhadores urbanos, negros de ganho. Na verdade, grande parte da mão de obra explorada, naquele momento, era de descendentes indígenas que trabalhavam nas lavouras de algodão, nas atividades agropecuaristas desde o ciclo do gado, no século XVIII, já frutos de mestiçagem. Essa é uma das controvérsias: movimento abolicionista forte, sim, mas para libertar quem? Pouquíssimos escravos. Começa por aí”.

Segunda greve

Mas, o que, de fato, teria representado a greve dos jangadeiros? Quais suas narrativas? E os mitos gerados em torno dela? Qual a participação de Chico da Matilde entre tantas comunidades pesqueiras existentes no litoral cearense que lutavam, e lutam, para defender seus direitos? As respostas são muitas e, nem sempre, coadunam com os registros que estão nos livros de história.

“Um dos fatos importantes é que o Francisco Nascimento não foi o primeiro jangadeiro a tomar iniciativa da greve aqui. No final de janeiro de 1881, o José Napoleão havia encabeçado uma greve de três dias que paralisou o Porto de Fortaleza. Infelizmente, ele é pouco falado, pouco mencionado na historiografia cearense. Ele (José Napoleão), enquanto trabalhador do mar, e negro liberto, não era integrado ao Movimento Abolicionista, mas fez uma greve que envolveu catraieiros, condutores de pequenas navegações, jangadeiros, para ninguém fazer o deslocamento de escravos”, destaca o professor.

Mito do herói jangadeiro

Para justificar o lapso histórico e a criação do mito, o pesquisador Gleudson Passos explica que, somente após participar do Congresso Abolicionista no Maranguape, Chico da Matilde, sensibilizado com a causa, adere ao movimento. “Ele era segundo prático, função que cabia conduzir navios de alto mar até a ancoragem, para não ter perigo de encalhar. O movimento abolicionista local precisava de um herói do povo para poder enaltecer o movimento. Pegou o Chico da Matilde, começou a incorporá-lo à luta, e a participação dele acabou oxigenando o movimento abolicionista local. Poucos meses depois, foi feito um traslado do Ceará ao Rio de Janeiro, em um navio negreiro chamado ´Espírito Santo´, que foi puxando uma jangada batizada de ´Liberdade´, e com o Chico da Matilde junto a ela”.

Com tamanho apelo, e recebido pelo movimento abolicionista que fervilhava na Capital do Império, Francisco foi ovacionado pela corte, imprensa, intelectuais. E é nesse contexto social e político que o escritor Aluísio de Azevedo cunha o epíteto de Dragão do Mar para rebatizar Chico da Matilde, dando origem, a partir daí, ao famoso “mito do herói jangadeiro”.

“É importante dessacralizar os mitos, não reforçar mais a ideia de heróis, mas entender a sociedade da época. Os reais interesses que existiram dentro do Movimento Abolicionista que, depois, irão favorecer comerciantes locais ligados aos ingleses, que se beneficiarão com a mudança da Monarquia para a República e irão compor a oligarquia aciolina. Outra questão é entender o Dragão do Mar e os trabalhadores da época, que encamparam não só a segunda greve, mas, também, a primeira (greve). Era a expressão de trabalhadores do mar que não aceitavam mais a exploração dispensada aos escravos e a eles. Há, depois disso, uma série de outros movimentos que vão ocorrer. Muitos comerciantes portugueses viviam disso, então, não é 100% que não houve mais tráfico de escravos por aqui. Aquela coisa: os cativeiros foram abolidos, mas os cativos, não. A província cearense aboliu seus cativos sem nenhum plano, sem nenhum projeto de inserção na vida social e econômica do País. Eles ficaram totalmente alheios à cidadania”.

Depois das luzes apagadas

Mas, e o que acontece depois que a província do Ceará liberta seus cativos? Como ficam os poucos ex-escravos daqui? E os comerciantes que resistiram à causa? Para onde foi nosso destemido caboclo do mar? Infelizmente, como quase todos os mártires que simbolizam uma causa, o Dragão do Mar morreu em 1914, aqui em Fortaleza, pobre, esquecido e sem glórias.

“O campo da História Social tem feito pesquisas a respeito das relações de exploração, da realidade da escravidão no Ceará. Esse mito de dizer que o Ceará é a Terra da Luz, que todos os escravos foram libertos e viveram felizes para sempre, isso não existiu. A gente sabe que a exploração do trabalho escravo aqui foi relativamente expressiva nas serras, nos cafezais de Baturité, Maranguape, aqui em Fortaleza, a documentação da época mostra isso. Porque o processo colonizador aqui se deu basicamente na pecuária, atividade que não demandava tantos escravos. Se fosse a cana-de-açúcar, talvez”.

E finaliza. “Manuseando documentação da época, não vemos a participação de Francisco Nascimento e, até mesmo, do movimento abolicionista local, no cerne da abolição de 1888. O Movimento Abolicionista Cearense, após 1884, fica na trincheira da imprensa local, mostrando que o Ceará é mais adiantado que as províncias do sul e do norte, essas coisas. Mas o Chico da Matilde é praticamente ofuscado. Nos artigos produzidos sobre o Movimento Abolicionista local, em 97% dos casos, só as elites que participaram são contempladas. O Dragão do Mar, praticamente, só vai ser resgatado a partir das décadas de 30, de 40, e, ainda, sobre uma série de debates se ele seria herói ou não”, conta.

Foto em destaque: Reprodução/ O Povo

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